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lunedì 22 settembre 2014

Ultrapassar a palavra para chegar na imagem

Ler é um ato de poder porque permite ao leitor se apoderar de idéias e vivências que não lhe pertencem, mas que lhes são oferecidas pelo escritor. A forma como essa leitura acontece pode ser doce e envolvente ou mesmo agressiva e violenta. Os gêneros narrativos dão conta dessas diferenças de apresentação do conteúdo de um texto literário e, consequentemente, espera-se de cada um deles reações típicas e específicas.
A História é um livro que se propõe fazer uma análise sobre o poder e violência na humanidade. No entanto, o seu diferencial é aquele de apresentar a crueldade de uma forma emotiva e a partir de personagens incapazes de qualquer ato de violência ou mesmo de exercer qualquer tipo de poder. Esse confronto muitas vezes pode tornar a leitura “desagradável”, “estranha”, “incômoda”. Considerando a biografia da escritora e o seu comportamento como narradora fica evidente que essa foi uma opção consciente, que é a sua tese sobre a História.
Apesar de toda a violência presente no mundo, existe a utopia representada pela simplicidade, pela ternura, pela crença em ideais, pela ingenuidade. Os personagens principais do romance são pessoas comuns, mas íntegras, coerentes. Não possuem nenhuma qualidade especial, nada que as torne cativantes ou interessantes. Principalmente a ternura e a compaixão fazem com que o leitor realmente acredite na leitura deste romance, mais do que aspectos puramente intelectuais ou de conteúdo
O tom barroco que pode ser percebido na escritura de Elsa Morante colabora mais ainda com esse convite a visualizar uma gente simples vivendo em um subúrbio de Roma durante a guerra. Nada de atos heróicos, de situações de glamour, de força ou de idéias brilhantes. O poder da história é aquele de ter nas mãos o fio narrativo de tantas vidas que vivem sem saber que estão vivendo ou por que estão vivendo. A violência desse Outro que é mais importante que a própria identidade de cada personagem é um ato de crueldade que atinge o leitor de forma a insinuar essa necessária colaboração na leitura do livro. 
Ler deixou de ser um “colher”, ou um “recolher”, e passa a ser uma luta de forças entre as posturas do escritor diante da vida - e da própria literatura - e o que ele consegue fazer chegar ao leitor. O poder deste é o de conseguir ver o que era pra ser visto e ser capaz de ultrapassar a palavra para chegar na imagem.
Na leitura realizada nessa dissertação o papel da maternidade ganha destaque, assim como a figura da criança. É evidente o poder da crítica literária em realizar esse recorte da narrativa em busca de uma leitura diferencial e aprofundada da obra. As conclusões podem ser várias e até mesmo exageradas ou incongruentes. Mas está nas mãos do leitor usar esse grau de violência na leitura de um texto, ou não. Aqui, em busca de um retrato objetivo da alteridade da mãe e do seu filho, essa procura pode ser justificada, mesmo se peca pela ousadia.

Um outro elemento usado nesta leitura foi a identificação e a reflexão sobre uma figura de linguagem complexa e de difícil identificação. Também essa opção é um ato violento de leitura, do leitor tentando exercer o seu poder de avançar nos vazios presentes no texto. A hipotipose se tornou um instrumento de decodificação do discurso barroco da escritora, que apela sempre exageradamente para as imagens e as descrições como se quisesse preencher as páginas não somente com palavras, mas com figuras, paisagens, retratos e até mesmo cenas cinematográficas. 

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