Fra Angelico
A forma dramática da narrativa de Elsa Morante é também resultado do trágico na sua própria vida, presente desde a adolescência. Procurando a própria sobrevivência, sentindo-se deslocada ou diferente e, no fim da vida, extremamente preocupada com a aparência física. Os personagens femininos de Elsa parecem ser inspirados no sentimento de inadequação experimentados pela própria autora. Além de Ida Ramundo, ela criou a enclausurada Elisa e sua mãe deprimida Ana Massia em Menzogna e sortilegio, a controversa Aracoeli, do livro homônimo, entre outras mulheres-personagens que revelam um pouco do caráter e das angústias presentes na vida da escritora.
É muito significativo o lirismo na narração do nascimento de Useppe e das suas descobertas sobre o mundo, que deixam entrever o instinto materno e a celebração da maternidade como referência para o trágico. As descrições, os nomes, os elencos de objetos e situações oferecem ao leitor uma escritora que assume o instinto materno da sua protagonista, acompanhando o desenvolvimento daquela pequena criatura como se fosse um filho, como se ela tivesse vivido aquela gestação, dado à luz, amamentado e aquecido aquela frágil criança. Ao mesmo tempo, Elsa Morante se dedica a um rigor histórico, narrando com precisão os fatos da História italiana durante a Segunda Guerra. Na sua pietas temos também personagens secundários generosamente construídos, como Carulì e sua a relação “maternal” com Useppe, da mesma forma como o anarquista Carlo Vivaldi/Davi Segre desenvolve uma inesperada relação afetiva com o menino. Toda a narrativa é perpassada pelo tom pessimista, mas como um hino à esperança entoado pelos humildes, pelos “pequenos” do Evangelho de Lucas, como Elsa Morante indica na epígrafe.
A partir dessa leitura, uma característica marcante do romance é a presença do tom maternal. Como afirma Iser, “todos os modelos textuais representam decisões heurísticas”. Estes modelos não seriam o próprio texto, mas ofereceriam acessos a ele, o que significa que: “O texto nunca se dá como tal, mas sim se evidencia de um certo modo que resulta do sistema de referências escolhidos pelos intérpretes para a sua apreensão.” A ficção pode ser qualificada como uma figura autônoma da realidade e, neste caso, a escritora não parece preocupada com o significado dessa ficção, mas sim com os efeitos que a sua narrativa pode ter no leitor, que irá interpretá-la de acordo com a “dimensão pragmática” do texto. A conduta do leitor diante da narrativa é dirigida por dois elementos: a relação entre o texto e a realidade e entre o texto e o próprio leitor.
A História propicia uma interpretação que, na análise de leitura, se transforma também em uma reflexão sobre o caráter sociológico, histórico e mesmo estilístico da maternidade e o seu papel na construção da alteridade feminina. Após o bombardeamento do seu prédio, Ida se refugia em um galpão com outras famílias também desalojadas. Aqui, o sofrimento de Ida pela ausência de privacidade, a vergonha e autocomiseração são ampliadas, oferecendo um retrato cada vez mais devastador da sua identidade.
"Ida temia sempre estar atrapalhando, ser demais, e apenas muito raramente saía do seu cantinho, vivendo recolhida atrás da sua cortina, como um preso numa solitária. Enquanto se vestia ou se despia, receava que algum estranho aparecesse por trás da cortina, ou que a visse através dos furos dos sacos. Envergonhava-se todas as vezes que ia ao banheiro, onde muitas vezes era preciso entrar na fila. No entanto, aquele quartinho fétido era o único lugar que lhe concedia, pelo menos, alguma pausa de isolamento e tranqüilidade."
A história de Ida é semelhante a de tantas mulheres que sentem dificuldade de se adequar à vida social e sofrem as angústias e ânsias em níveis mais elevados do que seria considerado normal. Este sofrimento patológico de Ida se deve em parte à sua excessiva timidez, mas também provavelmente da doença nervosa que dominava o seu frágil corpo. Apesar da doença estar controlada na idade adulta, com uso de calmantes e soníferos, ainda apresentava marcas dos acessos epiléticos sofridos na primeira infância. O comprimido para dormir, a sonolência sempre presente, a ausência de vontade refletem não somente a postura desta mulher diante da vida, mas a presença de doenças do espírito na existência humana.
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A maternidade teria sido para Ida também uma espécie de válvula de escape para as suas angústias e a fonte de força e determinação para continuar a sua história. É a partir dessa sua condição de mãe que ela organiza e planeja os seus atos. Durante a Segunda Guerra, vivendo entre os desalojados na periferia de Pietralata, em Roma, a professora viveu momentos de medo e angústia que se relacionam diretamente à sua condição, como quando temia que a polícia alemã a prendesse - e também o pequeno Useppe - porque ela era de origem judia. Em uma noite, temendo o pior, ela se preparou para uma fuga. Elsa Morante convida, através das imagens sugeridas pelas suas palavras, a ver e sentir com Ida. É mais um caso de hipotipose que colabora na construção do personagem e que demonstra a crise de ansiedade e pânico - no sentido patológico identificado pela psiquiatria - que se apodera da personagem:
"Deitara-se vestida e procedera da mesma forma com relação a Useppe. Nem ao menos tomara o seu calmante, para evitar que os alemães, se viessem prendê-la durante a noite, a surpreendessem despreparada. Mantinha-se agarrada ao filho, pois decidira que, assim que ouvisse os passo inconfundíveis dos militares e as suas batidas na porta, tentaria fugir, atirando-se do telhado com Useppe nos braços; em seguida, correria e correria através dos prados até alcançar o pântano, onde se afogaria junto com ele. Os pavores contidos há anos, rompendo-se diante do terror imediato desta noite, cresciam envoltos numa fantasia violenta e sem trégua. Pensava sair à toa pelas ruas, com Useppe entre os braços, sem ligar para os tiroteios anti-aéreos, pois os vagabundos tornam-se invisíveis....(...) Novamente, como no passado, os seus receios contraditórios perseguiam um cometa misterioso que a orientava na direção dos judeus, prometendo-lhe, bem no fundo, um estábulo materno, quente pela respiração dos animais e pelos seus imensos olhos que não julgavam, eram tão-somente piedosos."
A figura de Ida não é a expressão de como são ou foram as mulheres na história. Mas essa personagem provoca potenciais leitoras que podem se reconhecer; ou mesmo despertar a revolta diante dessa falsa passividade feminina. A estratégia retórica de A História é dar relevo às mulheres que são objetos de agressão e marginalização. Mas esta opção retórica de Elsa Morante não corresponde a uma tese sobre a identidade feminina, é na verdade uma estratégia comunicativa e uma determinada concepção do desejo individual na história.
"Porém, assim que lhe caiu sob os olhos, em princípios de dezembro, aquela lei dupla só teve um significado para ela: a partir daquele momento era uma vigiada especial da polícia. A sua culpa já fora contemplada pela lei, sem equívocos nem compromissos, e denunciada a todo mundo sobre as paredes da cidade:
Porém, assim que lhe caiu sob os olhos, em princípios de dezembro, aquela lei dupla só teve um significado para ela: a partir daquele momento era uma vigiada especial da polícia. A sua culpa já fora contemplada pela lei, sem equívocos nem compromissos, e denunciada a todo mundo sobre as paredes da cidade:
Procura-se uma tal Ida, apelidada Iduzza, de raça mista, mãe de dois filhos, o mais velho desertor e militante da resistência, e o mais novo bastardo, de pai desconhecido. Ida não tinha muito medo no que se referia a Ninnarieddu. Assim que pensava nele, via-o, no seu andar jingado (sic), nas pernas longas e retas e os pés espalhados para fora, que sobrepujava todos os percalços ou confusões, um filho invulnerável. Porém, com relação a Useppe era perseguida por tremendos pavores. Todo mundo sabia que durante a perseguição aos judeus, os nazistas tinham arrancado as crianças, mesmo as que estavam nos braços de suas mães, atirando-as nos seus tétricos furgões, como se fossem lixo; e que em certas aldeias, em represália por alguma coisa ou por estarem bêbedos, ou até mesmo por prazer, tinham assassinado as crianças, esmagando-as com seus tanques, queimando-as vivas ou batendo com elas contra a paredes. Naquele tempo poucas pessoas acreditavam nestas notícias (que na verdade - é preciso repeti-lo - foram posteriormente confirmadas pela História e, aliás, representavam apenas uma pequena parte da realidade), julgando-as inconcebíveis. Mas Ida não conseguia afastar aquela visão, e por isto as ruas de Roma e do mundo pareciam-lhe repletas de possíveis assassinos do seu Useppetto, pequeno pária sem raça, subdesenvolvido, subnutrido, pobre exemplo sem valor. Às vezes, não apenas os fascistas e nazistas, mas todos os seres humanos adultos pareciam a ela assassinos; e corria pelas ruas apavorada, para só parar, exausta e com os olhos esbugalhados, no refúgio; e já da rua vinha gritando Useppe! Useppe!, e ria-se como uma menina ingênua ao ouvir a sua vozinha que lhe respondia: - Olá, mãe!!"
Além de Ida, aparecem muitas outras mães em A História, tal fato comprova que o tema “maternidade” tem um lugar de destaque no romance. É por meio desse comportamento singular, ser mãe, que muitas mulheres comprometem a sua alteridade e que a transformam em indivíduos diferentes diante dos outros. Uma alteridade em confronto com o da da mulher sem filhos. Ida Ramundo, por exemplo, consegue se expressar enquanto indivíduo somente quando se torna mãe.
Com exceção da gata Rossella, que abandona seu filhote até morrer de fome, as mães em A História lutam dolorosamente pela vida de seus filhos. Rossella age com seu instinto animal de sobrevivência, sem as questões e ansiedades que regem a maternidade no campo humano e que tornam essa experiência uma das mais profundas da humanidade. A ausência de consciência e de um saber anterior legitimam o comportamento da gata diante da maternidade inesperada, como podemos observar na descrição do parto fornecida por Elsa Morante:
"Quando a noite já estava bastante adiantada, e ninguém mais se lembrava dela, inesperadamente deu um miado estranho e inquieto, saiu de sob a pirâmide de carteiras, perambulando por ali, com um lamento pungente que implorava: ajudem-me, ajudem-me. Estava possuída por uma excitação tão intensa, como jamais experimentara antes. E então foi se enfiar no seu buraco no meio da palha, atrás da cortina, onde, dali a pouco, deu à luz um gatinho."
Mas ao mesmo tempo não é racionalmente possível culpar Rossella pelo abandono, como fazem todos os habitantes do galpão de Pietralata. Ao perceber que não tinha leite para amamentar o filhote, a gata não tinha como procurar uma alternativa na limitação do seu pensamento e nível de reflexão. É interessante essa proposta de Elsa Morante em demonstrar a diferença do grau de entrega e responsabilidade da maternidade no mundo animal em comparação ao experimentado pela personagem humana. A alteridade da gata sofre um julgamento negativo porque o seu comportamento subverte as regras estabelecidas na sociedade. Carregando nas hipotiposes dramáticas, assim Elsa Morante descreve essa experiência materna animal:
"Ninguém esperava por aquilo, já que nem tinham percebido que estivesse grávida. Na verdade, era um único filhotinho, fraco, tão minúsculo que parecia muito mais um ratinho do que um gato. Embora fosse muito nova e com muito pouca idade, ela tratou logo de arrancar a membrana que o envolvia com mordidas impacientes e quase raivosas, como o fazem todas as mães gatas experientes. Depois começou a lambê-lo rápido, muito rápido, como todas as mães gatas, até que o gatinho deu o seu primeiro miado, tão fino que parecia um mosquito. Então Rossella deitou-se por cima dele, talvez esperando alimentá-lo. Mas provavelmente, talvez devido aos seus jejuns constantes, além da sua idade imatura, tinha as maminhas secas. De repente, e inesperadamente, separou-se dele, observando-o cheia de curiosidade e preocupação. E foi deitar-se sozinha a alguma distância, onde ainda ficou um pouco sem fazer nada, com os olhos conscientes cheios de tristeza, sem responder àquele miado fraco e solitário. Depois, inesperadamente, endireitou as orelhas, percebendo o tom conhecido dos irmãos de Caruli que entravam. Tão logo ouviu-se abrir a porta de entrada, após ter dado um último e indiferente olhar para o gatinho, já estava pronta para sair de trás da cortina e ir para a rua."
O filhotinho de Rossella morre após três dias de agonia, com fome e abandonado. Todos os moradores do alojamento participam desse sofrimento sem nada poder fazer e, quando a gata retorna, triste e sofrida, é escorraçada por todos. Amedrontada e faminta, Rossella aproveita um descuido e mata os dois canarinhos que eram cuidados por Caruli, a Carolina “Mil”, uma adolescente também mãe que aceitou a incumbência em troca de pagamento, depois que o verdadeiro proprietário dos pássaros, Giuseppe Secondo, se juntou à resistência partigiana. Dentro das suas limitações, a violenta vingança de Rossella é a única resposta possível a ser dada aos Outros.
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A adolescente Caruli é um outro exemplo diferencial de maternidade que Elsa Morante apresenta no seu romance. Ela cuida das suas gêmeas Rosa e Celeste amamentando, limpando e ninando com uma ternura de menina cuidando de bonecas queridas. É o máximo de si que consegue dar a partir do seu corpinho ainda infantil, que também experimenta a fome e a desolação da guerra, unida à sua família em meio aos desabrigados na periferia de Roma - o mesmo galpão em Pietralata onde Ida e Useppe encontram refúgio. Mas Carolina vê as filhas como bonecas e também reage com agressividade diante da falta de cooperação dos bebês. Assim começa a aparição de Carolina na história de Ida:
"Ao chegar, parecia um fenômeno da natureza, tão minúscula e com uma barriga tão grande, que não se compreendia como conseguia carregá-la sobre seus pezinhos diminutos. No mês de junho, em Roma, no bairro de San Lorenzo, ela deu à luz a duas gêmeas, sadias, normais e gorduchas, enquanto que ela, embora magricela, estava gozando de boa saúde. As duas receberam os nomes de Rosa e Celeste. Como eram idênticas em tudo e por tudo, a mãe, para não confundi-las, mantinha amarrada em seus pulsinhos duas fitinhas, uma celeste e a outra rosa. Infelizmente, com o passar do tempo estas ficaram quase que irreconhecíveis devido à imundície. E a mãe todas as vezes examinava-as escrupolosamente, antes de afirmar, satisfeita:
- Esta é Rusinella. Esta é Celestina.
Está claro que o seu pouco leite infantil não chegava para as duas carulinettes. Mas uma cunhada sua, romana, ajudou-a, pois estava cheia de leite já que acabara de desmamar à força o último filho - Tílio - que, muito fanático do seu seio, queria passar todo o dia agarrado a ele, mamando."
Carolina é apresentada como uma menina-mãe que, no entanto, encara esse desafio com dedicação e tranquilidade. Mas Caruli não consegue dominar totalmente o seu instinto ainda adolescente no ato de ser mãe. Por isso, nos revela Elsa Morante, era uma ótima mãe, mas suas maneiras eram autoritárias e rápidas, quase sem carinho. E, sem querer, se via brigando com as bebês, como se elas fossem somente miniaturas de si mesma. “Talvez ainda muito imatura para a maternidade, ela, muito mais do que os dois bebês, via nelas duas pessoas da mesma idade sua, anãs, que tinham saído de dentro dela como uma surpresa, como Janet Gaynor da bomba-ovo”.
A menina fazia parte de uma grande família, quase uma tribo, que vinha de Nápoles e se juntou a outra parte da família que vivia em Roma, sendo que todos tinham sido desalojados pelas bombas da Segunda Guerra. Eles foram apelidados de “Mil”, justamente por serem tantos.
"Entre os Mil havia um vazio na geração de meia-idade, devido a dois pais - avós de Impero e Currado - que tinham morrido esmagados em Nápoles. Entre tantos filhos menores, eles tinham deixado órfã, entre os presentes Mil, a filha caçula que se chamava Carolina, a qual estava com quinze anos mas parecia ter treze; por causa das duas trancinhas pretas, e dobradas pela metade presas junto às têmporas, fazia lembrar uma gata ou uma raposa com as orelhas em pé. Há um ano, em Nápoles, durante as noites passadas nas grutas para fugir aos bombardeios, esta Carolina, que contava quatorze anos àquela época, tinha ficado grávida, não se sabia por obra de quem. Na verdade, ela mesma diante dos interrogatórios insistentes da tribo, respondia jurando que, se tinha sido alguém, ela nem percebera coisa alguma. Porém não se podia acreditar na sua palavra, uma vez que a sua cabeça era feita de tal modo que acreditava cegamente em todas as fantasias e invenções, não só dos outros, como nas suas."
Essa era a pequena Carolina, descrita como uma animalzinho sem pensamento racional. Mais uma vez Elsa Morante insiste nessas descrições humanas comparadas a animais, que revelam a questão dialógica proposta neste livro, entre o humano e o animal, entre a utopia e o poder, entre a perspectiva da violência e a do amor, representado principalmente pela maternidade em suas diferentes formas.
É possível observar a alteridade da maternidade também na senhora Di Segni, uma judia do gueto romano que saiu para as compras em uma manhã de 1943 e, ao voltar, encontrou o bairro desabitado. Todos os judeus do gueto tinham sido levados para um trem com destino aos campos de concentração nazistas. A senhora Di Segni consegue chegar à estação e procura desesperadamente a sua família naqueles vagões de gado ainda estacionados.
"Alguma voz desconhecida alcançou-a lá do fundo do comboio dizendo-lhe que fosse embora, senão eles também a agarrariam quando voltassem dali a pouco.
- Nãoooo! Não, não vou embora, a minha família está aqui! - foi a sua resposta, e investiu ameaçadora e enfurecida, batendo com os punhos contra os carros. - Chamem-nos! Di Segni! Família Di Segni!...Settimio!...- deixou escapar de repente, correndo desenfreadamente para um dos vagões e agarrando-se à tranca da porta, numa tentativa impossível, de arrombá-la. Por trás da grade do alto, aparecera uma pequena cabeça de velho. Percebiam-se os seus óculos brilhando no meio da escuridão reinante, sobre o seu nariz macilento e as suas mãos diminutas agarradas às barras."
A senhora Di Segni não aceita o seu destino de sobrevivente, enquanto toda a sua família, marido, filhos e netos são levados para um destino impensável. A sua força maternal é maior que qualquer instinto de auto-preservação e ela arrisca todo o seu ser nessa busca. Mais tarde o leitor é informado que ela conseguiu completar o seu ciclo, unindo-se à família nos vagões lotados de judeus. Ela morre assim que chega ao campo de concentração, junto com o marido e os netos. Estes porque muito jovens, aqueles porque muito velhos.
A maternidade ao longo da história era considerada um aspecto natural da vida feminina , como crescer ou morrer. Como observa Lucila Scavone, com a modernidade a maternidade não será mais sempre aceita como irreversível, ela é também uma postura diante da própria existência e da sociedade onde a pessoa está inserida. Com a possibilidade de contracepção, a maternidade passou a ser uma discussão prática e as implicações sociais negativas da maternidade são confrontadas com a valorização dos aspectos psico-afetivos. Neste sentido, o ato de ser mãe passa a ser também um exercício de alteridade consciente, seja na sua negação ou na sua vivência.
A figura materna representada em A História é quase sempre uma Stabat mater, uma madre dolorosa, uma mãe em sofrimento que utopicamente tenta resgatar toda a humanidade da violência da História. Seja a personagem uma mulher madura, uma adolescente ou uma gata, o ato de ser mãe se torna sempre dramático e sofrido sob o olhar de Elsa Morante.