Elenco blog personale

mercoledì 10 settembre 2014

Sapatos novos para Useppe

A noção de ultrapassado, de novo, de real, de fantasia, tudo é colocado em discussão por Elsa Morante, ela também provavelmente sufocada pela necessidade de contar essa “história”. Experimentar o que não faz parte do seu horizonte significa uma objetivação distanciada do que o envolve até à evidência da experiência de si mesmo, o que às vezes não é possível pelo alto grau de envolvimento no contexto das ações pragmáticas. 

Para Iser, o diálogo entre o texto e o leitor depende dessa assimetria e da indeterminação que provém dela, desde que o texto seja dotado de “meios de controle” sobre esta troca, e é isto que permite a ampliação dos horizontes de leitura. Essa ampliação é um foco de estímulo ao desenvolvimento das competências individuais. No romance de Elsa Morante, por exemplo, o leitor é “empurrado” em direção a uma opinião bem clara e definida da escritora sobre os fatos históricos e o comportamento dos excluídos diante do inevitável. A escolha da maternidade como argumento que guia a história também é uma clara referência a um resgate do papel feminino e da importância da mãe na determinação do percurso individual, seja no desenvolvimento das competências cognitivas ou na tomada de decisões.

Uma noite, nos conta o narrador, alojada em um refúgio depois do bombardeamento do seu prédio, Ida não consegue dormir. Pretende acordar cedo para comprar sapatos novos para Useppe. Sonhos a perseguem e uma sensação de ansiedade generalizada vai se apoderando do seu corpo. O texto “empurra” o leitor pelas ruas de Roma atrás dessa mulher confusa entre a compra econômica e um instinto de sobrevivência. O texto faz com que o leitor inicialmente se sinta incomodado por esse sofrimento psíquico, mas se supera a sensação de desconforto inicial, avança e é controlado pelo texto, que o envolve e o faz refletir sobre o sofrimento e a angústia de Ida.

Na verdade, não sabia mais onde se enfiar. A sua dúvida noturna sobre a possibilidade de vir a ser procurada pelos alemães estava crescendo dentro dela como uma certeza paranóica no seu cérebro enfraquecido, barrando-lhe,  como um colosso, os caminhos que a levariam de volta para o refúgio em Pietralata. Porém, acompanhava os passinhos de Useppe que se dirigiam para a parada do ônibus, convencidos e orgulhosos, se bem que muito irregulares por causa das botinhas muito grandes e ainda duras.


A dúvida e a angústia predominam na narrativa morantiana e existe uma clara procura por um leitor que compreenda e sofra junto, ou seja, nas palavras da escritora, precisa ser “o analfabeto” que se proponha a ler esta história como um processo comunicativo no qual estão em jogo questões utópicas sobre a humanidade. Assim é evidente que A História foi escrito para um leitor que tenha a palavra final sobre o texto que está nas suas mãos, porque requer participação e reflexão, mas também porque a própria narrativa tem necessidade de ser completada pelo ato de leitura. Ao mesmo tempo é um chamado para observar os efeitos da desigualdade e da exclusão entre indivíduos desprovidos de competência para articular os fatos e a própria existência.

Nessun commento:

Posta un commento