Na dedicatória do romance A História identificamos o seu leitor implícito, desejado e almejado por Elsa Morante. Ela dedica o livro aos analfabetos, mas não a todos, mas ao “analfabeto para quem eu escrevo”. Aquele que conhece as letras, sabe formar palavras e construir frases, caso contrário não seria capaz de exercer o ato de ler. Mas é um analfabeto porque não tem o pensamento formado e moldado, que está aberto para o esforço de colher os significados, de organizar os fatos para preencher os vazios que aparecem, para entender que a negação é o elemento essencial para estabelecer a alteridade.
Por ser uma escritora utópica e anarquista, Elsa Morante apela para essas características na sua narrativa. Usando e abusando das opiniões políticas pela boca e escritura de Davide Segre ou exagerando a bondade e a doçura utópica de Useppe. Por meio dos seus personagens ela convida então o seu leitor, que deve evitar os preconceitos e julgamentos à sua postura intelectual e civil. Um leitor que deveria ser assim implicitamente analfabeto.
Como visto anteriormente, o conceito de “leitor implícito” proposto por Wolfgang Iser parte do princípio que esse leitor não tem existência real, ou seja, o leitor seria o conjunto das pré-orientações que um texto ficcional oferece a seus possíveis leitores. A estrutura do texto anteciparia a presença do receptor. A concepção do leitor implícito enfatiza as estruturas de efeitos do texto, cujos atos de apreensão relacionam o receptor a ele. De acordo com Iser:
"(...) os processos de formação de sentido do texto não se realizam na leitura sem que se percam possibilidades de atualização. Essas possibilidades são condicionadas, no caso concreto, pelas disposições individuais do leitor, bem como pelo código sociocultural do qual ele faz parte. Fatores desse tipo orientam a seleção daquilo que constitui para cada leitor a base da consistência e, assim, o pressuposto para a pregnância de sentido do texto."
A leitura requer sempre a participação do leitor. Um texto só existe quando lido e quando o seu sentido é investigado. Na análise literária de Iser, a proposta é que fique claro quem é o leitor implícito no texto, deve-se levar em consideração esse leitor, ou seja, para quem o autor estava dirigindo a sua mensagem e o que ele desejaria que fosse compreendido. No entanto, elaborar o perfil desse leitor implícito não é um trabalho simples porque existem diversos fatores que influenciam nessa construção. Na composição do personagem Ida Ramundo, por exemplo, a partir das opções narrativas e da abordagem realizada, acontece o que Iser chama, por exemplo, de negação e que vai se refletir diretamente na composição da alteridade do personagem e vai exigir uma determinada competência de leitura.
"Deste modo, a negação doutras possibilidades pela norma em questão dá lugar a uma diversificação virtual da natureza humana, que assume uma forma definida à medida que a norma é mostrada como uma restrição imposta à natureza humana. A atenção do leitor já não se fixa em que as normas representam, mas sim em que esta representação exclui, de modo que através da norma se demonstra uma diferenciação virtual da natureza humana." (Iser)
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