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giovedì 30 giugno 2011

Ainda sobre literatura de mulheres, tentativas frustradas de rotular

O romance de Elsa Morante é também uma recordação. A lembrança da sua infância e juventude nos bairro Testaccio, em Roma, entre operários e assalariados, compõe a narrativa com descrições fortes e reais. Esse seria um outro aspecto que caracterizaria este livro como literatura feminina, o tom memorialista, buscando no passado e nas vivências pessoais elementos para a construção dos personagens e criação do espaço onde se desenvolve a narrativa.
A produção literária de Elsa Morante está vinculada a um período de descontinuidade do Neorealismo porque ela encontrou a sua maneira própria de dizer, através das imagens, aquilo que os primeiros neorealistas haviam dito por meio de palavras. Somente por isso Elsa Morante já propõe uma ruptura. Mas é evidente que neste caso não é pelo fato de ser mulher, mas pela sua postura enquanto indivíduo na sua relação com a sociedade e, mais especificamente, com a escrita. O fato de ser uma escritora também levanta outras questões, como o caráter “feminino” que a narrativa de Elsa teria.
Não é relevante para esta pesquisa delimitar um romance com rótulos como ser ou não literatura feminina. Certamente homens e mulheres possuem formas diferentes de perceber a realidade e isso irá aparecer nas tentativas de narrar histórias, sem que isso tenha significados que alterem a análise proposta nesta dissertação, que é simplesmente avaliar a qualidade da construção das imagens que a autora realiza para elaborar a identidade dos seus personagens e definir de que forma permitem ao leitor identificar o exercício da alteridade. O que importa, na verdade, é observar como a literatura é um instrumento de conscientização da realidade.
A estratégia de leitura dessa autora não é baseada em um público feminino, mas na idéia de um leitor que se identifique com os anônimos que sofrem. O texto nos oferece intertextos, estratégias de representação e uso de exemplos retóricos para fugir dos argumentos racionais para entender a história e apontando uma reação emotiva e moralista do leitor, o que a princípio poderia apontar para uma tendência feminina.

Segundo um dos críticos italianos da obra de Elsa Morante, Carlos Sgorlon, ela é essencialmente uma criadora de tipos, o que significaria uma reduzida atenção aos fatos narrados e maior complexidade na estruturação dos personagens. Isto realmente se aplica a quase todos os seus romances, com exceção de A História, no qual a autora se esforça em fazer os personagens aparecerem tanto quanto os fatos vivenciados no decorrer da narrativa.
Na sua tese de doutorado, Maria Aparecida da Silva nota que Elsa Morante era uma escritora culta e consciente do momento político italiano no qual vivia e que, a princípio, usaria a sua capacidade narrativa para fornecer ao leitor uma interpretação ensaísta e ideológica da realidade. Elsa Morante usava as suas histórias para falar do mundo real, oferecendo a sua própria imagem do universo a partir do conhecimento dialético e da interrogação das coisas. Para ela, a arte deveria sempre se nutrir da realidade.

Literatura feminina?

Tanto em A História, como em seus outros romances, por exemplo, Aracoeli, L’Isola di Arturo ou Menzogna e sortilegio, percebe-se a valorização do feminino como postura diante da vida, como exigência de defesa de alteridade. Por serem narrativas que levam em consideração questões femininas, é inevitável a tentativa de classificação ou simplesmente de leitura da obra de Elsa Morante como “literatura feminina”.
A classificação “literatura de mulheres” ou “literatura feminina” pode designar um conjunto de obras literárias de temática sexuada, mesmo que estas obras não se entreguem de forma obstinada à tentativa de trazer para a narrativa a diferença genérico-sexual. O problema é que nem sempre a crítica literária consegue identificar certas caracterizações de gênero ou mesmo tipificar uma narrativa como “escrita feminina”. De um lado, acredita-se que a narração das experiências de uma escritora retratariam a “autenticidade” da condição de ser mulher. Por outro lado, no discurso feminista, aparece o valor positivo-afirmativo da conscientização da importância de ser mulher.
A literatura feminina seria um paradigma da ausência de espaço nos regimes de poder e uma busca pela identidade, normatizada e centralizada pela cultura oficial masculina. O lugar do texto feminino no contexto literário pode ser de continuidade ou ruptura. Mas de qualquer forma e em qualquer situação seria sempre visto e entendido como uma prática da diferença, que interrompe o sistema oficial de afirmação da identidade e da repetição.
As teorias sobre a narrativa feminina propõem a discussão sobre o gênero sexual como local de desafio e discussão das hegemonias discursivas, seja sobre a forma de escrever, os recursos estilísticos ou gramaticais ou a escolha dos argumentos e tipos de abordagem. As incertezas e ambiguidades na literatura escrita por mulheres na tradição literária aparecem quando a crítica literária tende a omitir, ou marginalizar, a produção feminina. Em duas situações se torna importante essa classificação de gênero: quando é usada a proteção paternalista do falso reconhecimento e quando o mercado promove essa literatura como simulacro de uma “diferença”, com o objetivo de vender melhor o seu produto.
Existe um conflito entre o conceito de literatura de “mulheres que escrevem” e de literatura “escrita como mulher”. De acordo com a teoria feminista, a linguagem não é neutra e existe um processo de hegemonização cultural dominante que provocaria uma masculinização da cultura. Segundo Julia Kristeva, além dos condicionamentos biológicos-sexuais e psicossociais que influenciam o comportamento do autor ou da autora diante da literatura, a escrita coloca em funcionamento várias forças de subjetivação.
Para Julia Kristeva, a literatura escrita por mulheres seria uma experiência de linguagem que recusa toda coincidência natural entre ser mulher e escrever como mulher. O que ela propõe é que ser mulher e escrever não significa necessariamente ser transgressivo, ou seja, o lugar do texto feminino no contexto literário pode ser de continuidade ou ruptura. No entanto, existe realmente uma prática da diferença que, no caso da literatura escrita por mulheres, muitas vezes interrompe o sistema da identidade e da repetição oficiais.
Para a linha do feminismo “literário essencialista” são naturais as associações de identidade e os termos “mulher”, “escrita” e “feminino” estabeleceriam uma relação de contiguidade expressiva. A linha pós-estruturalista do feminismo considera, no entanto, que essas associações devem ser construídas para expressar uma unidade de significado plena e transparente como, por exemplo, uma “identidade feminina”. Existem três propostas de qualificação de um texto como uma escrita feminina ou masculina: a primeira diz respeito aos temas abordados, aos universos criados e aos meios sociais; a segunda se refere aos posicionamentos das narradoras/autoras e à criação de suas personagens femininas; e a terceira está ligada a aspectos da linguagem e da construção narrativa de caráter memorialista.
Na sua tese de doutorado sobre Elsa Morante, Maria Aparecida da Silva propõe, por exemplo, que aspectos próximos da linguagem oral, como diálogos, caracterizariam também um discurso feminino. “Aspectos como o inacabado da frase, o uso de elipses, de formas interrogativas, de orações substantivas, de uma sintaxe fluída, com frases interrompidas ou diálogos suspensos por pausas, reticências, espaços em branco dão um ritmo próprio ao texto e são visíveis em diversos romances. Nota-se nas narrativas de Elsa Morante uma grande recorrência de diálogos, o que por si só integra a estrutura de linguagem oral.”
Um outro aspecto da narrativa de Elsa Morante identificado nessa tese é a sua relação com os modos verbais. Nas teorias sobre o discurso feminino temos prioritariamente o infinitivo e o condicional, que funcionam como referência para a suspensão do tempo, atitude identificada como mais feminina que masculina. No caso de Elsa Morante o modo privilegiado é o imperfeito, usado para descrever ações, condições, estados apresentados no seu aspecto de duração, mas não completado. Como observa Silva, essa opção “não deixa de ser uma suspensão no tempo de uma ação, condição ou estado”.

O Neorealismo e Elsa

Essa tentativa de renovação na literatura italiana é identificada em Alberto Moravia, Cesare Pavese, Elio Vittorini, Vitaliano Brancati, Carlo Bernari, Vasco Pratolini e Guido Piovene. Imediatamente após o fim da guerra e com a epopeia da resistência, como explica Mario Sansone, a Itália é tomada de um sentimento de “otimismo cheio de esperança”. Houve uma tendência à participação e à representação da sociedade e do mundo real, afastando-se do mero subjetivismo ou psicologismo, inserindo-se na vida real que nos circunda, fazendo o artista se sentir até mesmo participante e intérprete da sociedade.20
A proposta era retratar a sociedade italiana com as suas injustiças sociais, suas misérias, sofrimentos, imobilidades, trazendo novas esperanças, energia e fé. De acordo com Sansone, o Neorealismo foi o movimento literário que predominou entre 1945 e 1955 e que se manifestou como literatura de lembranças de guerra, de prisão, de luta, ou seja, como um amplo testemunho da guerra e da Resistência. Foi uma nova forma de dominar a realidade ou de encará-la, usando nos seus enredos personagens das classe mais humildes, alimentando o sentimento de renovação civil através da valorização do dialeto, do léxico e da sintaxe aproximativos do falado, a linguagem das coisas e a partir das coisas. São representantes do Neorealismo italiano, além de Moravia, citado anteriormente, Beppe Fenoglio, Francesco Jovine, Mario Rigoni Stern, Primo Levi, Pietro Caleffi, Renata Viganò, Giuseppe Marotta, Carlo Levi e algumas obras de Elio Vittorini, Italo Calvino, Carlo Cassola, Giorgio Bassani e Leonardo Sciascia.

Em um certo sentido o Neorealismo é herdeiro do Realismo do século XIX, mas muda a perspectiva. Os personagens do século XIX representavam um determinado ambiente, no século XX a atenção é mais concentrada nas contradições internas dos personagens, tomados por questões existenciais, transtornados pelo devastante impacto das grandes tragédias históricas, como pode-se observar nas obras de Cesare Pavese. O romance neorrealista apresenta várias características em relação à tipologia do narrador e à escolha do foco da narrativa. O narrador onisciente desaparece para dar lugar a um foco neutro, como no romance histórico; muda de um narrador externo para um narrador interno com o foco variável, dependendo do interesse do autor. No caso dos romancistas do Verismo, por exemplo, eles tinham a tendência em apresentar um ponto de vista coletivo, que no Neorrealismo, no entanto, dará lugar a uma voz mais individualista.
A crise do Neorealismo acontece na metade da década de 50, quando o clima político e civil italiano se transforma e os escritores sentem necessidade de uma maior autonomia artística. É nesse momento que Elsa Morante desenvolve as suas histórias. Inicialmente se dedica à evasão, à valorização do psicológico nos personagens, aos sentimentos. E quando o Neorealismo já é um movimento relativamente superado, escreve e publica A História, que fica na metade do caminho entre ser um romance “engajado” e a preservação de um enredo psicológico e sentimentalista. A partir desse romance, Elsa Morante se torna uma escritora mais completa e, em um certo sentido, atinge a maturidade.

Antonio Gramsci

Retornando ao período da atividade de Elsa Morante, a influência mais marcante do pós-guerra no pensamento italiano foi a do pensador e político italiano Antonio Gramsci (1891-1937). Inicialmente estudioso de línguas, Antonio Gramsci foi um dos fundadores do Partido Comunista e sempre se manteve intelectualmente ativo, primeiro como crítico teatral depois como jornalista. Eleito deputado em 1924, foi preso e condenado em 1926, passando o resto na vida na prisão. Sua saúde ficou muito debilitada e ele morreu com apenas 46 anos em 1937. As suas anotações sobre os mais variados assuntos foram preservadas e publicadas com o nome de “Cadernos do
26cárcere”. Apesar da aparente fragmentação da sua obra, em linha geral os seus escritos obedecem a uma coerência orgânica e complexa.
Gramsci se dedicou também à história da literatura, concebendo sempre a cultura como parte da política, e escreveu sobre a função da cultura, o papel dos intelectuais, os conceitos de poesia, de crítica e de literatura. O conceito de “bloco histórico”, formado pelos operários do norte da Itália e pelos camponeses do Sul, é essencial para entender o pensamento gramsciano, que sugeria então que os intelectuais se tornassem a consciência deste “bloco”, tornando-se “orgânicos”, ou seja, elementos decisivos na futura hegemonia das classes proletárias e trabalhadoras. Gramsci defendia a autonomia e a subjetividade da arte, mas acreditava que o artista se nutria da cultura da sua época.

Influências

Além dos veristas, a crítica literária italiana identificou como influência em Elsa Morante a poesia dos italianos Umberto Saba e Sandro Penna.
Nas poesias de Umberto Saba (1883-1957), aparecem todos os aspectos da vida quotidiana e da sua própria vida por meio de palavras domésticas, “palavras sem história”, escolhidas e escritas pela sua concreta objetividade.
Sandro Penna (1906-1977) foi poeta símbolo do homossexualismo na Itália, amigo de Saba e de Pier Paolo Pasolini. Classificado na linha anti-século XX, a sua linguagem é marcada pela estreita ligação com a tradição, mas aparece clara, imediata e de fácil compreensão. Nas poesias de Penna aparece a representação da realidade através de um acentuado caráter de descrição e narratividade. Suas poesias são sempre ligadas ao tema da homossexualidade e se realiza em formas aparentemente simples e musicais.



 Os romances de Elsa Morante têm uma estrutura de prosa lírica. Os temas giram em torno de objetos e coisas simples e concretas, funcionando como uma espécie de “decoração” da cena poética. A realidade para Elsa Morante está sempre envolvida em mistério e fantasia. Ela escreve de forma barroca, ou seja, exagerada, rica de detalhes e com cores fortes e impressionantes, também apresenta algumas construções em dialeto, mas a linguagem é sempre preciosa e elegante, mesmo quando os personagens são pessoas humildes.
A violência da Segunda Guerra Mundial irá marcar profundamente a vida de Elsa Morante, mas tal influência só vai aparecer vinte anos mais tarde, com a publicação de A História. A guerra foi um marco importante na história da literatura europeia, principalmente na Itália, mas enquanto a maioria dos escritores italianos se ressente dessas transformações, Elsa Morante se fecha no seu mutismo e se dedica aos seus romances psicológicos, parecendo ignorar a realidade.
As modificações territoriais, políticas e econômicas sofridas pelo país geraram um amplo movimento ideológico e cultural. Fala-se de uma “nova poética”, é o momento do Neorealismo. Como ressalta Mario Sansone, de um lado diziam que a literatura durante o período fascista teria procurado o caminho da evasão e da ausência; de outro lado, que os escritores teriam tentado manter a independência apesar da violência do regime fascista. O que se percebe claramente é que política e literatura conviveram intimamente nesse momento da história italiana.

Entre as novas orientações do pensamento literário italiano do pós-guerra estava a revolta anticrociana, ou seja, a crítica às doutrinas de Benedetto Croce (1866-1952), Apesar de ter sido um crítico ativo do fascismo, Croce foi apontado como um representante da burguesia privilegiada e do liberalismo conservador. Para os seus críticos, a sua oposição ao fascismo teria tido um caráter moralista e conservador e não revolucionário. Croce foi um historiador e filósofo muito preocupado com as questões formais e morais, como os comportamentos sociais, o respeito às leis e às regras.
No pós-guerra o pensamento intelectual italiano também recupera a figura de Francesco De Sanctis (1817-1883), que na sua Storia della letteratura italiana (1870) estabelece uma ligação entre o conteúdo e a forma com o objetivo de reconstruir o mundo moral e cultural no qual poderiam nascer as grandes obras literárias. De Sanctis considera a arte como algo “vivo”, como “forma”, e acreditava que entre forma e conteúdo não existisse distinção. O escritor, para De Sanctis, não está nunca isolado em si mesmo e recebe sempre influências externas.
O pensamento deste intelectual italiano será severamente criticado pelo positivismo que predominava na sua época. Somente com Croce acontece então uma reavaliação do seu método e, em seguida, Antonio Gramsci usará a obra de De Sanctis como inspiração para importantes críticas de inspiração marxista.
A revista Il politecnico (1945-1947), criada pelo escritor Elio Vittorini, marcou o período do pós-guerra ao defender que a função da literatura italiana naquele momento era fazer a Itália sair do isolamento cultural no qual o país se encontrava. A intenção de Vittorini era de “politicizar” a literatura italiana ao mesmo tempo que defendia a sua autonomia em relação às questões políticas e econômicas do período.

mercoledì 1 giugno 2011

O Verismo italiano e Elsa

Será no gênero romance que Elsa Morante realizará mais amplamente a sua extraordinária capacidade de contar fábulas. Mas o fará procurando no interior e na memória dos seus personagens uma imagem dramática com um alto nível lírico-evocativo. Elsa Morante é uma escritora que procura não revelar seus antepassados, no sentido de não dar demonstrações claras de influências ou inspirações provenientes de outros autores. 
Como nota Cesare Garboli, o olhar de Elsa Morante sobre os seus personagens é  meticuloso e ao mesmo tempo fantástico e visionário. São alucinadas criaturas que povoam as páginas dos seus escritos juvenis, uma coleção de personagens vários, como comerciantes, funcionários públicos, cocheiros, nobres, que aparentam ser normais, mas que revelam ser intimamente doentes e psicologicamente desequilibrados. Assim aparecem, por exemplo, a alma torturada do “bexiguento” e a perversidade do primo Edoardo em Menzogna e sortilegio. 
Ainda segundo Cesare Garboli, a atenção de Elsa Morante se fixa na identidade social dos seus personagens, e pertencer a uma determinada classe social, seja ela privilegiada ou servil, significa uma espécie de insuperável maldade, o espelho da louca psicologia deles. Em Menzogna e sortilegio, por exemplo, o nexo entre psicologia e dado social, já muito presente nos contos juvenis, será tão estreito, que os personagens se tornam prisioneiros da sua condição social, seja ela alta ou baixa. Essa relação é tão intensa e perturbadora, que coincide com o fundamento e a própria estrutura do romance.
O cenário social em Elsa Morante ignora a burguesia e admite somente a nobreza e os indivíduos das classes populares. Apesar de não apresentar influência clara e direta de outros escritores, que sejam marcantes na sua obra, na narrativa de Elsa Morante percebe-se que na apresentação do cenário social existem indícios de escolhas que coincidem com a corrente literária do século XIX identificada como “Verismo”, representado principalmente pelos escritores Giovanni Verga e Luigi Capuana. Neste gênero vemos uma Itália unificada há pouco tempo onde a questão social nas relações entre os donos do poder e os trabalhadores aparece vivamente. Predominam no campo político do período a questão “meridional”, ou seja, a diferença social e econômica entre o Norte e o Sul da Itália, a pouca participação popular no Risorgimento, visto como um fenômeno tipicamente burguês, a relutância do homem do campo em aceitar a nova estrutura político-social (o brigantaggio).
Tal realidade influencia a literatura italiana que, inspirada no Naturalismo francês e no Positivismo, dá origem a essa teoria de uma rigorosa fidelidade à realidade efetiva, à “verdade” das situações, dos fatos, dos ambientes, dos personagens e a representação de uma estreita correspondência entre o sentir e o falar. A literatura do Verismo tende a descrever a vida das pessoas humildes, dos rejeitados pela sociedade, dos marginalizados que lutam pela sobrevivência contra a fatalidade do destino. 
O Verismo se caracterizava pela tentativa de aplicar as leis científicas na investigação da vida em sociedade e nos comportamentos. Os acontecimentos cotidianos ganham em importância. Mais do que falar sobre emoções, o escritor se concentra em representar situações quotidianas como se fossem uma pesquisa científica, procurando as causas do seu desenvolvimento, que são sempre naturais e determinantes, e até mesmo a vida interior dos homens pode ser objeto de estudo científico e social. O escritor tenta se “mimetizar” na narrativa, ou seja, o narrador fica escondido e não deve interferir nos objetos observados, tal técnica representa o princípio da impersonalidade na literatura.
Luigi Capuana, autor de Giacinta, recusa a subordinação da literatura a objetivos científicos, ou seja, a narrativa literária não deveria corroborar uma tese científica ou engajamentos políticos e sociais. O método de escritura é que ganha um caráter científico, a ciência se manifesta somente na forma artística, na maneira em que o artista cria as suas figuras e organiza os seus materiais expressivos. De acordo com Giovanni Verga, outro expoente do “Verismo”, autor de I Malavoglia, a representação artística deve possuir “a eficácia de ter acontecido”, deve dar à narrativa a impressão de ser algo que realmente aconteceu. Os personagens deveriam ser “documentos humanos”. O leitor não deve ter a impressão de ver aquela história e aqueles personagens com os olhos do escritor. Por isso o escritor deve desaparecer e não deve deixar transparecer as suas reações subjetivas e as suas reflexões sobre o fato.
Na obra de Elsa Morante a burguesia é recusada, a não ser por algumas rápidas pinceladas como, por exemplo, em A História, ao apresentar o personagem Davide Segre. Outra característica marcante é que Elsa Morante também vai evitar nos seus romances referências ao norte da Itália, mais rico, nobre, burguês e desenvolvido. Suas histórias se passam no sul do país como, por exemplo, na ilha de Procida, em Roma, e chega no máximo em Orvieto, na Região da Umbria, no centro da Itália. Em A História aparecem algumas exceções, como as rápidas referências a  personagens nascidos em Mântua, na região da Lombardia, e Pádua, região do Vêneto e, em Aracoeli,  avós distantes que moram no Piemonte.
Como observa Cesare Garboli, o tempo histórico da narrativa de Elsa Morante é também o da época dos escritores “veristas”. É a época dos latifúndios, da pequena burguesia do rei Umberto. O nexo entre o “verismo” literário e a sociedade aristocrática, burocrática e rural permitiu a Elsa Morante trabalhar simultaneamente em dois registros: o banal e o pitoresco, o realístico e o fantástico. 
Deste modo, na narrativa dessa escritora as divisões sociais, os ritos, as cerimônias, não são manifestações exteriores e acessórias, mas, afirma Garboli, são estruturas que trazem a realidade. A cerimônia do mundo é a própria realidade, mas também a prova de que a realidade não é nada mais que aparência e ao mesmo tempo, paradoxalmente, é o fundamento do mistério e dos sonhos. Ou seja, a certeza física e social do mundo convive com a percepção da irrealidade. Neste sentido, o mundo teria como alicerces instituições indestrutíveis, mas privadas de fundamento. Na leitura que Garboli faz da narrativa de Elsa Morante, o mundo seria o lugar onde os sonhos, as larvas e os fantasmas reinam tranqüilos, a vida seria mistério e jogo.
A necessidade de fazer bruxarias com a realidade nascia nela além das origens literárias, ou mentais, ou de laboratório; não era nem mesmo uma necessidade, mas uma corrente de energia que nascia de um demônio desconhecido, mais masculino que feminino, entranhado nas vísceras de uma menina que veio do século XIX. Impávida, chegando até mesmo a demonstrar um zelo irredutível, a Morante faz ao mundo todas as perguntas que as mulheres normalmente deixam cair em volta de si mesmas como um véu distraído e leve, na convicção de que seria mais sábio levar para o túmulo, quanto mais inefáveis eles fossem,  os segredos da realidade. (GARBOLI)
Elsa Morante dá início a sua carreira de escritora interrogando os segredos da vaidade feminina, anéis, joias, pedras preciosas. Tal característica é bem desenvolvida na personagem Ana Massia em Menzogna e sortilegio.  Mais tarde parecem as costureiras que cortam diversos tipos de tecidos, experimentam novos modelos, pregam botões em uma solícita Aracoeli, no último romance da escritora. No centro do interesse dessa representação do feminino aparece a instituição familiar, que define os comportamentos e altera o destino dos personagens. As imagens caseiras e vivas que Elsa Morante nos oferece são o ponto de partida para refletir sobre as mulheres e como elas se percebem, são e desejam ser vistas.
A morte como o fim absoluto e as patologias da mente são temas recorrentes que permeiam as histórias de Elsa Morante. São histórias de metamorfoses e demências, anatomias de estados patológicos ou de ações criminosas, incursões nos mistérios fisiológicos, nas síndromes maníacas que alteram e descompensam a natureza das pessoas. O grotesco desses comportamentos se amolda a um mundo em que o sofrimento e a ausência de perspectivas predominam, e que aparecem pintados em cores ocres, mas muito vivas e dolorosas.
Além dos veristas, a crítica literária italiana identificou como influência em Elsa Morante a poesia dos italianos Umberto Saba e Sandro Penna. Os romances de Elsa Morante têm uma estrutura de prosa lírica. Os temas giram em torno de objetos e coisas simples e concretas, funcionando como uma espécie de “decoração” da cena poética. A realidade para Elsa Morante está sempre envolvida em mistério e fantasia. Elsa Morante escreve de forma barroca, ou seja, exagerada, rica de detalhes e com cores fortes e  impressionantes. Ela também apresenta algumas construções em dialeto, mas a linguagem é sempre preciosa e elegante, mesmo quando os personagens são pessoas humildes.