Será no gênero romance que Elsa Morante realizará mais amplamente a sua extraordinária capacidade de contar fábulas. Mas o fará procurando no interior e na memória dos seus personagens uma imagem dramática com um alto nível lírico-evocativo. Elsa Morante é uma escritora que procura não revelar seus antepassados, no sentido de não dar demonstrações claras de influências ou inspirações provenientes de outros autores.
Como nota Cesare Garboli, o olhar de Elsa Morante sobre os seus personagens é meticuloso e ao mesmo tempo fantástico e visionário. São alucinadas criaturas que povoam as páginas dos seus escritos juvenis, uma coleção de personagens vários, como comerciantes, funcionários públicos, cocheiros, nobres, que aparentam ser normais, mas que revelam ser intimamente doentes e psicologicamente desequilibrados. Assim aparecem, por exemplo, a alma torturada do “bexiguento” e a perversidade do primo Edoardo em Menzogna e sortilegio.
Ainda segundo Cesare Garboli, a atenção de Elsa Morante se fixa na identidade social dos seus personagens, e pertencer a uma determinada classe social, seja ela privilegiada ou servil, significa uma espécie de insuperável maldade, o espelho da louca psicologia deles. Em Menzogna e sortilegio, por exemplo, o nexo entre psicologia e dado social, já muito presente nos contos juvenis, será tão estreito, que os personagens se tornam prisioneiros da sua condição social, seja ela alta ou baixa. Essa relação é tão intensa e perturbadora, que coincide com o fundamento e a própria estrutura do romance.
O cenário social em Elsa Morante ignora a burguesia e admite somente a nobreza e os indivíduos das classes populares. Apesar de não apresentar influência clara e direta de outros escritores, que sejam marcantes na sua obra, na narrativa de Elsa Morante percebe-se que na apresentação do cenário social existem indícios de escolhas que coincidem com a corrente literária do século XIX identificada como “Verismo”, representado principalmente pelos escritores Giovanni Verga e Luigi Capuana. Neste gênero vemos uma Itália unificada há pouco tempo onde a questão social nas relações entre os donos do poder e os trabalhadores aparece vivamente. Predominam no campo político do período a questão “meridional”, ou seja, a diferença social e econômica entre o Norte e o Sul da Itália, a pouca participação popular no Risorgimento, visto como um fenômeno tipicamente burguês, a relutância do homem do campo em aceitar a nova estrutura político-social (o brigantaggio).
Tal realidade influencia a literatura italiana que, inspirada no Naturalismo francês e no Positivismo, dá origem a essa teoria de uma rigorosa fidelidade à realidade efetiva, à “verdade” das situações, dos fatos, dos ambientes, dos personagens e a representação de uma estreita correspondência entre o sentir e o falar. A literatura do Verismo tende a descrever a vida das pessoas humildes, dos rejeitados pela sociedade, dos marginalizados que lutam pela sobrevivência contra a fatalidade do destino.
O Verismo se caracterizava pela tentativa de aplicar as leis científicas na investigação da vida em sociedade e nos comportamentos. Os acontecimentos cotidianos ganham em importância. Mais do que falar sobre emoções, o escritor se concentra em representar situações quotidianas como se fossem uma pesquisa científica, procurando as causas do seu desenvolvimento, que são sempre naturais e determinantes, e até mesmo a vida interior dos homens pode ser objeto de estudo científico e social. O escritor tenta se “mimetizar” na narrativa, ou seja, o narrador fica escondido e não deve interferir nos objetos observados, tal técnica representa o princípio da impersonalidade na literatura.
Luigi Capuana, autor de Giacinta, recusa a subordinação da literatura a objetivos científicos, ou seja, a narrativa literária não deveria corroborar uma tese científica ou engajamentos políticos e sociais. O método de escritura é que ganha um caráter científico, a ciência se manifesta somente na forma artística, na maneira em que o artista cria as suas figuras e organiza os seus materiais expressivos. De acordo com Giovanni Verga, outro expoente do “Verismo”, autor de I Malavoglia, a representação artística deve possuir “a eficácia de ter acontecido”, deve dar à narrativa a impressão de ser algo que realmente aconteceu. Os personagens deveriam ser “documentos humanos”. O leitor não deve ter a impressão de ver aquela história e aqueles personagens com os olhos do escritor. Por isso o escritor deve desaparecer e não deve deixar transparecer as suas reações subjetivas e as suas reflexões sobre o fato.
Na obra de Elsa Morante a burguesia é recusada, a não ser por algumas rápidas pinceladas como, por exemplo, em A História, ao apresentar o personagem Davide Segre. Outra característica marcante é que Elsa Morante também vai evitar nos seus romances referências ao norte da Itália, mais rico, nobre, burguês e desenvolvido. Suas histórias se passam no sul do país como, por exemplo, na ilha de Procida, em Roma, e chega no máximo em Orvieto, na Região da Umbria, no centro da Itália. Em A História aparecem algumas exceções, como as rápidas referências a personagens nascidos em Mântua, na região da Lombardia, e Pádua, região do Vêneto e, em Aracoeli, avós distantes que moram no Piemonte.
Como observa Cesare Garboli, o tempo histórico da narrativa de Elsa Morante é também o da época dos escritores “veristas”. É a época dos latifúndios, da pequena burguesia do rei Umberto. O nexo entre o “verismo” literário e a sociedade aristocrática, burocrática e rural permitiu a Elsa Morante trabalhar simultaneamente em dois registros: o banal e o pitoresco, o realístico e o fantástico.
Deste modo, na narrativa dessa escritora as divisões sociais, os ritos, as cerimônias, não são manifestações exteriores e acessórias, mas, afirma Garboli, são estruturas que trazem a realidade. A cerimônia do mundo é a própria realidade, mas também a prova de que a realidade não é nada mais que aparência e ao mesmo tempo, paradoxalmente, é o fundamento do mistério e dos sonhos. Ou seja, a certeza física e social do mundo convive com a percepção da irrealidade. Neste sentido, o mundo teria como alicerces instituições indestrutíveis, mas privadas de fundamento. Na leitura que Garboli faz da narrativa de Elsa Morante, o mundo seria o lugar onde os sonhos, as larvas e os fantasmas reinam tranqüilos, a vida seria mistério e jogo.
A necessidade de fazer bruxarias com a realidade nascia nela além das origens literárias, ou mentais, ou de laboratório; não era nem mesmo uma necessidade, mas uma corrente de energia que nascia de um demônio desconhecido, mais masculino que feminino, entranhado nas vísceras de uma menina que veio do século XIX. Impávida, chegando até mesmo a demonstrar um zelo irredutível, a Morante faz ao mundo todas as perguntas que as mulheres normalmente deixam cair em volta de si mesmas como um véu distraído e leve, na convicção de que seria mais sábio levar para o túmulo, quanto mais inefáveis eles fossem, os segredos da realidade. (GARBOLI)
Elsa Morante dá início a sua carreira de escritora interrogando os segredos da vaidade feminina, anéis, joias, pedras preciosas. Tal característica é bem desenvolvida na personagem Ana Massia em Menzogna e sortilegio. Mais tarde parecem as costureiras que cortam diversos tipos de tecidos, experimentam novos modelos, pregam botões em uma solícita Aracoeli, no último romance da escritora. No centro do interesse dessa representação do feminino aparece a instituição familiar, que define os comportamentos e altera o destino dos personagens. As imagens caseiras e vivas que Elsa Morante nos oferece são o ponto de partida para refletir sobre as mulheres e como elas se percebem, são e desejam ser vistas.
A morte como o fim absoluto e as patologias da mente são temas recorrentes que permeiam as histórias de Elsa Morante. São histórias de metamorfoses e demências, anatomias de estados patológicos ou de ações criminosas, incursões nos mistérios fisiológicos, nas síndromes maníacas que alteram e descompensam a natureza das pessoas. O grotesco desses comportamentos se amolda a um mundo em que o sofrimento e a ausência de perspectivas predominam, e que aparecem pintados em cores ocres, mas muito vivas e dolorosas.
Além dos veristas, a crítica literária italiana identificou como influência em Elsa Morante a poesia dos italianos Umberto Saba e Sandro Penna. Os romances de Elsa Morante têm uma estrutura de prosa lírica. Os temas giram em torno de objetos e coisas simples e concretas, funcionando como uma espécie de “decoração” da cena poética. A realidade para Elsa Morante está sempre envolvida em mistério e fantasia. Elsa Morante escreve de forma barroca, ou seja, exagerada, rica de detalhes e com cores fortes e impressionantes. Ela também apresenta algumas construções em dialeto, mas a linguagem é sempre preciosa e elegante, mesmo quando os personagens são pessoas humildes.