Tanto em A História, como em seus outros romances, por exemplo, Aracoeli, L’Isola di Arturo ou Menzogna e sortilegio, percebe-se a valorização do feminino como postura diante da vida, como exigência de defesa de alteridade. Por serem narrativas que levam em consideração questões femininas, é inevitável a tentativa de classificação ou simplesmente de leitura da obra de Elsa Morante como “literatura feminina”.
A classificação “literatura de mulheres” ou “literatura feminina” pode designar um conjunto de obras literárias de temática sexuada, mesmo que estas obras não se entreguem de forma obstinada à tentativa de trazer para a narrativa a diferença genérico-sexual. O problema é que nem sempre a crítica literária consegue identificar certas caracterizações de gênero ou mesmo tipificar uma narrativa como “escrita feminina”. De um lado, acredita-se que a narração das experiências de uma escritora retratariam a “autenticidade” da condição de ser mulher. Por outro lado, no discurso feminista, aparece o valor positivo-afirmativo da conscientização da importância de ser mulher.
A literatura feminina seria um paradigma da ausência de espaço nos regimes de poder e uma busca pela identidade, normatizada e centralizada pela cultura oficial masculina. O lugar do texto feminino no contexto literário pode ser de continuidade ou ruptura. Mas de qualquer forma e em qualquer situação seria sempre visto e entendido como uma prática da diferença, que interrompe o sistema oficial de afirmação da identidade e da repetição.
As teorias sobre a narrativa feminina propõem a discussão sobre o gênero sexual como local de desafio e discussão das hegemonias discursivas, seja sobre a forma de escrever, os recursos estilísticos ou gramaticais ou a escolha dos argumentos e tipos de abordagem. As incertezas e ambiguidades na literatura escrita por mulheres na tradição literária aparecem quando a crítica literária tende a omitir, ou marginalizar, a produção feminina. Em duas situações se torna importante essa classificação de gênero: quando é usada a proteção paternalista do falso reconhecimento e quando o mercado promove essa literatura como simulacro de uma “diferença”, com o objetivo de vender melhor o seu produto.
Existe um conflito entre o conceito de literatura de “mulheres que escrevem” e de literatura “escrita como mulher”. De acordo com a teoria feminista, a linguagem não é neutra e existe um processo de hegemonização cultural dominante que provocaria uma masculinização da cultura. Segundo Julia Kristeva, além dos condicionamentos biológicos-sexuais e psicossociais que influenciam o comportamento do autor ou da autora diante da literatura, a escrita coloca em funcionamento várias forças de subjetivação.
Para Julia Kristeva, a literatura escrita por mulheres seria uma experiência de linguagem que recusa toda coincidência natural entre ser mulher e escrever como mulher. O que ela propõe é que ser mulher e escrever não significa necessariamente ser transgressivo, ou seja, o lugar do texto feminino no contexto literário pode ser de continuidade ou ruptura. No entanto, existe realmente uma prática da diferença que, no caso da literatura escrita por mulheres, muitas vezes interrompe o sistema da identidade e da repetição oficiais.
Para a linha do feminismo “literário essencialista” são naturais as associações de identidade e os termos “mulher”, “escrita” e “feminino” estabeleceriam uma relação de contiguidade expressiva. A linha pós-estruturalista do feminismo considera, no entanto, que essas associações devem ser construídas para expressar uma unidade de significado plena e transparente como, por exemplo, uma “identidade feminina”. Existem três propostas de qualificação de um texto como uma escrita feminina ou masculina: a primeira diz respeito aos temas abordados, aos universos criados e aos meios sociais; a segunda se refere aos posicionamentos das narradoras/autoras e à criação de suas personagens femininas; e a terceira está ligada a aspectos da linguagem e da construção narrativa de caráter memorialista.
Na sua tese de doutorado sobre Elsa Morante, Maria Aparecida da Silva propõe, por exemplo, que aspectos próximos da linguagem oral, como diálogos, caracterizariam também um discurso feminino. “Aspectos como o inacabado da frase, o uso de elipses, de formas interrogativas, de orações substantivas, de uma sintaxe fluída, com frases interrompidas ou diálogos suspensos por pausas, reticências, espaços em branco dão um ritmo próprio ao texto e são visíveis em diversos romances. Nota-se nas narrativas de Elsa Morante uma grande recorrência de diálogos, o que por si só integra a estrutura de linguagem oral.”
Um outro aspecto da narrativa de Elsa Morante identificado nessa tese é a sua relação com os modos verbais. Nas teorias sobre o discurso feminino temos prioritariamente o infinitivo e o condicional, que funcionam como referência para a suspensão do tempo, atitude identificada como mais feminina que masculina. No caso de Elsa Morante o modo privilegiado é o imperfeito, usado para descrever ações, condições, estados apresentados no seu aspecto de duração, mas não completado. Como observa Silva, essa opção “não deixa de ser uma suspensão no tempo de uma ação, condição ou estado”.
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