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martedì 30 settembre 2014

Um romance para emocionar



Diferente das outras figuras de linguagem, a hipotipose, escolhida como referência nesse estudo, não é baseada em uma regra semântica. O leitor deve colaborar com o texto para construir uma representação visual daquilo que está lendo. Neste sentido defendemos na presente dissertação o ponto de vista do teórico alemão Wofgang Iser, que acreditava em um leitor implícito para todo texto narrativo.  Este leitor teria a palavra final sobre o texto lido usando o seu repertório textual anterior àquela leitura para preencher os espaços vazios de interpretação deixados pelo autor.
 A hipotipose pode ser um elemento de identificação dos vazios porque propõe imagens que devem ser visualizadas pelo leitor, pedindo mais claramente a colaboração por meio do ato de leitura, um ato de poder simbólico sobre as palavras que revela comportamentos relacionados ao gênero, condição social, escolaridade, idade, etc. Ou seja, a leitura é um parâmetro social de identificação do leitor e do sucesso de um texto a partir da proposta do autor. Neste caso existem diversos indícios de uma específica proposta de Elsa Morante ao escrever esse romance da forma como foi elaborado, com escolhas que justificam o uso das imagens como referência na construção dos personagens.
Antes de tudo A História é um romance para emocionar, envolvente e doloroso. A escolha de uma personagem mater dolorosa como personagem principal aponta claramente para essa opção. É um mergulho na alma de uma mãe, simplória e sem paixões, que tem como única razão de viver a sobrevivência sua e de seus filhos. Ao mesmo tempo ela percebe as angústias dos filhos, tenta ajudá-los, mas seus recursos são poucos e de nada adianta, talvez nada adiantaria mesmo se Ida Ramundo tivesse condições reais de intervir no fluxo da história.
A violência da História é tão poderosa quanto a do destino. Não se pode escapar ao que se é, ao que se é capaz de fazer ou criar. Essa parece ser a chave de leitura desse romance contraditório por natureza, visto que tenta fazer uma comparação difícil entre a História da humanidade e a história individual. Essa composição dialógica tende ao exagero e à busca de paralelos que muitas vezes escapam a uma narrativa coerente. Por esse motivo o uso excessivo de imagens e descrições é tão marcante e decisivo.
A dissertação é, sem dúvidas, sobre o uso da hipotipose como mecanismo de linguagem para o enriquecimento da narrativa. Mas o foco que permeia todo o trabalho é a expressão da alteridade de Ida Ramundo enquanto mulher e mãe, levando em consideração o caso específico de desintegração anímica, de sofrimento físico e de pressão mental aos quais essa personagem é submetida ao longo da história. A maternidade não aparece como um fator negativo e degradante da sua situação individual, mas também não é o aspecto redentor da sua humanidade. A maternidade em A História se apresenta como um ponto de vista, e provavelmente por isso ela aparece em diversos momentos e em tons muito diferenciados.


martedì 23 settembre 2014

Um livro sobre a alteridade e maternidade



Esse estudo pretende ser uma crítica literária sobre como a autora Elsa Morante  consegue transmitir imagens por meio das palavras no romance A História, particularmente com o uso da hipotipose, e como, através dessa figura retórica, ela revela a alteridade dos personagens e o papel da maternidade em uma específica situação social. A proposta é aproximar a leitura do texto ao propósito da autora, que deixou claro que desejava “leitores analfabetos” que enfrentassem o romance como um triste relato de uma história sem fim. Um leitor que aceite a proposta de uma literatura aparentemente não engajada, mas que exige uma participação ativa. Portanto cabe aqui a aplicação da teoria do efeito estético, que demonstra que a interação do leitor com o texto é essencial para as propostas narrativas.

O caminho foi percorrido buscando a imagem como referência de análise.  Aqui todo o esforço foi concentrado na procura de um método narrativo ancorado na imagem. Para justificar essa escolha foi realizado um estudo sobre o papel da leitura no mundo ocidental e de que modo a prática de ler se articula com as questões de gênero, no caso do livro ter sido escrito por uma mulher e do público-leitor para quem ela se dirigia. Portanto a escolha da maternidade como ponto de referência constante para a construção das imagens e, consequentemente, da alteridade dos personagens.

lunedì 22 settembre 2014

"A História" no cinema


Elsa Morante não viveu com intensidade o mundo da imagem na sua produção, mas conviveu intimamente com artistas que se dedicavam com muito empenho ao cinema, como o cineasta Pier Paolo Pasolini. Também o seu marido, Alberto Moravia, ajudou a transformar diversos romances seus em enredos de filmes, inclusive de muito sucesso. Em livros escritos depois de A História, como Aracoeli, essa opção pela descrição, pela valorização do tempo narrativo, do suave desenrolar do enredo remetem claramente para uma sensação visual na leitura.
A História foi transformado em filme em 1985 pelas mãos do cineasta Luigi Comencini, em duas versões, uma de 240 minutos realizado para a televisão e outra de 153 minutos para o cinema. Mas a proposta do cineasta não era de respeitar o texto e as escolhas estilísticas de Elsa Morante, é aqui temos um outro exemplo do poder de leitura individual sobre o texto.


O poder de usar com tanto empenho a capacidade de leitura é, como dito anteriormente, uma qualidade desenvolvida pelo leitor e que depende em grande parte das suas leituras anteriores. Sem esse repertório textual, o poder da leitura individual se enfraquece e os detalhes, os imprevistos, as surpresas podem se perder em um ato simplesmente óbvio de compreensão do enredo, sem realizar maiores vôos no manuseio das páginas do livro, nos silêncios reflexivos, nas pausas entre uma leitura e outra.
É importante notar que Elsa Morante não é exatamente o tipo de escritora intelectual, difícil ou hermética. Pelo contrário, ela prefere a linguagem simples, as frases relativamente curtas e o discurso direto, apesar das caracterizações fantásticas e cheias de metáforas. O vocabulário é rico, mas acessível ao leitor comum. Tal fato amplia o público leitor, mas não significa que empobrece a multiplicidade de leituras possíveis.
O que Elsa Morante parece almejar, e em A História tal fato é bem significativo, é também o envolvimento emocional do leitor com o enredo.  Como se o convite à leitura fosse na verdade um convite para dividir uma história ouvida ou vivida que ainda provoca comoção no narrador. Assim, o poder exercido pela escritora é o de apelar para o sentimentalismo, a dor humana, a compaixão. Mas, ao mesmo tempo, ela não deixa de lado questões sociais e políticas, e esse é um importante diferencial na avaliação sobre a sua qualidade como escritora. Elsa Morante dá conta de diversos mecanismos narrativos que servem de elemento para uma leitura complexa e diversificada.
Dependendo do ponto de vista assumido na leitura do romance, o leitor pode desenvolver também ele mecanismos de leitura onde possa exercer o seu poder e muitas vezes deixar também prevalecer a violência das suas opiniões e impressões. Este é certamente o ponto de partida para uma leitura que permita vislumbrar as questões elaboradas pelo escritor na composição do romance.

A História é assim um romance que oferece muitos ângulos para a análise literária, ao mesmo tempo que permite uma leitura fluida para o leitor desinteressado em aprofundar a temática, a linguagem ou a abordagem fornecida pela escritora. A intenção com essa dissertação é despertar o interesse na crítica literária brasileira para essa escritora que conquistou um espaço importante na literatura italiana, deixando transparecer as múltiplas discussões que a leitura dos seus textos pode oferecer para leitores que dispõem e pretendem usar o poder de leitura que possuem.

Ultrapassar a palavra para chegar na imagem

Ler é um ato de poder porque permite ao leitor se apoderar de idéias e vivências que não lhe pertencem, mas que lhes são oferecidas pelo escritor. A forma como essa leitura acontece pode ser doce e envolvente ou mesmo agressiva e violenta. Os gêneros narrativos dão conta dessas diferenças de apresentação do conteúdo de um texto literário e, consequentemente, espera-se de cada um deles reações típicas e específicas.
A História é um livro que se propõe fazer uma análise sobre o poder e violência na humanidade. No entanto, o seu diferencial é aquele de apresentar a crueldade de uma forma emotiva e a partir de personagens incapazes de qualquer ato de violência ou mesmo de exercer qualquer tipo de poder. Esse confronto muitas vezes pode tornar a leitura “desagradável”, “estranha”, “incômoda”. Considerando a biografia da escritora e o seu comportamento como narradora fica evidente que essa foi uma opção consciente, que é a sua tese sobre a História.
Apesar de toda a violência presente no mundo, existe a utopia representada pela simplicidade, pela ternura, pela crença em ideais, pela ingenuidade. Os personagens principais do romance são pessoas comuns, mas íntegras, coerentes. Não possuem nenhuma qualidade especial, nada que as torne cativantes ou interessantes. Principalmente a ternura e a compaixão fazem com que o leitor realmente acredite na leitura deste romance, mais do que aspectos puramente intelectuais ou de conteúdo
O tom barroco que pode ser percebido na escritura de Elsa Morante colabora mais ainda com esse convite a visualizar uma gente simples vivendo em um subúrbio de Roma durante a guerra. Nada de atos heróicos, de situações de glamour, de força ou de idéias brilhantes. O poder da história é aquele de ter nas mãos o fio narrativo de tantas vidas que vivem sem saber que estão vivendo ou por que estão vivendo. A violência desse Outro que é mais importante que a própria identidade de cada personagem é um ato de crueldade que atinge o leitor de forma a insinuar essa necessária colaboração na leitura do livro. 
Ler deixou de ser um “colher”, ou um “recolher”, e passa a ser uma luta de forças entre as posturas do escritor diante da vida - e da própria literatura - e o que ele consegue fazer chegar ao leitor. O poder deste é o de conseguir ver o que era pra ser visto e ser capaz de ultrapassar a palavra para chegar na imagem.
Na leitura realizada nessa dissertação o papel da maternidade ganha destaque, assim como a figura da criança. É evidente o poder da crítica literária em realizar esse recorte da narrativa em busca de uma leitura diferencial e aprofundada da obra. As conclusões podem ser várias e até mesmo exageradas ou incongruentes. Mas está nas mãos do leitor usar esse grau de violência na leitura de um texto, ou não. Aqui, em busca de um retrato objetivo da alteridade da mãe e do seu filho, essa procura pode ser justificada, mesmo se peca pela ousadia.

Um outro elemento usado nesta leitura foi a identificação e a reflexão sobre uma figura de linguagem complexa e de difícil identificação. Também essa opção é um ato violento de leitura, do leitor tentando exercer o seu poder de avançar nos vazios presentes no texto. A hipotipose se tornou um instrumento de decodificação do discurso barroco da escritora, que apela sempre exageradamente para as imagens e as descrições como se quisesse preencher as páginas não somente com palavras, mas com figuras, paisagens, retratos e até mesmo cenas cinematográficas. 

martedì 16 settembre 2014

A autonomia do leitor de Elsa Morante

E é no ato de ler que se define quem é esse leitor implícito e como ele vai lidar com as negações e vazios do texto. Como demonstram Roger Chartier e Pierre Bourdieu, existe um diálogo entre diversas áreas do saber em busca de uma definição para o ato de ler. Para Bourdieu, ler é um consumo cultural, assim como ver um filme, ouvir uma música e, segundo Chartier, para usufruir desse consumo dependemos das nossas capacidades de leitura. Essas capacidades seriam elaboradas a partir da distinção entre auctor e lector, ainda na Idade Média. O auctor seria aquele que produz, o lector seria alguém cuja produção é a de “falar” das obras dos outros. A posição assumida diante de uma produção escrita depende de ser justamente um autor ou um leitor. 

Bourdieu ressalta que nos acostumamos a universalizar o ato da leitura como se fosse sempre fruto do modelo estrutural, ou seja, uma leitura interna que considera um texto nele mesmo e por ele mesmo.  Mas “ler” nem sempre foi uma atividade individual e solitária e é produto das condições as quais somos submetidos enquanto leitores. O texto pode ter sido escrito para ser lido, mas também pode ser destinado a comunicar uma maneira de agir. Neste caso, Bourdieu ressalta que existe “uma maneira de ler o texto que permite saber o que se quer fazer que o leitor faça”. Essa seria uma das leituras possíveis do “leitor implícito” proposto por Iser.

É possível construir uma identidade e uma história pessoal pelas leituras que foram e são realizadas por um indivíduo. Elas compõem aquilo que Iser chama de repertório textual.

 A leitura obedece às mesmas leis que as outras práticas culturais, com a diferença de que ela é mais diretamente ensinada pelo sistema escolar, isto é, de que o nível  de instrução vai ser mais potente no sistema dos fatores explicativos, sendo a origem social o segundo fator. No caso da leitura, hoje, o peso do nível de instrução é mais forte. Assim, quando se  pergunta a alguém seu nível de instrução, tem-se já uma previsão concernente à sua maneira de ler.

Na mesma trilha de Chartier e Bourdieu, encontramos também a análise de Michel de Certeau sobre os “usos da leitura”, ou seja, a leitura como uma arte de usar a linguagem, na qual as pessoas criam trajetórias indeterminadas. Para explicar sua teoria, Certeau diferencia as estratégias e táticas assumidas pelo leitor na sua relação com o texto. A estratégia seria permitir uma relação de força com os outros, determinada pelas instituições e que deve ser seguida pelo indivíduo. A tática é a tentativa de superar a debilidade diante do conhecimento estruturado e a ausência de poder. Também aqui teríamos uma espécie de investigação sobre uma “tipologia” de leitor, ou seja, que leitor o autor esperava encontrar ao escrever. 

A linguagem é uma arte de “dizer” e “fazer”, que Kant definia como uma arte de pensar, que é também a arte da memória e da ocasião, de aproveitar a oportunidade e com o menor esforço possível obter o melhor resultado. A narrativa se desenvolve criando fronteiras e limites ao mesmo tempo que abre espaços e autoriza ações posteriores.

 Escrever é assim a prática moderna do mito, porque serve para organizar o saber e revela a ambição em fazer (ou contar) a história. O mito, na definição de Certeau, é um discurso fragmentado que se articula nas práticas heterogêneas de uma sociedade por meio do símbolo. Este poder simbólico de quem escreve reflete o progresso do mundo ocidental no sentido de valorizar a escritura - esta atividade concreta que consiste em construir um texto - que exerce um poder externo cuja extensão não é possível ser calculada. O texto cria dentro de si os instrumentos de uma apropriação do espaço exterior.

A necessidade de ler como busca de informação pode ser transformada em uso do texto como um guia de vida, ou seja, o texto passa a influenciar o percurso de vida dos seus leitores. O conceito de repertório textual de Iser parte dessa relação dialógica entre o texto e o leitor. “Por meio dessas transformações provocadas pelos signos do texto, o leitor produz o objeto imaginário”

Essa diferenciação da leitura pode ser um instrumento de discriminação entre os leitores, que poderão ou não aprender a usar as estratégias ou táticas de uso da linguagem, ou seja, a ter mais ou menos poder sobre o ato de ler. Uma leitura legítima seria uma boa leitura, um bom modo de apropriação do texto, o que significa ter poder sobre o poder que a escritura tem. 

Em uma sociedade cada dia mais “escrita”, organizada pelo poder de transformar as coisas e reformar as estruturas a partir de modelos escritos (científicos, econômicos, políticos), os produtores de textos, ou seja, os autores, têm a pretensão de “informar” as pessoas, ou seja, de “dar forma”  às práticas sociais. Como nota Bourdieu: “o intelectual é também alguém  que pode agir à distância ao transformar as visões de mundo e as práticas cotidianas, que pode agir sobre a forma de aleitar as crianças, a forma de pensar e de falar à namorada”

O ato de ler como uma prática social e política muitas vezes não é considerada, com exceção de alguns casos na literatura, nos quais os escritores estão  preocupados em compreender o percurso da leitura nos seus leitores. A relação entre o homem-escritor e o homem-leitor ainda tem muito a revelar sobre o universo da leitura e o seu poder. E é aqui que o conceito de leitor implícito se revela substancialmente interessante. O texto ganha sentido com o seu leitor, se transforma com ele e se organiza de acordo com os códigos de percepção que muitas vezes não são identificados pelo autor, apesar das inevitáveis intenções presentes no ato de escrever.  

A autonomia do leitor depende de uma transformação das relações sociais diante do texto. Mas não seria o caso de uma substituição de modelos de educação à leitura, mas simplesmente de agregação de novos espaços de jogo e de astúcia na aprendizagem. O leitor deveria ser capaz de ler a si mesmo no texto, aprender a ser dentro e fora ao mesmo tempo, aprender a jogar com os fragmentos para conseguir formar o seu quebra-cabeça, que pode ser um texto produzido pelas suas reações e suas recordações. Este caso é o que Iser chamaria de “vazio”, como já citamos anteriormente: “Na relação dialógica entre texto e leitor, esse vazio, contudo, atua como energia que provoca a produção de condições da comunicação; desse modo, se constitui um padrão de situações através do qual o texto e o leitor alcançam uma convergência.”

Nos últimos séculos, a leitura sofreu muitas transformações. Do trabalho em conjunto dos olhos e da boca na leitura em voz alta, ler passou a ser função somente dos olhos na leitura silenciosa. A boca que se fecha é símbolo do corpo que se afasta do texto, da corporeidade reduzida ao trabalho do cérebro, mas é sempre, como afirmam Guglielmo Cavallo e Roger Chartier,   “uma prática encarnada em determinados gestos, espaços e hábitos” e “não todos aqueles que podem ler os textos o lêem da mesma maneira e, em cada época, é grande a distância entre os escritores talentosos e os leitores menos hábeis”

As práticas de leitura dependem da forma na qual “os textos podem ser lidos, e lidos de forma diferente por leitores que não possuem as mesmas técnicas intelectuais, que não estabeleçam uma mesma relação com a escritura, que não atribuem nem o mesmo significado nem o mesmo valor a um gesto aparentemente idêntico: ler um texto”

A história da leitura do ponto de vista sociológico põe em relevo as traduções culturais e as diferenças sociais a partir das “comunidades de interpretação”, que reconduzem a relação da escritura às formas de ser e viver. A oralidade, mesmo com a passagem da leitura oral para a silenciosa na Grécia Antiga, fez sempre parte da leitura e é no diálogo que vemos mais claramente essa influência. 

Platão, em Fedro, demonstra a importância do diálogo para o desenvolvimento das capacidades cognitivas e, logo, das habilidades de ler e escrever. Platão dizia que a potência do discurso é uma forma de conduzir as almas e por isso é importante identificar quem são os leitores, afinal, continua Platão: “alguns homens são de um jeito, e outros diferentes. Mas, assim existem diferentes espécies de almas,  e também de discursos existem tantas e tantas espécies, cada uma diferente da outra. Alguns homens, logo, são tais que tais discursos, para tal causa, são mais fáceis de persuadir; mas outros são diferentes, e, por determinadas razões, são difíceis de persuadir.” É na prática da diferença que os homens podem se aproximar ou se afastar, gerando assim os efeitos nefastos do poder e do desenvolvimento, temas que interessam muito à Elsa Morante em “A História”.

Para pôr em relevo a questão da leitura e do poder é necessário traçar um panorama da leitura como prática social, visto que nas origens culturais do Ocidente encontramos o caminho para entender o mundo contemporâneo. Partindo das análises de Jesper Svenbro vemos, por exemplo, que o papel da leitura oral na Grécia Antiga facilita a identificação do ato de ler com ação. Isso porque no verbo grego nemein o sentido de ler é uma hipótese de leitura como “distribuição”, mas que pode ser também uma “autodistribuição”, quando é usada a forma ananemein, ou seja, é o leitor se inclui no ato da leitura, que toma uma posição e não é excluído do poder que aquela leitura proporciona. Svenbro demonstra que ler para o homem grego era um esforço e que isso influenciará toda a relação do homem com a leitura na sociedade ocidental.

Segundo Platão, a leitura silenciosa afasta as almas do leitor e do autor porque desconsidera o poder do diálogo.  Ou seja, o esforço físico da fala como ato de leitura que se perde significa também a perda do contato entre esses dois pólos, o criador e o receptor. Por isso, como aponta John Durham Peters, acontece a crítica de Sócrates ao ato de escrever que substitui aquele de falar, como parte de uma reflexão mais ampla sobre a instabilidade na relação entre as pessoas, entre as almas e os corpos.                                                                               

Já os romanos usaram o termo legere, que tem o sentido literal de “colher”. A leitura seria então “colher” o sentido. Também neste caso a leitura è identificada como um esforço, o da colheita. Ler é dar voz ao escritor, é oferecer a própria voz. Ser lido significa, por outro lado, exercitar um poder sobre o corpo do leitor mesmo e uma grande distância de espaço e de tempo. Tal fato é percebido com clareza na República Romana, porque é neste período que a leitura doméstica se desenvolve ao mesmo tempo que nasce o conceito de “privado”, a leitura também pertence ao leitor, passa a ser um bem adquirido. 

 O fator positivo da leitura como ato privado é, obviamente, o aumento da alfabetização, porque o homem comum do povo começará a a imitar os ricos, que aprendem a ler como um adorno à sua riqueza. Neste período aparecem também as primeiras mulheres que se relacionam com a palavra escrita, mas ligada frivolamente à leitura de “consumo” e de “lazer”, aspecto totalmente coerente com a alteridade feminina e a construção do gênero ao longo da história. A maneira de ler passa a ser, a partir do Império Romano, uma forma de identificar socialmente um indivíduo e é um recurso ao mimetismo para construir a própria identidade de leitor.

Roger Chartier argumenta que a “leitura é sempre uma prática encarnada em gestos, em espaços, em hábitos” e que “aqueles que são capazes de ler textos não o fazem da mesma maneira, e há uma grande diferença entre os letrados talentosos e os leitores menos  hábeis, obrigados a oralizar o que lêem para poder compreender, ou que só se sentem à vontade com algumas formas textuais ou tipográficas”. Este comportamento foi se desenvolvendo ao longo da história e, na Idade Média, quando a relação do homem com a religiosidade irá determinar a sua existência, ler será também  uma tentativa de salvar a própria alma.

 Segundo Malcom Parkers, na Idade Média o leitor tinha um corpus de construções gramaticais, herdados da Antiguidade, que serviam para facilitar o processo de leitura, mais do que estimular um verdadeiro interesse pelo que se estava lendo. O homem devia se preocupar com a palavra divina e fugir da idéia da Torre de Babel, ou seja, das complexidades lingüísticas que envolvem o ato de ler. A tradição da Igreja Católica transformou a palavra escrita no instrumento de autoridade da verdade do Cristianismo e as letras se transformaram em sinais visuais que podem ser decifrados somente dentro dos muros das igrejas.

Por outro lado, Parkers ilustra que somente na Escolástica a leitura se tornará um exercício além dos muros dos monastérios e será regulada pela escola e pelas universidades. Aqui aparece o leitor que enfrenta o texto como uma conversação e é capaz de compreender os pensamentos escondidos atrás do significado superficial daqueles sinais. Este é o momento da consciência do “ato de ler” e é quando surge o desejo de uma formação cultural pessoal, não mais coletiva como na Grécia Antiga, nem de status no Império Romano. O termo lectura, que surge na Idade Média, aparece junto à difusão dos “glossários”, ou seja, explicações das partes difíceis de um texto e de resumos que ajudam a encontrar os assuntos procurados em um texto; e que são também instrumentos para os que não possuem a competência pra decifrar um texto com a simples leitura.

É aqui que a figura do leitor implícito começa a tomar forma e é passível de existência e até mesmo de identificação. Na perspectiva histórica sobre o papel da leitura, Jacqueline Hamesse nota que na Escolástica a preocupação do leitor será aquela de dominar assuntos específicos, muitas vezes sem se interessar pela totalidade do texto, como até hoje ainda se faz em pesquisas acadêmicas . Essa leitura fragmentada e em pedaços determinará a relação do homem com o conhecimento, mostrando o poder simbólico que a leitura exerce nas práticas culturais da humanidade. A utilidade da leitura toma o lugar do prazer e até mesmo do conhecimento. Por outro lado, a leitura solitária e silenciosa, adverte Paul Saenger, permite também um modelo de compreensão mais livre e independente, o que não pode ser desconsiderado, visto que o  controle sobre a leitura é uma forma de poder.



Já no Humanismo a liberdade de leitura será estimulada pela Reforma Protestante  e pela invenção da imprensa. Os leitores aprendem a decodificar sozinhos os textos e  essa “civilização de leitores”, usando a denominação de Bourdieu, será mais visível. A assimilação de um texto pelo leitor é um esforço pessoal de escolha e reestruturação das informações escritas, se transformando em um poder de compreender o mundo, de articular informações e de participar do que foi escrito. 

No Renascimento o livro e a leitura se transformarão em mercadoria e a leitura passa a ser, segundo Chartier, realmente uma “apropriação”, um conjunto de competências, usos, códigos e interesses. O texto se transforma assim em um bem de consumo, como acontece também com outras práticas culturais. 

Segundo H.R. Jauss, a experiência estética é resultado das funções sociais primárias, como a emancipação, afirmação, inovação e reprodução; e muitas vezes não são levadas em consideração categorias secundárias, como a identificação, o exemplo e o consenso, que são, na verdade, a base da experiência de comunicação da leitura.  Ler pode ser não somente uma relação intelectual com um objeto artístico, mas um processo de descoberta pessoal e de averiguação de aprendizagens anteriores. Essas reflexões são muito úteis para a compreensão do conceito de leitor implícito sugerido por Iser e que permeia essa dissertação. A História pode ser escrita e lida porque a leitura se tornou um bem de consumo, mas pode ser compreendida e analisada porque as condições de leitura também evoluíram com o tempo.


A interação texto-leitor da Estética da Recepção, por exemplo, significa assumir como parâmetro para a análise literária o leitor. É o que propunha Hans Robert Jauss em contraposição ao estruturalismo e ao marxismo, linha de pensamento que vai se intensificar com a proposta de Iser de ver o texto literário cheio de lacunas e pontos de indeterminação que pedem preenchimentos. O leitor estaria implícito na narrativa, que exerceria sobre ele um efeito estético, ou seja, uma reação. Mas texto e leitor são universos muito distantes e diversos, logo, predominam os vazios que pedem preenchimento. A concepção do leitor implícito não é a abstração de um leitor real, mas condiciona uma tensão que se cumpre no leitor real quando ele assume o papel de leitor.

Meu leitor analfabeto




Na dedicatória do romance A História identificamos o seu leitor implícito, desejado e almejado por Elsa Morante. Ela dedica o livro aos analfabetos, mas não a todos, mas ao “analfabeto para quem eu escrevo”. Aquele que conhece as letras, sabe formar palavras e construir frases, caso contrário não seria capaz de exercer o ato de ler. Mas é um analfabeto porque não tem o pensamento formado e moldado, que está aberto para o esforço de colher os significados, de organizar os fatos para preencher os vazios que aparecem, para entender que a negação é o elemento essencial para estabelecer a alteridade. 

Por ser uma escritora utópica e anarquista, Elsa Morante apela para essas características na sua narrativa. Usando e abusando das opiniões políticas pela boca e escritura de Davide Segre ou exagerando a bondade e a doçura utópica de Useppe. Por meio dos seus personagens ela convida então o seu leitor, que deve evitar os preconceitos e julgamentos à sua postura intelectual e civil. Um leitor que deveria ser assim implicitamente analfabeto.

Como visto anteriormente, o conceito de “leitor implícito” proposto por Wolfgang Iser parte do princípio que esse leitor não tem existência real, ou seja, o leitor seria o conjunto das pré-orientações que um texto ficcional oferece a seus possíveis leitores. A estrutura do texto anteciparia a presença do receptor. A concepção do leitor implícito enfatiza as estruturas de efeitos do texto, cujos atos de apreensão relacionam o receptor a ele. De acordo com Iser:

"(...) os processos de formação de sentido do texto não se realizam na leitura sem que se percam possibilidades de atualização. Essas possibilidades são condicionadas, no caso concreto, pelas disposições individuais do leitor, bem como pelo código sociocultural do qual ele faz parte. Fatores desse tipo orientam a seleção daquilo que constitui para cada leitor a base da consistência e, assim, o pressuposto para a pregnância de sentido do texto."

A leitura requer sempre a participação do leitor. Um texto só existe quando lido e quando o seu sentido é investigado. Na análise literária de Iser, a proposta é que fique claro quem é o leitor implícito no texto, deve-se levar em consideração esse leitor, ou seja, para quem o autor estava dirigindo a sua mensagem e o que ele desejaria que fosse compreendido. No entanto, elaborar o perfil desse leitor implícito não é um trabalho simples porque existem diversos fatores que influenciam nessa construção. Na composição do personagem Ida Ramundo, por exemplo, a partir das opções narrativas e da abordagem realizada, acontece o que Iser chama, por exemplo, de negação e que vai se refletir diretamente na composição da alteridade do personagem e vai exigir uma determinada competência de leitura. 


"Deste modo, a negação doutras possibilidades pela norma em questão dá lugar a uma diversificação virtual da natureza humana, que assume uma forma definida à medida que a norma é mostrada como uma restrição imposta à natureza humana. A atenção do leitor já não se fixa em que as normas representam, mas sim em que esta representação exclui, de modo que através da norma se demonstra uma diferenciação virtual da natureza humana." (Iser)

mercoledì 10 settembre 2014

Sapatos novos para Useppe

A noção de ultrapassado, de novo, de real, de fantasia, tudo é colocado em discussão por Elsa Morante, ela também provavelmente sufocada pela necessidade de contar essa “história”. Experimentar o que não faz parte do seu horizonte significa uma objetivação distanciada do que o envolve até à evidência da experiência de si mesmo, o que às vezes não é possível pelo alto grau de envolvimento no contexto das ações pragmáticas. 

Para Iser, o diálogo entre o texto e o leitor depende dessa assimetria e da indeterminação que provém dela, desde que o texto seja dotado de “meios de controle” sobre esta troca, e é isto que permite a ampliação dos horizontes de leitura. Essa ampliação é um foco de estímulo ao desenvolvimento das competências individuais. No romance de Elsa Morante, por exemplo, o leitor é “empurrado” em direção a uma opinião bem clara e definida da escritora sobre os fatos históricos e o comportamento dos excluídos diante do inevitável. A escolha da maternidade como argumento que guia a história também é uma clara referência a um resgate do papel feminino e da importância da mãe na determinação do percurso individual, seja no desenvolvimento das competências cognitivas ou na tomada de decisões.

Uma noite, nos conta o narrador, alojada em um refúgio depois do bombardeamento do seu prédio, Ida não consegue dormir. Pretende acordar cedo para comprar sapatos novos para Useppe. Sonhos a perseguem e uma sensação de ansiedade generalizada vai se apoderando do seu corpo. O texto “empurra” o leitor pelas ruas de Roma atrás dessa mulher confusa entre a compra econômica e um instinto de sobrevivência. O texto faz com que o leitor inicialmente se sinta incomodado por esse sofrimento psíquico, mas se supera a sensação de desconforto inicial, avança e é controlado pelo texto, que o envolve e o faz refletir sobre o sofrimento e a angústia de Ida.

Na verdade, não sabia mais onde se enfiar. A sua dúvida noturna sobre a possibilidade de vir a ser procurada pelos alemães estava crescendo dentro dela como uma certeza paranóica no seu cérebro enfraquecido, barrando-lhe,  como um colosso, os caminhos que a levariam de volta para o refúgio em Pietralata. Porém, acompanhava os passinhos de Useppe que se dirigiam para a parada do ônibus, convencidos e orgulhosos, se bem que muito irregulares por causa das botinhas muito grandes e ainda duras.


A dúvida e a angústia predominam na narrativa morantiana e existe uma clara procura por um leitor que compreenda e sofra junto, ou seja, nas palavras da escritora, precisa ser “o analfabeto” que se proponha a ler esta história como um processo comunicativo no qual estão em jogo questões utópicas sobre a humanidade. Assim é evidente que A História foi escrito para um leitor que tenha a palavra final sobre o texto que está nas suas mãos, porque requer participação e reflexão, mas também porque a própria narrativa tem necessidade de ser completada pelo ato de leitura. Ao mesmo tempo é um chamado para observar os efeitos da desigualdade e da exclusão entre indivíduos desprovidos de competência para articular os fatos e a própria existência.