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martedì 30 settembre 2014

Um romance para emocionar



Diferente das outras figuras de linguagem, a hipotipose, escolhida como referência nesse estudo, não é baseada em uma regra semântica. O leitor deve colaborar com o texto para construir uma representação visual daquilo que está lendo. Neste sentido defendemos na presente dissertação o ponto de vista do teórico alemão Wofgang Iser, que acreditava em um leitor implícito para todo texto narrativo.  Este leitor teria a palavra final sobre o texto lido usando o seu repertório textual anterior àquela leitura para preencher os espaços vazios de interpretação deixados pelo autor.
 A hipotipose pode ser um elemento de identificação dos vazios porque propõe imagens que devem ser visualizadas pelo leitor, pedindo mais claramente a colaboração por meio do ato de leitura, um ato de poder simbólico sobre as palavras que revela comportamentos relacionados ao gênero, condição social, escolaridade, idade, etc. Ou seja, a leitura é um parâmetro social de identificação do leitor e do sucesso de um texto a partir da proposta do autor. Neste caso existem diversos indícios de uma específica proposta de Elsa Morante ao escrever esse romance da forma como foi elaborado, com escolhas que justificam o uso das imagens como referência na construção dos personagens.
Antes de tudo A História é um romance para emocionar, envolvente e doloroso. A escolha de uma personagem mater dolorosa como personagem principal aponta claramente para essa opção. É um mergulho na alma de uma mãe, simplória e sem paixões, que tem como única razão de viver a sobrevivência sua e de seus filhos. Ao mesmo tempo ela percebe as angústias dos filhos, tenta ajudá-los, mas seus recursos são poucos e de nada adianta, talvez nada adiantaria mesmo se Ida Ramundo tivesse condições reais de intervir no fluxo da história.
A violência da História é tão poderosa quanto a do destino. Não se pode escapar ao que se é, ao que se é capaz de fazer ou criar. Essa parece ser a chave de leitura desse romance contraditório por natureza, visto que tenta fazer uma comparação difícil entre a História da humanidade e a história individual. Essa composição dialógica tende ao exagero e à busca de paralelos que muitas vezes escapam a uma narrativa coerente. Por esse motivo o uso excessivo de imagens e descrições é tão marcante e decisivo.
A dissertação é, sem dúvidas, sobre o uso da hipotipose como mecanismo de linguagem para o enriquecimento da narrativa. Mas o foco que permeia todo o trabalho é a expressão da alteridade de Ida Ramundo enquanto mulher e mãe, levando em consideração o caso específico de desintegração anímica, de sofrimento físico e de pressão mental aos quais essa personagem é submetida ao longo da história. A maternidade não aparece como um fator negativo e degradante da sua situação individual, mas também não é o aspecto redentor da sua humanidade. A maternidade em A História se apresenta como um ponto de vista, e provavelmente por isso ela aparece em diversos momentos e em tons muito diferenciados.


martedì 23 settembre 2014

Um livro sobre a alteridade e maternidade



Esse estudo pretende ser uma crítica literária sobre como a autora Elsa Morante  consegue transmitir imagens por meio das palavras no romance A História, particularmente com o uso da hipotipose, e como, através dessa figura retórica, ela revela a alteridade dos personagens e o papel da maternidade em uma específica situação social. A proposta é aproximar a leitura do texto ao propósito da autora, que deixou claro que desejava “leitores analfabetos” que enfrentassem o romance como um triste relato de uma história sem fim. Um leitor que aceite a proposta de uma literatura aparentemente não engajada, mas que exige uma participação ativa. Portanto cabe aqui a aplicação da teoria do efeito estético, que demonstra que a interação do leitor com o texto é essencial para as propostas narrativas.

O caminho foi percorrido buscando a imagem como referência de análise.  Aqui todo o esforço foi concentrado na procura de um método narrativo ancorado na imagem. Para justificar essa escolha foi realizado um estudo sobre o papel da leitura no mundo ocidental e de que modo a prática de ler se articula com as questões de gênero, no caso do livro ter sido escrito por uma mulher e do público-leitor para quem ela se dirigia. Portanto a escolha da maternidade como ponto de referência constante para a construção das imagens e, consequentemente, da alteridade dos personagens.

lunedì 22 settembre 2014

"A História" no cinema


Elsa Morante não viveu com intensidade o mundo da imagem na sua produção, mas conviveu intimamente com artistas que se dedicavam com muito empenho ao cinema, como o cineasta Pier Paolo Pasolini. Também o seu marido, Alberto Moravia, ajudou a transformar diversos romances seus em enredos de filmes, inclusive de muito sucesso. Em livros escritos depois de A História, como Aracoeli, essa opção pela descrição, pela valorização do tempo narrativo, do suave desenrolar do enredo remetem claramente para uma sensação visual na leitura.
A História foi transformado em filme em 1985 pelas mãos do cineasta Luigi Comencini, em duas versões, uma de 240 minutos realizado para a televisão e outra de 153 minutos para o cinema. Mas a proposta do cineasta não era de respeitar o texto e as escolhas estilísticas de Elsa Morante, é aqui temos um outro exemplo do poder de leitura individual sobre o texto.


O poder de usar com tanto empenho a capacidade de leitura é, como dito anteriormente, uma qualidade desenvolvida pelo leitor e que depende em grande parte das suas leituras anteriores. Sem esse repertório textual, o poder da leitura individual se enfraquece e os detalhes, os imprevistos, as surpresas podem se perder em um ato simplesmente óbvio de compreensão do enredo, sem realizar maiores vôos no manuseio das páginas do livro, nos silêncios reflexivos, nas pausas entre uma leitura e outra.
É importante notar que Elsa Morante não é exatamente o tipo de escritora intelectual, difícil ou hermética. Pelo contrário, ela prefere a linguagem simples, as frases relativamente curtas e o discurso direto, apesar das caracterizações fantásticas e cheias de metáforas. O vocabulário é rico, mas acessível ao leitor comum. Tal fato amplia o público leitor, mas não significa que empobrece a multiplicidade de leituras possíveis.
O que Elsa Morante parece almejar, e em A História tal fato é bem significativo, é também o envolvimento emocional do leitor com o enredo.  Como se o convite à leitura fosse na verdade um convite para dividir uma história ouvida ou vivida que ainda provoca comoção no narrador. Assim, o poder exercido pela escritora é o de apelar para o sentimentalismo, a dor humana, a compaixão. Mas, ao mesmo tempo, ela não deixa de lado questões sociais e políticas, e esse é um importante diferencial na avaliação sobre a sua qualidade como escritora. Elsa Morante dá conta de diversos mecanismos narrativos que servem de elemento para uma leitura complexa e diversificada.
Dependendo do ponto de vista assumido na leitura do romance, o leitor pode desenvolver também ele mecanismos de leitura onde possa exercer o seu poder e muitas vezes deixar também prevalecer a violência das suas opiniões e impressões. Este é certamente o ponto de partida para uma leitura que permita vislumbrar as questões elaboradas pelo escritor na composição do romance.

A História é assim um romance que oferece muitos ângulos para a análise literária, ao mesmo tempo que permite uma leitura fluida para o leitor desinteressado em aprofundar a temática, a linguagem ou a abordagem fornecida pela escritora. A intenção com essa dissertação é despertar o interesse na crítica literária brasileira para essa escritora que conquistou um espaço importante na literatura italiana, deixando transparecer as múltiplas discussões que a leitura dos seus textos pode oferecer para leitores que dispõem e pretendem usar o poder de leitura que possuem.

Ultrapassar a palavra para chegar na imagem

Ler é um ato de poder porque permite ao leitor se apoderar de idéias e vivências que não lhe pertencem, mas que lhes são oferecidas pelo escritor. A forma como essa leitura acontece pode ser doce e envolvente ou mesmo agressiva e violenta. Os gêneros narrativos dão conta dessas diferenças de apresentação do conteúdo de um texto literário e, consequentemente, espera-se de cada um deles reações típicas e específicas.
A História é um livro que se propõe fazer uma análise sobre o poder e violência na humanidade. No entanto, o seu diferencial é aquele de apresentar a crueldade de uma forma emotiva e a partir de personagens incapazes de qualquer ato de violência ou mesmo de exercer qualquer tipo de poder. Esse confronto muitas vezes pode tornar a leitura “desagradável”, “estranha”, “incômoda”. Considerando a biografia da escritora e o seu comportamento como narradora fica evidente que essa foi uma opção consciente, que é a sua tese sobre a História.
Apesar de toda a violência presente no mundo, existe a utopia representada pela simplicidade, pela ternura, pela crença em ideais, pela ingenuidade. Os personagens principais do romance são pessoas comuns, mas íntegras, coerentes. Não possuem nenhuma qualidade especial, nada que as torne cativantes ou interessantes. Principalmente a ternura e a compaixão fazem com que o leitor realmente acredite na leitura deste romance, mais do que aspectos puramente intelectuais ou de conteúdo
O tom barroco que pode ser percebido na escritura de Elsa Morante colabora mais ainda com esse convite a visualizar uma gente simples vivendo em um subúrbio de Roma durante a guerra. Nada de atos heróicos, de situações de glamour, de força ou de idéias brilhantes. O poder da história é aquele de ter nas mãos o fio narrativo de tantas vidas que vivem sem saber que estão vivendo ou por que estão vivendo. A violência desse Outro que é mais importante que a própria identidade de cada personagem é um ato de crueldade que atinge o leitor de forma a insinuar essa necessária colaboração na leitura do livro. 
Ler deixou de ser um “colher”, ou um “recolher”, e passa a ser uma luta de forças entre as posturas do escritor diante da vida - e da própria literatura - e o que ele consegue fazer chegar ao leitor. O poder deste é o de conseguir ver o que era pra ser visto e ser capaz de ultrapassar a palavra para chegar na imagem.
Na leitura realizada nessa dissertação o papel da maternidade ganha destaque, assim como a figura da criança. É evidente o poder da crítica literária em realizar esse recorte da narrativa em busca de uma leitura diferencial e aprofundada da obra. As conclusões podem ser várias e até mesmo exageradas ou incongruentes. Mas está nas mãos do leitor usar esse grau de violência na leitura de um texto, ou não. Aqui, em busca de um retrato objetivo da alteridade da mãe e do seu filho, essa procura pode ser justificada, mesmo se peca pela ousadia.

Um outro elemento usado nesta leitura foi a identificação e a reflexão sobre uma figura de linguagem complexa e de difícil identificação. Também essa opção é um ato violento de leitura, do leitor tentando exercer o seu poder de avançar nos vazios presentes no texto. A hipotipose se tornou um instrumento de decodificação do discurso barroco da escritora, que apela sempre exageradamente para as imagens e as descrições como se quisesse preencher as páginas não somente com palavras, mas com figuras, paisagens, retratos e até mesmo cenas cinematográficas. 

martedì 16 settembre 2014

A autonomia do leitor de Elsa Morante

E é no ato de ler que se define quem é esse leitor implícito e como ele vai lidar com as negações e vazios do texto. Como demonstram Roger Chartier e Pierre Bourdieu, existe um diálogo entre diversas áreas do saber em busca de uma definição para o ato de ler. Para Bourdieu, ler é um consumo cultural, assim como ver um filme, ouvir uma música e, segundo Chartier, para usufruir desse consumo dependemos das nossas capacidades de leitura. Essas capacidades seriam elaboradas a partir da distinção entre auctor e lector, ainda na Idade Média. O auctor seria aquele que produz, o lector seria alguém cuja produção é a de “falar” das obras dos outros. A posição assumida diante de uma produção escrita depende de ser justamente um autor ou um leitor. 

Bourdieu ressalta que nos acostumamos a universalizar o ato da leitura como se fosse sempre fruto do modelo estrutural, ou seja, uma leitura interna que considera um texto nele mesmo e por ele mesmo.  Mas “ler” nem sempre foi uma atividade individual e solitária e é produto das condições as quais somos submetidos enquanto leitores. O texto pode ter sido escrito para ser lido, mas também pode ser destinado a comunicar uma maneira de agir. Neste caso, Bourdieu ressalta que existe “uma maneira de ler o texto que permite saber o que se quer fazer que o leitor faça”. Essa seria uma das leituras possíveis do “leitor implícito” proposto por Iser.

É possível construir uma identidade e uma história pessoal pelas leituras que foram e são realizadas por um indivíduo. Elas compõem aquilo que Iser chama de repertório textual.

 A leitura obedece às mesmas leis que as outras práticas culturais, com a diferença de que ela é mais diretamente ensinada pelo sistema escolar, isto é, de que o nível  de instrução vai ser mais potente no sistema dos fatores explicativos, sendo a origem social o segundo fator. No caso da leitura, hoje, o peso do nível de instrução é mais forte. Assim, quando se  pergunta a alguém seu nível de instrução, tem-se já uma previsão concernente à sua maneira de ler.

Na mesma trilha de Chartier e Bourdieu, encontramos também a análise de Michel de Certeau sobre os “usos da leitura”, ou seja, a leitura como uma arte de usar a linguagem, na qual as pessoas criam trajetórias indeterminadas. Para explicar sua teoria, Certeau diferencia as estratégias e táticas assumidas pelo leitor na sua relação com o texto. A estratégia seria permitir uma relação de força com os outros, determinada pelas instituições e que deve ser seguida pelo indivíduo. A tática é a tentativa de superar a debilidade diante do conhecimento estruturado e a ausência de poder. Também aqui teríamos uma espécie de investigação sobre uma “tipologia” de leitor, ou seja, que leitor o autor esperava encontrar ao escrever. 

A linguagem é uma arte de “dizer” e “fazer”, que Kant definia como uma arte de pensar, que é também a arte da memória e da ocasião, de aproveitar a oportunidade e com o menor esforço possível obter o melhor resultado. A narrativa se desenvolve criando fronteiras e limites ao mesmo tempo que abre espaços e autoriza ações posteriores.

 Escrever é assim a prática moderna do mito, porque serve para organizar o saber e revela a ambição em fazer (ou contar) a história. O mito, na definição de Certeau, é um discurso fragmentado que se articula nas práticas heterogêneas de uma sociedade por meio do símbolo. Este poder simbólico de quem escreve reflete o progresso do mundo ocidental no sentido de valorizar a escritura - esta atividade concreta que consiste em construir um texto - que exerce um poder externo cuja extensão não é possível ser calculada. O texto cria dentro de si os instrumentos de uma apropriação do espaço exterior.

A necessidade de ler como busca de informação pode ser transformada em uso do texto como um guia de vida, ou seja, o texto passa a influenciar o percurso de vida dos seus leitores. O conceito de repertório textual de Iser parte dessa relação dialógica entre o texto e o leitor. “Por meio dessas transformações provocadas pelos signos do texto, o leitor produz o objeto imaginário”

Essa diferenciação da leitura pode ser um instrumento de discriminação entre os leitores, que poderão ou não aprender a usar as estratégias ou táticas de uso da linguagem, ou seja, a ter mais ou menos poder sobre o ato de ler. Uma leitura legítima seria uma boa leitura, um bom modo de apropriação do texto, o que significa ter poder sobre o poder que a escritura tem. 

Em uma sociedade cada dia mais “escrita”, organizada pelo poder de transformar as coisas e reformar as estruturas a partir de modelos escritos (científicos, econômicos, políticos), os produtores de textos, ou seja, os autores, têm a pretensão de “informar” as pessoas, ou seja, de “dar forma”  às práticas sociais. Como nota Bourdieu: “o intelectual é também alguém  que pode agir à distância ao transformar as visões de mundo e as práticas cotidianas, que pode agir sobre a forma de aleitar as crianças, a forma de pensar e de falar à namorada”

O ato de ler como uma prática social e política muitas vezes não é considerada, com exceção de alguns casos na literatura, nos quais os escritores estão  preocupados em compreender o percurso da leitura nos seus leitores. A relação entre o homem-escritor e o homem-leitor ainda tem muito a revelar sobre o universo da leitura e o seu poder. E é aqui que o conceito de leitor implícito se revela substancialmente interessante. O texto ganha sentido com o seu leitor, se transforma com ele e se organiza de acordo com os códigos de percepção que muitas vezes não são identificados pelo autor, apesar das inevitáveis intenções presentes no ato de escrever.  

A autonomia do leitor depende de uma transformação das relações sociais diante do texto. Mas não seria o caso de uma substituição de modelos de educação à leitura, mas simplesmente de agregação de novos espaços de jogo e de astúcia na aprendizagem. O leitor deveria ser capaz de ler a si mesmo no texto, aprender a ser dentro e fora ao mesmo tempo, aprender a jogar com os fragmentos para conseguir formar o seu quebra-cabeça, que pode ser um texto produzido pelas suas reações e suas recordações. Este caso é o que Iser chamaria de “vazio”, como já citamos anteriormente: “Na relação dialógica entre texto e leitor, esse vazio, contudo, atua como energia que provoca a produção de condições da comunicação; desse modo, se constitui um padrão de situações através do qual o texto e o leitor alcançam uma convergência.”

Nos últimos séculos, a leitura sofreu muitas transformações. Do trabalho em conjunto dos olhos e da boca na leitura em voz alta, ler passou a ser função somente dos olhos na leitura silenciosa. A boca que se fecha é símbolo do corpo que se afasta do texto, da corporeidade reduzida ao trabalho do cérebro, mas é sempre, como afirmam Guglielmo Cavallo e Roger Chartier,   “uma prática encarnada em determinados gestos, espaços e hábitos” e “não todos aqueles que podem ler os textos o lêem da mesma maneira e, em cada época, é grande a distância entre os escritores talentosos e os leitores menos hábeis”

As práticas de leitura dependem da forma na qual “os textos podem ser lidos, e lidos de forma diferente por leitores que não possuem as mesmas técnicas intelectuais, que não estabeleçam uma mesma relação com a escritura, que não atribuem nem o mesmo significado nem o mesmo valor a um gesto aparentemente idêntico: ler um texto”

A história da leitura do ponto de vista sociológico põe em relevo as traduções culturais e as diferenças sociais a partir das “comunidades de interpretação”, que reconduzem a relação da escritura às formas de ser e viver. A oralidade, mesmo com a passagem da leitura oral para a silenciosa na Grécia Antiga, fez sempre parte da leitura e é no diálogo que vemos mais claramente essa influência. 

Platão, em Fedro, demonstra a importância do diálogo para o desenvolvimento das capacidades cognitivas e, logo, das habilidades de ler e escrever. Platão dizia que a potência do discurso é uma forma de conduzir as almas e por isso é importante identificar quem são os leitores, afinal, continua Platão: “alguns homens são de um jeito, e outros diferentes. Mas, assim existem diferentes espécies de almas,  e também de discursos existem tantas e tantas espécies, cada uma diferente da outra. Alguns homens, logo, são tais que tais discursos, para tal causa, são mais fáceis de persuadir; mas outros são diferentes, e, por determinadas razões, são difíceis de persuadir.” É na prática da diferença que os homens podem se aproximar ou se afastar, gerando assim os efeitos nefastos do poder e do desenvolvimento, temas que interessam muito à Elsa Morante em “A História”.

Para pôr em relevo a questão da leitura e do poder é necessário traçar um panorama da leitura como prática social, visto que nas origens culturais do Ocidente encontramos o caminho para entender o mundo contemporâneo. Partindo das análises de Jesper Svenbro vemos, por exemplo, que o papel da leitura oral na Grécia Antiga facilita a identificação do ato de ler com ação. Isso porque no verbo grego nemein o sentido de ler é uma hipótese de leitura como “distribuição”, mas que pode ser também uma “autodistribuição”, quando é usada a forma ananemein, ou seja, é o leitor se inclui no ato da leitura, que toma uma posição e não é excluído do poder que aquela leitura proporciona. Svenbro demonstra que ler para o homem grego era um esforço e que isso influenciará toda a relação do homem com a leitura na sociedade ocidental.

Segundo Platão, a leitura silenciosa afasta as almas do leitor e do autor porque desconsidera o poder do diálogo.  Ou seja, o esforço físico da fala como ato de leitura que se perde significa também a perda do contato entre esses dois pólos, o criador e o receptor. Por isso, como aponta John Durham Peters, acontece a crítica de Sócrates ao ato de escrever que substitui aquele de falar, como parte de uma reflexão mais ampla sobre a instabilidade na relação entre as pessoas, entre as almas e os corpos.                                                                               

Já os romanos usaram o termo legere, que tem o sentido literal de “colher”. A leitura seria então “colher” o sentido. Também neste caso a leitura è identificada como um esforço, o da colheita. Ler é dar voz ao escritor, é oferecer a própria voz. Ser lido significa, por outro lado, exercitar um poder sobre o corpo do leitor mesmo e uma grande distância de espaço e de tempo. Tal fato é percebido com clareza na República Romana, porque é neste período que a leitura doméstica se desenvolve ao mesmo tempo que nasce o conceito de “privado”, a leitura também pertence ao leitor, passa a ser um bem adquirido. 

 O fator positivo da leitura como ato privado é, obviamente, o aumento da alfabetização, porque o homem comum do povo começará a a imitar os ricos, que aprendem a ler como um adorno à sua riqueza. Neste período aparecem também as primeiras mulheres que se relacionam com a palavra escrita, mas ligada frivolamente à leitura de “consumo” e de “lazer”, aspecto totalmente coerente com a alteridade feminina e a construção do gênero ao longo da história. A maneira de ler passa a ser, a partir do Império Romano, uma forma de identificar socialmente um indivíduo e é um recurso ao mimetismo para construir a própria identidade de leitor.

Roger Chartier argumenta que a “leitura é sempre uma prática encarnada em gestos, em espaços, em hábitos” e que “aqueles que são capazes de ler textos não o fazem da mesma maneira, e há uma grande diferença entre os letrados talentosos e os leitores menos  hábeis, obrigados a oralizar o que lêem para poder compreender, ou que só se sentem à vontade com algumas formas textuais ou tipográficas”. Este comportamento foi se desenvolvendo ao longo da história e, na Idade Média, quando a relação do homem com a religiosidade irá determinar a sua existência, ler será também  uma tentativa de salvar a própria alma.

 Segundo Malcom Parkers, na Idade Média o leitor tinha um corpus de construções gramaticais, herdados da Antiguidade, que serviam para facilitar o processo de leitura, mais do que estimular um verdadeiro interesse pelo que se estava lendo. O homem devia se preocupar com a palavra divina e fugir da idéia da Torre de Babel, ou seja, das complexidades lingüísticas que envolvem o ato de ler. A tradição da Igreja Católica transformou a palavra escrita no instrumento de autoridade da verdade do Cristianismo e as letras se transformaram em sinais visuais que podem ser decifrados somente dentro dos muros das igrejas.

Por outro lado, Parkers ilustra que somente na Escolástica a leitura se tornará um exercício além dos muros dos monastérios e será regulada pela escola e pelas universidades. Aqui aparece o leitor que enfrenta o texto como uma conversação e é capaz de compreender os pensamentos escondidos atrás do significado superficial daqueles sinais. Este é o momento da consciência do “ato de ler” e é quando surge o desejo de uma formação cultural pessoal, não mais coletiva como na Grécia Antiga, nem de status no Império Romano. O termo lectura, que surge na Idade Média, aparece junto à difusão dos “glossários”, ou seja, explicações das partes difíceis de um texto e de resumos que ajudam a encontrar os assuntos procurados em um texto; e que são também instrumentos para os que não possuem a competência pra decifrar um texto com a simples leitura.

É aqui que a figura do leitor implícito começa a tomar forma e é passível de existência e até mesmo de identificação. Na perspectiva histórica sobre o papel da leitura, Jacqueline Hamesse nota que na Escolástica a preocupação do leitor será aquela de dominar assuntos específicos, muitas vezes sem se interessar pela totalidade do texto, como até hoje ainda se faz em pesquisas acadêmicas . Essa leitura fragmentada e em pedaços determinará a relação do homem com o conhecimento, mostrando o poder simbólico que a leitura exerce nas práticas culturais da humanidade. A utilidade da leitura toma o lugar do prazer e até mesmo do conhecimento. Por outro lado, a leitura solitária e silenciosa, adverte Paul Saenger, permite também um modelo de compreensão mais livre e independente, o que não pode ser desconsiderado, visto que o  controle sobre a leitura é uma forma de poder.



Já no Humanismo a liberdade de leitura será estimulada pela Reforma Protestante  e pela invenção da imprensa. Os leitores aprendem a decodificar sozinhos os textos e  essa “civilização de leitores”, usando a denominação de Bourdieu, será mais visível. A assimilação de um texto pelo leitor é um esforço pessoal de escolha e reestruturação das informações escritas, se transformando em um poder de compreender o mundo, de articular informações e de participar do que foi escrito. 

No Renascimento o livro e a leitura se transformarão em mercadoria e a leitura passa a ser, segundo Chartier, realmente uma “apropriação”, um conjunto de competências, usos, códigos e interesses. O texto se transforma assim em um bem de consumo, como acontece também com outras práticas culturais. 

Segundo H.R. Jauss, a experiência estética é resultado das funções sociais primárias, como a emancipação, afirmação, inovação e reprodução; e muitas vezes não são levadas em consideração categorias secundárias, como a identificação, o exemplo e o consenso, que são, na verdade, a base da experiência de comunicação da leitura.  Ler pode ser não somente uma relação intelectual com um objeto artístico, mas um processo de descoberta pessoal e de averiguação de aprendizagens anteriores. Essas reflexões são muito úteis para a compreensão do conceito de leitor implícito sugerido por Iser e que permeia essa dissertação. A História pode ser escrita e lida porque a leitura se tornou um bem de consumo, mas pode ser compreendida e analisada porque as condições de leitura também evoluíram com o tempo.


A interação texto-leitor da Estética da Recepção, por exemplo, significa assumir como parâmetro para a análise literária o leitor. É o que propunha Hans Robert Jauss em contraposição ao estruturalismo e ao marxismo, linha de pensamento que vai se intensificar com a proposta de Iser de ver o texto literário cheio de lacunas e pontos de indeterminação que pedem preenchimentos. O leitor estaria implícito na narrativa, que exerceria sobre ele um efeito estético, ou seja, uma reação. Mas texto e leitor são universos muito distantes e diversos, logo, predominam os vazios que pedem preenchimento. A concepção do leitor implícito não é a abstração de um leitor real, mas condiciona uma tensão que se cumpre no leitor real quando ele assume o papel de leitor.

Meu leitor analfabeto




Na dedicatória do romance A História identificamos o seu leitor implícito, desejado e almejado por Elsa Morante. Ela dedica o livro aos analfabetos, mas não a todos, mas ao “analfabeto para quem eu escrevo”. Aquele que conhece as letras, sabe formar palavras e construir frases, caso contrário não seria capaz de exercer o ato de ler. Mas é um analfabeto porque não tem o pensamento formado e moldado, que está aberto para o esforço de colher os significados, de organizar os fatos para preencher os vazios que aparecem, para entender que a negação é o elemento essencial para estabelecer a alteridade. 

Por ser uma escritora utópica e anarquista, Elsa Morante apela para essas características na sua narrativa. Usando e abusando das opiniões políticas pela boca e escritura de Davide Segre ou exagerando a bondade e a doçura utópica de Useppe. Por meio dos seus personagens ela convida então o seu leitor, que deve evitar os preconceitos e julgamentos à sua postura intelectual e civil. Um leitor que deveria ser assim implicitamente analfabeto.

Como visto anteriormente, o conceito de “leitor implícito” proposto por Wolfgang Iser parte do princípio que esse leitor não tem existência real, ou seja, o leitor seria o conjunto das pré-orientações que um texto ficcional oferece a seus possíveis leitores. A estrutura do texto anteciparia a presença do receptor. A concepção do leitor implícito enfatiza as estruturas de efeitos do texto, cujos atos de apreensão relacionam o receptor a ele. De acordo com Iser:

"(...) os processos de formação de sentido do texto não se realizam na leitura sem que se percam possibilidades de atualização. Essas possibilidades são condicionadas, no caso concreto, pelas disposições individuais do leitor, bem como pelo código sociocultural do qual ele faz parte. Fatores desse tipo orientam a seleção daquilo que constitui para cada leitor a base da consistência e, assim, o pressuposto para a pregnância de sentido do texto."

A leitura requer sempre a participação do leitor. Um texto só existe quando lido e quando o seu sentido é investigado. Na análise literária de Iser, a proposta é que fique claro quem é o leitor implícito no texto, deve-se levar em consideração esse leitor, ou seja, para quem o autor estava dirigindo a sua mensagem e o que ele desejaria que fosse compreendido. No entanto, elaborar o perfil desse leitor implícito não é um trabalho simples porque existem diversos fatores que influenciam nessa construção. Na composição do personagem Ida Ramundo, por exemplo, a partir das opções narrativas e da abordagem realizada, acontece o que Iser chama, por exemplo, de negação e que vai se refletir diretamente na composição da alteridade do personagem e vai exigir uma determinada competência de leitura. 


"Deste modo, a negação doutras possibilidades pela norma em questão dá lugar a uma diversificação virtual da natureza humana, que assume uma forma definida à medida que a norma é mostrada como uma restrição imposta à natureza humana. A atenção do leitor já não se fixa em que as normas representam, mas sim em que esta representação exclui, de modo que através da norma se demonstra uma diferenciação virtual da natureza humana." (Iser)

mercoledì 10 settembre 2014

Sapatos novos para Useppe

A noção de ultrapassado, de novo, de real, de fantasia, tudo é colocado em discussão por Elsa Morante, ela também provavelmente sufocada pela necessidade de contar essa “história”. Experimentar o que não faz parte do seu horizonte significa uma objetivação distanciada do que o envolve até à evidência da experiência de si mesmo, o que às vezes não é possível pelo alto grau de envolvimento no contexto das ações pragmáticas. 

Para Iser, o diálogo entre o texto e o leitor depende dessa assimetria e da indeterminação que provém dela, desde que o texto seja dotado de “meios de controle” sobre esta troca, e é isto que permite a ampliação dos horizontes de leitura. Essa ampliação é um foco de estímulo ao desenvolvimento das competências individuais. No romance de Elsa Morante, por exemplo, o leitor é “empurrado” em direção a uma opinião bem clara e definida da escritora sobre os fatos históricos e o comportamento dos excluídos diante do inevitável. A escolha da maternidade como argumento que guia a história também é uma clara referência a um resgate do papel feminino e da importância da mãe na determinação do percurso individual, seja no desenvolvimento das competências cognitivas ou na tomada de decisões.

Uma noite, nos conta o narrador, alojada em um refúgio depois do bombardeamento do seu prédio, Ida não consegue dormir. Pretende acordar cedo para comprar sapatos novos para Useppe. Sonhos a perseguem e uma sensação de ansiedade generalizada vai se apoderando do seu corpo. O texto “empurra” o leitor pelas ruas de Roma atrás dessa mulher confusa entre a compra econômica e um instinto de sobrevivência. O texto faz com que o leitor inicialmente se sinta incomodado por esse sofrimento psíquico, mas se supera a sensação de desconforto inicial, avança e é controlado pelo texto, que o envolve e o faz refletir sobre o sofrimento e a angústia de Ida.

Na verdade, não sabia mais onde se enfiar. A sua dúvida noturna sobre a possibilidade de vir a ser procurada pelos alemães estava crescendo dentro dela como uma certeza paranóica no seu cérebro enfraquecido, barrando-lhe,  como um colosso, os caminhos que a levariam de volta para o refúgio em Pietralata. Porém, acompanhava os passinhos de Useppe que se dirigiam para a parada do ônibus, convencidos e orgulhosos, se bem que muito irregulares por causa das botinhas muito grandes e ainda duras.


A dúvida e a angústia predominam na narrativa morantiana e existe uma clara procura por um leitor que compreenda e sofra junto, ou seja, nas palavras da escritora, precisa ser “o analfabeto” que se proponha a ler esta história como um processo comunicativo no qual estão em jogo questões utópicas sobre a humanidade. Assim é evidente que A História foi escrito para um leitor que tenha a palavra final sobre o texto que está nas suas mãos, porque requer participação e reflexão, mas também porque a própria narrativa tem necessidade de ser completada pelo ato de leitura. Ao mesmo tempo é um chamado para observar os efeitos da desigualdade e da exclusão entre indivíduos desprovidos de competência para articular os fatos e a própria existência.

lunedì 8 settembre 2014

Igualdades e desigualdades. Quando o leitor tem a palavra

Na vida em comunidade a coexistência de seres diferentes enriquece as relações humanas, torna mais complexo o desenvolvimento das capacidades e proporciona muito mais prazer à existência, tanto individual quanto coletiva. A qualidade, a condição ou o estado de ser o Outro gera a concepção de que todo homem social interage e interdepende de outros indivíduos, ou seja, contempla a sua alteridade.  
Vale ressaltar aqui como foi observada, na análise dos trechos de A História, a alteridade dos personagens em um  panorama de desigualdade e opressão. A valorização dada às hipotiposes, ou seja, às descrições e imagens, ajudou a definir o comportamento individual dos personagens citados. A partir desses critérios, conclui-se que existe um nível de desigualdade neste romance quase tão violento como a própria guerra que serve de fundo histórico para a narrativa.

A desigualdade é um fenômeno identificado pela disparidade objetiva e sistemática da possibilidade e capacidade de controlar recursos e obter privilégios. Nesse raciocínio, se de um lado esses recursos estão ligados à esfera do poder e da influência social, de outro lado os privilégios determinam o nível de vida dos indivíduos e dos grupos ou o grau de desejo social das condições de existência.
 A definição de uma situação social como injustamente desigual depende do critério de igualdade e do caráter mais ou menos livre e consciente do processo comunicativo e das negociações sociais.
A noção de diferença é ligada aos processos de formação e de conservação das identidades individuais e coletivas, e também das escolhas relacionadas aos projetos de realização pessoal, ou seja, a alteridade. Já o conceito de uniformidade se refere à divisão de características e é entendido como uma redução do desejo de distinção a favor da vontade de pertencimento.

Em A História temos Ida Ramundo perenemente nesta busca por um pertencimento, mas predomina o medo de ser diferente, no caso, judia, e de inadequação diante dos outros. Por esse motivo Ida vive sufocando seus “desejos” para simplesmente ser assimilada pela sociedade onde vive. Ela não pensa em nenhum momento que a sua situação é de desigualdade em relação aos outros, porque ela não chega a assimilar que ela é “um Outro”. 
A desigualdade é um acontecimento social desfavorável porque transforma a diferença em uma não-igualdade dos direitos, das necessidades e dos desejos. Os conceitos de diferença e desigualdade se entrelaçam, o que torna mais difícil o equilíbrio social, ainda mais quando se defende a necessidade de garantir o direito a ser diferente. A desigualdade é ativa nos diversos sistemas sociais, inclusive na crítica literária, e influencia na alteridade dos personagens, como é possível observar no romance analisado. 
O juízo de igualdade deve se fundar, ao invés, na avaliação da competência de um indivíduo ou um grupo para desenvolver as capacidades necessárias para alcançar, “se desejam”, determinados resultados. As capacidades de Ida em relação ao mundo, por exemplo, se resumem em conseguir manter o seu trabalho de professora primária, recuperar a sua casa destruída no bombardeio, encontrar o que comer, fazer com que Useppe sobreviva e que Nino tenha um referencial.  A marginalidade da sua existência é  claramente identificada porque ela possui um papel quase inexistente na sociedade, ela é um nonada, é simplesmente uma sobrevivente.
Nas percepções e avaliações subjetivas do papel de cada um na sociedade aparece também uma diferença importante entre as espécies de desigualdade que podem ser encontradas em um tecido social. As pessoas podem encontrar um impedimento para realizar determinados atos ou desenvolver algumas funções porque não possuem as características previstas pelas normas da lei ou dos costumes. 

O outro tipo de desigualdade é a total paridade de todos, independentemente de qualquer característica individual. Pertencer a uma determinada classe social, por exemplo, pode ser um caso de paridade. Mas como as classes sociais são um conjunto de indivíduos e de famílias, com uma mesma relação social e que controlam os mesmos recursos no trabalho e na vida em comunidade, a estrutura de classe se articula também na componente hierárquica que é admitida por todos os seus componentes – esta situação permite assim que exista uma relação de desigualdade admitida coletivamente.  A personagem Ida Ramundo faz parte de uma classe de trabalhadores assalariados  de baixa renda, e baseada nesta situação ela vive a sua existência sem dramas ou revoltas,  agindo como subalterna dentro da própria classe social e excluindo-se do resto da sociedade.

A exclusão não é um fenômeno novo e existem muitas tentativas de estudar as formas de inclusão em uma sociedade baseada na cultura da diferença. Um dos primeiros elementos a serem considerados é a diferença entre os sexos, mas tal fato não deveria isolar o problema das outras dimensões da realidade social, como acontece freqüentemente nos estudos de gênero ou estudos femininos. Ser homem ou mulher não é um fator de diferenciação por si só na estrutura social, outros fatores incidem para  ocorrer o fenômeno da exclusão, como razões religiosas, econômicas e culturais.  Para Julia Kristeva, Pierre Bourdieu e outros especialistas sobre a desigualdade, é principalmente na educação que reside o principal fator de exclusão.
A educação é, na opinião tanto de Bourdieu quando de Kristeva, o instrumento principal de diferenciação entre os indivíduos e a experiência materna é um fator decisivo na qualidade da educação a ser recebida, independente da classe social. Segundo Kristeva,  a mulher, como mãe, tem um papel muito especial no processo de educação do indivíduo e representa, na “cultura das palavras”, a ponte que pode interagir entre a sensibilidade e o racional.

Na opinião de Bourdieu, o papel da família é essencial nos processos de desigualdade, seja do ponto de vista das relações de gênero como na procura por um lugar na sociedade. A família é centrada na educação e na promoção social das crianças e tal fato implica em uma divisão desigual dos papéis entre os homens e as mulheres.  As mulheres, por exemplo, teriam a obrigatoriedade de se ocupar diretamente da educação e cuidados com os filhos. Existe então uma tendência estrutural para a individualização que invade todo o tecido social. Na educação isso se manifesta fortemente, interferindo nos diversos aspectos da vida de cada um de nós. A forma como cada um aprende a tomar decisões na vida depende da formação recebida e, neste sentido, os sexos sofrem a influência de uma individualidade exagerada, que quase sempre se percebe no comportamento entre eles. Por isso a dificuldade em fazer dos homens e mulheres verdadeiros companheiros tanto na emancipação feminina quanto na divisão das tarefas.
O comportamento tem um papel relevante no início da história da educação, como podemos averiguar no caso de um educador historicamente importante como Homero.  Na opinião de Marrou: “Para compreender qual foi a influência educativa de Homero, basta ver como ele mesmo se comportava, como ele concebia a educação dos seus heróis.” A partir do momento que a educação não é mais somente aristocrática, o direito de se reconhecer nos outros se estende a todos. Como pode aprender e imitar, o indivíduo pode também se transformar e, consequentemente, modificar a sua alteridade e até mesmo reduzir o nível de desigualdade. Mas isso não quer dizer que o indivíduo será mais ou menos semelhante ao outro por causa disso. 

A estratégia de sobrevivência desenvolvida pelos oprimidos depende da possibilidade de elaborar as próprias idéias, de forma que seja capaz de entender também informações que estão além da própria comunidade. Também neste sentido se vai além do simples processo de reprodução sugerido por Bourdieu e Passeron, porque o indivíduo poderia potencializar as suas possibilidades de aprendizado e de elaborar formas de escapar da sua realidade, que é justamente aquilo que Ida não consegue realizar.
Essa participação ativa do indivíduo tem como obstáculo, na opinião de Néstor Garcia Canclìni, a fragmentação do espaço urbano em setores privados. A dificuldade de uso dos espaços públicos e de comunicação entre os indivíduos cria uma realidade onde não é possível ter consciência do próprio lugar no mundo. Isso permite a uma minoria de reduzir a sua relação com a maioria, ou seja, de vermos Ida incapaz de ler um jornal, de se informar sobre o que acontece ou o que pode acontecer, de se esconder dentro de casa, de evitar conversar com as colegas no trabalho. A conclusão dessas opiniões sobre a desigualdade e os papéis exercidos pelos homens e mulheres na educação dos filhos é que o percurso feminino é definido pela sua alteridade de mãe, que substitui aquele de “mulher”.

Por outro lado, temos a figura minúscula de Useppe, uma criança que além de extremamente sensível, é pequeno para a sua idade, não desenvolve bem a fala, é socialmente marginalizado por ser um bastardo. O sentimento da infância neste período da história italiana é um outro fator redutor para a personalidade de Useppe. A necessidade de sobrevivência para todos faz com que essa minúscula figura passe quase sempre desapercebida aos “outros”, refazendo um sentimento da infância ligado ao passado, como nos propõe Philippe Ariès:

Na sociedade medieval, que tomamos como ponto de partida, o sentimento da infância não existia – o que não quer dizer que as crianças fossem negligenciadas, abandonadas ou desprezadas. O sentimento da infância não significa  o mesmo que afeição pelas crianças: corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem. Essa consciência não existia. Por essa razão, assim que a criança tinha condições de viver sem a  solicitude constante de sua mãe ou de sua ama, ela ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia mais destes.
(...)
A criança muito pequenina, demasiado frágil ainda para se misturar à vida dos adultos, “não contava”: essa expressão de Molière comprova a persistência no século XVII de uma mentalidade muito antiga. (...) Assim que a criança superava esse período de alto nível de mortalidade, em que sua sobrevivência era improvável, ela se confundia com os adultos.


Neste sentido, na crítica literária de A História temos que considerar o papel histórico e social que Elsa Morante se propôs a revelar na sua narrativa. Como afirma Iser: “Mesmo quando um texto literário não faz senão copiar o mundo presente, sua repetição no texto já o altera, pois repetir a realidade a partir de um ponto de vista já é excedê-la.” A reflexão sobre o modo como Ida vivencia o seu papel de mãe em uma situação social conflitante depende do grau de compreensão do leitor e principalmente do repertório de leituras anteriores que torne possível apreender o sentido que a escritora pretendia dar ao usar imagens tão fortes e duras na descrição dos seus personagens e suas vivências.
Sobre a formação de sentido e de reconhecimento das diferenças e de vazios no texto, recorre-se mais uma vez a Iser, para concluir que as disposições individuais do leitor, assim como o código sociocultural no qual está inserido, orientam a seleção daquilo que é, para cada leitor, a base da consistência e o pressuposto para a pregnância de sentido do texto: 

Levando em conta todos esses fatos, podemos concluir que o texto se mostra como um processo, pois ele não se deixa identificar exclusivamente com nenhuma das fases descritas. O texto não pode ser fixado nem à reação do autor ao mundo, nem aos atos da seleção e da combinação, nem aos processos de formação  de sentido que acontecem na elaboração e nem mesmo a experiência estética que se origina de seu caráter de acontecimento; ao contrário, o texto é o processo integral, que abrange desde a reação do autor ao mundo até sua experiência pelo leitor.



Não é possível experimentar a experiência do outro, porque os homens são invisíveis um para o outro. Não é possível saber com exatidão como o outro vai entender e reagir a uma enunciação. Mas, segundo Iser, é exatamente esta dificuldade que funciona como um impulso para as constantes tentativas de ultrapassá-la e garantir uma busca pela igualdade de compreensão. Por isso a importância de um quadro de referências semelhantes para que ocorra um grau mínimo grau de entendimento das referências presentes no texto. 

A relação texto e leitor é uma forma de interação. Afirma Iser: “A situação e as convenções funcionam apenas como reguladores, para a interação, da incontrolabilidade ou da inapreensibilidade da experiência alheia. Do mesmo modo, são os vazios, a assimetria fundamental entre texto e leitor, que originam a comunicação no processo de leitura”. O equilíbrio entre a escritura e a leitura só ocorre quando ocorre o preenchimento dos vazios, que é a projeção de um referencial. E a possibilidade de preenchimento é uma capacidade individual que, como foi dito anteriormente, depende do desenvolvimento das capacidades e competências através da redução do nível de desigualdade entre os indivíduos.
 O fracasso da leitura viria quando o preenchimento do vazio é feito somente com as próprias projeções, sem as referências externas que fazem parte do “saber” da comunidade onde o indivíduo vive. Para concluir a sua função de objeto de aproximação entre indivíduos, o texto deveria transformar o leitor ao ponto dele projetar algo além do que ele já sabia ou pensava.

Assim o texto constantemente provoca uma multiplicidade de representações do leitor, através da qual a assimetria começa a dar lugar ao campo comum de uma situação. Mas a complexidade da estrutura do texto dificulta a ocupação completa desta situação pelas representações do leitor. O aumento da dificuldade significa que as representações do leitor devem ser abandonadas. Nesta correção, que o texto impõe, da representação mobilizada, forma-se o horizonte de referência da situação. Esta ganha contornos, que permite ao próprio leitor corrigir suas projeções. Só assim ele se torna capaz de experimentar algo que não se encontrava em seu horizonte. (Iser)



Estas experiências de leitura que ultrapassam a capacidade de projeção do leitor provocam inicialmente um estranhamento que, em seguida, evoluem para um melhor estado de compreensão do argumento com o qual o leitor está se deparando. Em A História é vivenciado esse angustiante estado de opressão provocado pela guerra do ponto de vista de um narrador onisciente, elemento que colabora ainda mais para ampliar o horizonte do leitor, como propõe a terminologia de Iser. A intenção de Elsa Morante em aproximar principalmente o leitor “analfabeto” do seu texto pode ser um artifício que funciona como uma das práticas sociais da literatura para reduzir as diferenças no acesso ao saber. 

domenica 7 settembre 2014

Maternidade ausente na vida e presente na literatura. Um paradigma de Elsa Morante

Fra Angelico


A forma dramática da narrativa de Elsa Morante é  também resultado do trágico  na sua própria vida, presente desde a adolescência. Procurando a própria sobrevivência, sentindo-se deslocada ou diferente e, no fim da vida, extremamente preocupada com a aparência física. Os personagens femininos de Elsa parecem ser inspirados no sentimento de inadequação experimentados pela própria autora. Além de Ida Ramundo,   ela criou a enclausurada Elisa e sua mãe deprimida Ana Massia em Menzogna e sortilegio, a controversa Aracoeli, do livro homônimo, entre outras mulheres-personagens que revelam um pouco do caráter e das angústias presentes na vida da escritora.

É muito significativo o lirismo na narração do nascimento de Useppe e das suas descobertas sobre o mundo, que deixam entrever o instinto materno e a celebração da maternidade como referência para o trágico. As descrições, os nomes, os elencos de objetos e situações oferecem ao leitor uma escritora que assume o instinto materno da sua protagonista, acompanhando o desenvolvimento daquela pequena criatura como  se fosse um filho, como se ela tivesse vivido aquela gestação, dado à luz, amamentado e aquecido aquela frágil criança. Ao mesmo tempo, Elsa Morante se dedica a um rigor histórico, narrando com precisão os fatos da História italiana durante a Segunda Guerra. Na sua pietas temos também personagens secundários generosamente construídos, como Carulì e sua a relação “maternal” com Useppe, da mesma forma como o anarquista Carlo Vivaldi/Davi Segre desenvolve uma inesperada relação afetiva com o menino. Toda a narrativa é perpassada pelo tom pessimista, mas como um hino à esperança entoado pelos humildes, pelos “pequenos” do Evangelho de Lucas, como Elsa Morante indica na epígrafe. 

A partir dessa leitura, uma característica marcante do romance é a presença do tom maternal. Como afirma Iser, “todos os modelos textuais representam decisões heurísticas”. Estes modelos não seriam o próprio texto, mas ofereceriam acessos a ele, o que significa que: “O texto nunca se dá como tal, mas sim se evidencia de um certo modo que resulta do sistema de referências escolhidos pelos intérpretes para a sua apreensão.” A ficção pode ser qualificada como uma figura autônoma da realidade e, neste caso, a escritora não parece preocupada com o significado dessa ficção, mas sim com os efeitos que a sua narrativa pode ter no leitor, que irá interpretá-la de acordo com a “dimensão pragmática” do texto. A conduta do leitor diante da narrativa é dirigida por dois elementos: a relação entre o texto e a realidade e entre o texto e o próprio leitor.

A História propicia uma interpretação que, na análise de leitura, se transforma também em uma reflexão sobre o caráter sociológico, histórico e mesmo estilístico da maternidade e o seu papel na construção da alteridade feminina. Após o bombardeamento do seu prédio, Ida se refugia em um galpão com outras famílias também desalojadas. Aqui, o sofrimento de Ida pela ausência de privacidade, a vergonha e autocomiseração são ampliadas, oferecendo um retrato cada vez mais devastador da sua identidade.

"Ida temia sempre estar atrapalhando, ser demais, e apenas muito raramente saía do seu cantinho, vivendo recolhida atrás da sua cortina, como um preso numa solitária. Enquanto se vestia ou se despia, receava que algum estranho aparecesse por trás da cortina, ou que a visse através dos furos dos sacos. Envergonhava-se todas as vezes que ia ao banheiro, onde muitas vezes era preciso entrar na fila. No entanto, aquele quartinho fétido era o único lugar que lhe concedia, pelo menos, alguma pausa de isolamento e tranqüilidade."

A história de Ida é semelhante a de tantas mulheres que sentem dificuldade de se adequar à vida social e sofrem as angústias e ânsias em níveis mais elevados do que seria considerado normal. Este sofrimento patológico de Ida se deve em parte à sua excessiva timidez, mas também provavelmente da doença nervosa que dominava o seu frágil corpo. Apesar da doença estar controlada na idade adulta, com uso de calmantes e soníferos, ainda apresentava marcas dos acessos epiléticos sofridos na primeira infância. O comprimido para dormir, a sonolência sempre presente, a ausência de vontade refletem não somente a postura desta mulher diante da vida, mas a presença de doenças do espírito na existência humana.


Fra Angelico




A maternidade teria sido para Ida também uma espécie de válvula de escape para as suas angústias e a fonte de força e determinação para continuar a sua história. É a partir dessa sua condição de mãe que ela organiza e planeja os seus atos. Durante a Segunda Guerra, vivendo entre os desalojados na periferia de Pietralata, em Roma, a professora viveu momentos de medo e angústia que se relacionam diretamente à sua condição, como quando temia que a polícia alemã a prendesse - e também o pequeno Useppe - porque ela era de origem judia. Em uma noite, temendo o pior, ela se preparou para uma fuga. Elsa Morante convida, através das imagens sugeridas pelas suas palavras, a ver e sentir com Ida. É mais um caso de hipotipose que colabora na construção do personagem e que demonstra a crise de ansiedade e pânico - no sentido patológico identificado pela psiquiatria - que se apodera da personagem:

"Deitara-se vestida e procedera da mesma forma com relação a Useppe. Nem ao menos tomara o seu calmante, para evitar que os alemães, se viessem prendê-la durante a noite, a surpreendessem despreparada. Mantinha-se agarrada ao filho, pois decidira que, assim que ouvisse os passo inconfundíveis dos militares e as suas batidas na porta, tentaria fugir, atirando-se do telhado com Useppe nos braços; em seguida, correria e correria através dos prados até alcançar o pântano, onde se afogaria junto com ele. Os pavores contidos há anos, rompendo-se diante do terror imediato desta noite, cresciam envoltos numa fantasia violenta e sem trégua. Pensava sair à toa pelas ruas, com Useppe entre os braços, sem ligar para os tiroteios anti-aéreos, pois os vagabundos tornam-se invisíveis....(...) Novamente, como no passado, os seus receios contraditórios perseguiam um cometa misterioso que a orientava  na direção dos judeus, prometendo-lhe, bem no fundo, um estábulo materno, quente pela respiração dos animais e pelos seus imensos olhos que não julgavam, eram tão-somente piedosos."

A figura de Ida não é a expressão de como são ou foram as mulheres na história. Mas essa personagem provoca potenciais leitoras que podem se reconhecer; ou  mesmo despertar a revolta diante dessa falsa passividade feminina. A estratégia retórica de A História é dar relevo às mulheres que são objetos de agressão e marginalização. Mas esta opção retórica de Elsa Morante não corresponde a uma tese sobre a identidade feminina, é na verdade uma estratégia comunicativa e uma determinada concepção do desejo individual  na história.

"Porém, assim que lhe caiu sob os olhos, em princípios de dezembro, aquela lei dupla só teve um significado para ela: a partir daquele momento era uma vigiada especial da polícia. A sua culpa já fora contemplada pela lei, sem equívocos nem compromissos, e denunciada a todo mundo sobre as paredes da cidade:
Porém, assim que lhe caiu sob os olhos, em princípios de dezembro, aquela lei dupla só teve um significado para ela: a partir daquele momento era uma vigiada especial da polícia. A sua culpa já fora contemplada pela lei, sem equívocos nem compromissos, e denunciada a todo mundo sobre as paredes da cidade:
Procura-se uma tal Ida, apelidada Iduzza, de raça mista, mãe de dois filhos, o mais velho desertor e militante da resistência, e o mais novo bastardo, de pai desconhecido. Ida não tinha muito medo no que se referia a Ninnarieddu. Assim que pensava nele, via-o, no seu andar jingado (sic), nas pernas longas e retas e os pés espalhados para fora, que sobrepujava todos os percalços ou confusões, um filho invulnerável. Porém, com relação a Useppe era perseguida por tremendos pavores. Todo mundo sabia que durante a perseguição aos judeus, os nazistas tinham arrancado as crianças, mesmo as que estavam nos braços de suas mães, atirando-as nos seus tétricos furgões, como se fossem lixo; e que em certas aldeias, em represália por alguma coisa ou por estarem bêbedos, ou até mesmo por prazer, tinham assassinado as crianças, esmagando-as com seus tanques, queimando-as vivas ou batendo com elas contra a paredes. Naquele tempo poucas pessoas acreditavam nestas notícias (que na verdade - é preciso repeti-lo - foram posteriormente confirmadas pela História e, aliás, representavam apenas uma pequena parte da realidade), julgando-as inconcebíveis. Mas Ida não conseguia afastar aquela visão, e por isto as ruas de Roma e do mundo pareciam-lhe repletas  de possíveis assassinos do seu Useppetto, pequeno pária sem raça, subdesenvolvido, subnutrido, pobre exemplo sem valor. Às vezes, não apenas os fascistas e nazistas, mas todos os seres humanos adultos pareciam a ela assassinos; e corria pelas ruas apavorada, para só parar, exausta e com os olhos esbugalhados, no refúgio; e já da rua vinha gritando Useppe! Useppe!, e ria-se como uma menina ingênua ao ouvir a sua vozinha que lhe respondia: - Olá, mãe!!"


Além de Ida, aparecem muitas outras mães em A História, tal fato comprova que o tema “maternidade” tem um lugar de destaque no romance. É por meio desse comportamento singular, ser mãe, que muitas mulheres comprometem a sua alteridade e que a transformam em indivíduos diferentes diante dos outros. Uma alteridade em confronto com o da da mulher sem filhos. Ida Ramundo, por exemplo, consegue se expressar enquanto indivíduo somente quando se torna mãe.

Com exceção da gata Rossella, que abandona seu filhote até morrer de fome, as mães em A História lutam dolorosamente pela vida de seus filhos. Rossella age com seu instinto animal de sobrevivência, sem as questões e ansiedades que regem a maternidade no campo humano e que tornam essa experiência uma das mais profundas da humanidade. A ausência de consciência e de um saber anterior legitimam o comportamento da gata diante da maternidade inesperada, como podemos observar na descrição do parto fornecida por Elsa Morante:

"Quando a noite já estava bastante adiantada, e ninguém mais se lembrava dela, inesperadamente deu um miado estranho e inquieto, saiu de sob a pirâmide de carteiras, perambulando por ali, com um lamento pungente que implorava: ajudem-me, ajudem-me. Estava possuída por uma excitação tão intensa, como jamais experimentara antes. E então foi se enfiar no seu buraco no meio da palha, atrás da cortina, onde, dali a pouco, deu à luz um gatinho."

Mas ao mesmo tempo não é racionalmente possível culpar Rossella pelo abandono, como fazem todos os habitantes do galpão de Pietralata. Ao perceber que não tinha leite para amamentar o filhote, a gata não tinha como procurar uma alternativa na limitação do seu pensamento e nível de reflexão. É interessante essa proposta de Elsa Morante em demonstrar a diferença do grau de entrega e responsabilidade da maternidade no mundo animal em comparação ao experimentado pela personagem humana. A alteridade da gata sofre um julgamento negativo porque o seu comportamento subverte as regras estabelecidas na sociedade. Carregando nas hipotiposes dramáticas, assim Elsa Morante descreve essa experiência materna animal:

"Ninguém esperava por aquilo, já que nem tinham percebido que estivesse grávida. Na verdade, era um único filhotinho, fraco, tão minúsculo que parecia muito mais um ratinho do que um gato. Embora fosse muito nova e com muito pouca idade, ela tratou logo de arrancar a membrana que o envolvia com mordidas impacientes e quase raivosas, como o fazem todas as mães gatas experientes. Depois começou a lambê-lo rápido, muito rápido, como todas as mães gatas, até que o gatinho deu o seu primeiro miado, tão fino que parecia um mosquito. Então Rossella deitou-se por cima dele, talvez esperando alimentá-lo. Mas provavelmente, talvez devido aos seus jejuns constantes, além da sua idade imatura, tinha as maminhas secas. De repente, e inesperadamente, separou-se dele, observando-o cheia de curiosidade e preocupação. E foi deitar-se sozinha a alguma distância, onde ainda ficou um pouco sem fazer nada, com os olhos conscientes cheios de tristeza, sem responder àquele miado fraco e solitário. Depois, inesperadamente, endireitou as orelhas, percebendo o tom conhecido dos irmãos de Caruli que entravam. Tão logo ouviu-se abrir a porta de entrada, após ter dado um último e indiferente olhar para o gatinho, já estava pronta para sair de trás da cortina e ir para a rua."


O filhotinho de Rossella morre após três dias de agonia, com fome e abandonado. Todos os moradores do alojamento participam desse sofrimento sem nada poder fazer e, quando a gata retorna, triste e sofrida, é escorraçada por todos. Amedrontada e faminta, Rossella aproveita um descuido e mata os dois canarinhos que eram cuidados por Caruli, a Carolina “Mil”, uma adolescente também mãe que aceitou a incumbência em troca de pagamento, depois que o verdadeiro proprietário dos pássaros, Giuseppe Secondo, se juntou à resistência partigiana. Dentro das suas limitações, a violenta vingança de Rossella é a única resposta possível a ser dada aos Outros.


Fra Angelico



A adolescente  Caruli é um outro exemplo diferencial de maternidade que Elsa Morante apresenta no seu romance. Ela cuida das suas gêmeas Rosa e Celeste amamentando, limpando e ninando com uma ternura de menina cuidando de bonecas queridas. É o máximo de si que consegue dar a partir do seu corpinho ainda infantil, que também experimenta a fome e a desolação da guerra, unida à sua família em meio aos desabrigados na periferia de Roma - o mesmo galpão em Pietralata onde Ida e Useppe encontram refúgio. Mas Carolina vê as filhas como bonecas e também reage com agressividade diante da falta de cooperação dos bebês. Assim começa a aparição de Carolina na história de Ida:

"Ao chegar, parecia um fenômeno da natureza, tão minúscula e com uma barriga tão grande, que não se compreendia como conseguia carregá-la sobre seus pezinhos diminutos. No mês de junho, em Roma, no bairro de San Lorenzo, ela deu à luz a duas gêmeas, sadias, normais e gorduchas, enquanto que ela, embora magricela, estava gozando de boa saúde. As duas receberam os nomes de Rosa e Celeste. Como eram idênticas em tudo e por tudo, a mãe, para não confundi-las, mantinha amarrada em seus pulsinhos duas fitinhas, uma celeste e a outra rosa. Infelizmente, com o passar do tempo estas ficaram quase que irreconhecíveis devido à imundície. E a mãe todas as vezes examinava-as escrupolosamente, antes de afirmar, satisfeita:
  • Esta é Rusinella. Esta é Celestina.
Está claro que o seu pouco leite infantil não chegava para as duas carulinettes. Mas uma cunhada sua, romana, ajudou-a, pois estava cheia de leite já que acabara de desmamar à força o último filho - Tílio - que, muito fanático do seu seio, queria passar todo o dia agarrado a ele, mamando."

Carolina é apresentada como uma menina-mãe que, no entanto, encara esse desafio com dedicação e tranquilidade. Mas Caruli não consegue dominar totalmente o seu instinto ainda adolescente no ato de ser mãe. Por isso, nos revela Elsa Morante, era uma ótima mãe, mas suas maneiras eram autoritárias e rápidas, quase sem carinho. E, sem querer, se via brigando com as bebês, como se elas fossem somente miniaturas de si mesma. “Talvez ainda muito imatura para a maternidade, ela, muito mais do que os dois bebês, via nelas duas pessoas da mesma idade sua, anãs, que tinham saído de dentro dela como uma surpresa, como Janet Gaynor da bomba-ovo”

A menina fazia parte de uma grande família, quase uma tribo, que vinha de Nápoles e se juntou a outra parte da família que vivia em Roma, sendo que todos tinham sido desalojados pelas bombas da Segunda Guerra. Eles foram apelidados de “Mil”, justamente por serem tantos.

"Entre os Mil havia um vazio na geração de meia-idade, devido a dois pais - avós de Impero e Currado - que tinham morrido esmagados em Nápoles. Entre tantos filhos menores, eles tinham deixado órfã, entre os presentes Mil, a filha caçula que se chamava Carolina, a qual estava com quinze anos mas parecia ter treze; por causa das duas trancinhas pretas, e dobradas pela metade presas junto às têmporas, fazia lembrar uma gata ou uma raposa com as orelhas em pé. Há um ano, em Nápoles, durante as noites passadas nas grutas para fugir aos bombardeios, esta Carolina, que contava quatorze anos àquela época, tinha ficado grávida, não se sabia por obra de quem. Na verdade, ela mesma diante dos interrogatórios insistentes da tribo, respondia jurando que, se tinha sido alguém, ela nem percebera coisa alguma.  Porém não se podia acreditar na sua palavra, uma vez que a sua cabeça era feita de tal modo que acreditava cegamente em todas as fantasias e invenções, não só dos outros, como nas suas."

Essa era a pequena Carolina, descrita como uma animalzinho sem pensamento racional. Mais uma vez Elsa Morante insiste nessas descrições humanas comparadas a animais, que revelam a questão dialógica proposta neste livro, entre o humano e o animal, entre a utopia e o poder, entre a perspectiva da violência e a do amor, representado principalmente pela maternidade em suas diferentes formas.

É possível observar a alteridade da maternidade também na senhora Di Segni, uma judia do gueto romano que saiu para as compras em uma manhã de 1943 e, ao voltar, encontrou o bairro desabitado. Todos os judeus do gueto tinham sido levados para um trem com destino aos campos de concentração nazistas. A senhora Di Segni consegue chegar à estação e procura desesperadamente a sua família naqueles vagões de gado ainda estacionados. 
"Alguma voz desconhecida alcançou-a lá do fundo do comboio dizendo-lhe que fosse embora, senão eles também a agarrariam quando voltassem dali a pouco.
- Nãoooo! Não, não vou embora, a minha família está aqui! - foi a sua resposta, e investiu ameaçadora e enfurecida, batendo com os punhos contra os carros. - Chamem-nos! Di Segni! Família Di Segni!...Settimio!...- deixou escapar de repente, correndo desenfreadamente para um dos vagões e agarrando-se à tranca da porta, numa tentativa impossível, de arrombá-la. Por trás da grade do alto, aparecera uma pequena cabeça de velho. Percebiam-se os seus óculos brilhando no meio da escuridão reinante, sobre o seu nariz macilento e as suas mãos diminutas agarradas às barras."

A senhora Di Segni não aceita o seu destino de sobrevivente, enquanto toda a sua família, marido, filhos e netos são levados para um destino impensável. A sua força maternal é maior que qualquer instinto de auto-preservação e ela arrisca todo o seu ser nessa busca. Mais tarde o leitor é informado que ela conseguiu completar o seu ciclo, unindo-se à família nos vagões lotados de judeus. Ela morre assim que chega ao campo de concentração, junto com o marido e os netos. Estes porque muito jovens, aqueles porque muito velhos.

A maternidade ao longo da história era considerada um aspecto natural da vida feminina , como crescer ou morrer.  Como observa Lucila Scavone, com a modernidade a maternidade não será mais sempre aceita como irreversível, ela é também uma postura diante da própria existência e da sociedade onde a pessoa está inserida. Com a possibilidade de contracepção, a maternidade passou a ser uma discussão prática e as implicações sociais negativas da maternidade são confrontadas com a valorização dos aspectos psico-afetivos. Neste sentido, o ato de ser mãe passa a ser também um exercício de alteridade consciente, seja na sua negação ou na sua vivência.


A figura materna representada em A História é quase sempre uma Stabat mater, uma madre dolorosa, uma mãe em sofrimento que utopicamente tenta resgatar toda a humanidade da violência da História. Seja a personagem uma mulher madura, uma adolescente ou uma gata, o ato de ser mãe se torna sempre dramático e sofrido sob o olhar de Elsa Morante.