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lunedì 22 settembre 2014

"A História" no cinema


Elsa Morante não viveu com intensidade o mundo da imagem na sua produção, mas conviveu intimamente com artistas que se dedicavam com muito empenho ao cinema, como o cineasta Pier Paolo Pasolini. Também o seu marido, Alberto Moravia, ajudou a transformar diversos romances seus em enredos de filmes, inclusive de muito sucesso. Em livros escritos depois de A História, como Aracoeli, essa opção pela descrição, pela valorização do tempo narrativo, do suave desenrolar do enredo remetem claramente para uma sensação visual na leitura.
A História foi transformado em filme em 1985 pelas mãos do cineasta Luigi Comencini, em duas versões, uma de 240 minutos realizado para a televisão e outra de 153 minutos para o cinema. Mas a proposta do cineasta não era de respeitar o texto e as escolhas estilísticas de Elsa Morante, é aqui temos um outro exemplo do poder de leitura individual sobre o texto.


O poder de usar com tanto empenho a capacidade de leitura é, como dito anteriormente, uma qualidade desenvolvida pelo leitor e que depende em grande parte das suas leituras anteriores. Sem esse repertório textual, o poder da leitura individual se enfraquece e os detalhes, os imprevistos, as surpresas podem se perder em um ato simplesmente óbvio de compreensão do enredo, sem realizar maiores vôos no manuseio das páginas do livro, nos silêncios reflexivos, nas pausas entre uma leitura e outra.
É importante notar que Elsa Morante não é exatamente o tipo de escritora intelectual, difícil ou hermética. Pelo contrário, ela prefere a linguagem simples, as frases relativamente curtas e o discurso direto, apesar das caracterizações fantásticas e cheias de metáforas. O vocabulário é rico, mas acessível ao leitor comum. Tal fato amplia o público leitor, mas não significa que empobrece a multiplicidade de leituras possíveis.
O que Elsa Morante parece almejar, e em A História tal fato é bem significativo, é também o envolvimento emocional do leitor com o enredo.  Como se o convite à leitura fosse na verdade um convite para dividir uma história ouvida ou vivida que ainda provoca comoção no narrador. Assim, o poder exercido pela escritora é o de apelar para o sentimentalismo, a dor humana, a compaixão. Mas, ao mesmo tempo, ela não deixa de lado questões sociais e políticas, e esse é um importante diferencial na avaliação sobre a sua qualidade como escritora. Elsa Morante dá conta de diversos mecanismos narrativos que servem de elemento para uma leitura complexa e diversificada.
Dependendo do ponto de vista assumido na leitura do romance, o leitor pode desenvolver também ele mecanismos de leitura onde possa exercer o seu poder e muitas vezes deixar também prevalecer a violência das suas opiniões e impressões. Este é certamente o ponto de partida para uma leitura que permita vislumbrar as questões elaboradas pelo escritor na composição do romance.

A História é assim um romance que oferece muitos ângulos para a análise literária, ao mesmo tempo que permite uma leitura fluida para o leitor desinteressado em aprofundar a temática, a linguagem ou a abordagem fornecida pela escritora. A intenção com essa dissertação é despertar o interesse na crítica literária brasileira para essa escritora que conquistou um espaço importante na literatura italiana, deixando transparecer as múltiplas discussões que a leitura dos seus textos pode oferecer para leitores que dispõem e pretendem usar o poder de leitura que possuem.

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