Na vida em comunidade a coexistência de seres diferentes enriquece as relações humanas, torna mais complexo o desenvolvimento das capacidades e proporciona muito mais prazer à existência, tanto individual quanto coletiva. A qualidade, a condição ou o estado de ser o Outro gera a concepção de que todo homem social interage e interdepende de outros indivíduos, ou seja, contempla a sua alteridade.
Vale ressaltar aqui como foi observada, na análise dos trechos de A História, a alteridade dos personagens em um panorama de desigualdade e opressão. A valorização dada às hipotiposes, ou seja, às descrições e imagens, ajudou a definir o comportamento individual dos personagens citados. A partir desses critérios, conclui-se que existe um nível de desigualdade neste romance quase tão violento como a própria guerra que serve de fundo histórico para a narrativa.
A desigualdade é um fenômeno identificado pela disparidade objetiva e sistemática da possibilidade e capacidade de controlar recursos e obter privilégios. Nesse raciocínio, se de um lado esses recursos estão ligados à esfera do poder e da influência social, de outro lado os privilégios determinam o nível de vida dos indivíduos e dos grupos ou o grau de desejo social das condições de existência.
A definição de uma situação social como injustamente desigual depende do critério de igualdade e do caráter mais ou menos livre e consciente do processo comunicativo e das negociações sociais.
A noção de diferença é ligada aos processos de formação e de conservação das identidades individuais e coletivas, e também das escolhas relacionadas aos projetos de realização pessoal, ou seja, a alteridade. Já o conceito de uniformidade se refere à divisão de características e é entendido como uma redução do desejo de distinção a favor da vontade de pertencimento.
Em A História temos Ida Ramundo perenemente nesta busca por um pertencimento, mas predomina o medo de ser diferente, no caso, judia, e de inadequação diante dos outros. Por esse motivo Ida vive sufocando seus “desejos” para simplesmente ser assimilada pela sociedade onde vive. Ela não pensa em nenhum momento que a sua situação é de desigualdade em relação aos outros, porque ela não chega a assimilar que ela é “um Outro”.
A desigualdade é um acontecimento social desfavorável porque transforma a diferença em uma não-igualdade dos direitos, das necessidades e dos desejos. Os conceitos de diferença e desigualdade se entrelaçam, o que torna mais difícil o equilíbrio social, ainda mais quando se defende a necessidade de garantir o direito a ser diferente. A desigualdade é ativa nos diversos sistemas sociais, inclusive na crítica literária, e influencia na alteridade dos personagens, como é possível observar no romance analisado.
O juízo de igualdade deve se fundar, ao invés, na avaliação da competência de um indivíduo ou um grupo para desenvolver as capacidades necessárias para alcançar, “se desejam”, determinados resultados. As capacidades de Ida em relação ao mundo, por exemplo, se resumem em conseguir manter o seu trabalho de professora primária, recuperar a sua casa destruída no bombardeio, encontrar o que comer, fazer com que Useppe sobreviva e que Nino tenha um referencial. A marginalidade da sua existência é claramente identificada porque ela possui um papel quase inexistente na sociedade, ela é um nonada, é simplesmente uma sobrevivente.
Nas percepções e avaliações subjetivas do papel de cada um na sociedade aparece também uma diferença importante entre as espécies de desigualdade que podem ser encontradas em um tecido social. As pessoas podem encontrar um impedimento para realizar determinados atos ou desenvolver algumas funções porque não possuem as características previstas pelas normas da lei ou dos costumes.
O outro tipo de desigualdade é a total paridade de todos, independentemente de qualquer característica individual. Pertencer a uma determinada classe social, por exemplo, pode ser um caso de paridade. Mas como as classes sociais são um conjunto de indivíduos e de famílias, com uma mesma relação social e que controlam os mesmos recursos no trabalho e na vida em comunidade, a estrutura de classe se articula também na componente hierárquica que é admitida por todos os seus componentes – esta situação permite assim que exista uma relação de desigualdade admitida coletivamente. A personagem Ida Ramundo faz parte de uma classe de trabalhadores assalariados de baixa renda, e baseada nesta situação ela vive a sua existência sem dramas ou revoltas, agindo como subalterna dentro da própria classe social e excluindo-se do resto da sociedade.
A exclusão não é um fenômeno novo e existem muitas tentativas de estudar as formas de inclusão em uma sociedade baseada na cultura da diferença. Um dos primeiros elementos a serem considerados é a diferença entre os sexos, mas tal fato não deveria isolar o problema das outras dimensões da realidade social, como acontece freqüentemente nos estudos de gênero ou estudos femininos. Ser homem ou mulher não é um fator de diferenciação por si só na estrutura social, outros fatores incidem para ocorrer o fenômeno da exclusão, como razões religiosas, econômicas e culturais. Para Julia Kristeva, Pierre Bourdieu e outros especialistas sobre a desigualdade, é principalmente na educação que reside o principal fator de exclusão.
A educação é, na opinião tanto de Bourdieu quando de Kristeva, o instrumento principal de diferenciação entre os indivíduos e a experiência materna é um fator decisivo na qualidade da educação a ser recebida, independente da classe social. Segundo Kristeva, a mulher, como mãe, tem um papel muito especial no processo de educação do indivíduo e representa, na “cultura das palavras”, a ponte que pode interagir entre a sensibilidade e o racional.
Na opinião de Bourdieu, o papel da família é essencial nos processos de desigualdade, seja do ponto de vista das relações de gênero como na procura por um lugar na sociedade. A família é centrada na educação e na promoção social das crianças e tal fato implica em uma divisão desigual dos papéis entre os homens e as mulheres. As mulheres, por exemplo, teriam a obrigatoriedade de se ocupar diretamente da educação e cuidados com os filhos. Existe então uma tendência estrutural para a individualização que invade todo o tecido social. Na educação isso se manifesta fortemente, interferindo nos diversos aspectos da vida de cada um de nós. A forma como cada um aprende a tomar decisões na vida depende da formação recebida e, neste sentido, os sexos sofrem a influência de uma individualidade exagerada, que quase sempre se percebe no comportamento entre eles. Por isso a dificuldade em fazer dos homens e mulheres verdadeiros companheiros tanto na emancipação feminina quanto na divisão das tarefas.
O comportamento tem um papel relevante no início da história da educação, como podemos averiguar no caso de um educador historicamente importante como Homero. Na opinião de Marrou: “Para compreender qual foi a influência educativa de Homero, basta ver como ele mesmo se comportava, como ele concebia a educação dos seus heróis.” A partir do momento que a educação não é mais somente aristocrática, o direito de se reconhecer nos outros se estende a todos. Como pode aprender e imitar, o indivíduo pode também se transformar e, consequentemente, modificar a sua alteridade e até mesmo reduzir o nível de desigualdade. Mas isso não quer dizer que o indivíduo será mais ou menos semelhante ao outro por causa disso.
A estratégia de sobrevivência desenvolvida pelos oprimidos depende da possibilidade de elaborar as próprias idéias, de forma que seja capaz de entender também informações que estão além da própria comunidade. Também neste sentido se vai além do simples processo de reprodução sugerido por Bourdieu e Passeron, porque o indivíduo poderia potencializar as suas possibilidades de aprendizado e de elaborar formas de escapar da sua realidade, que é justamente aquilo que Ida não consegue realizar.
Essa participação ativa do indivíduo tem como obstáculo, na opinião de Néstor Garcia Canclìni, a fragmentação do espaço urbano em setores privados. A dificuldade de uso dos espaços públicos e de comunicação entre os indivíduos cria uma realidade onde não é possível ter consciência do próprio lugar no mundo. Isso permite a uma minoria de reduzir a sua relação com a maioria, ou seja, de vermos Ida incapaz de ler um jornal, de se informar sobre o que acontece ou o que pode acontecer, de se esconder dentro de casa, de evitar conversar com as colegas no trabalho. A conclusão dessas opiniões sobre a desigualdade e os papéis exercidos pelos homens e mulheres na educação dos filhos é que o percurso feminino é definido pela sua alteridade de mãe, que substitui aquele de “mulher”.
Por outro lado, temos a figura minúscula de Useppe, uma criança que além de extremamente sensível, é pequeno para a sua idade, não desenvolve bem a fala, é socialmente marginalizado por ser um bastardo. O sentimento da infância neste período da história italiana é um outro fator redutor para a personalidade de Useppe. A necessidade de sobrevivência para todos faz com que essa minúscula figura passe quase sempre desapercebida aos “outros”, refazendo um sentimento da infância ligado ao passado, como nos propõe Philippe Ariès:
Na sociedade medieval, que tomamos como ponto de partida, o sentimento da infância não existia – o que não quer dizer que as crianças fossem negligenciadas, abandonadas ou desprezadas. O sentimento da infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças: corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem. Essa consciência não existia. Por essa razão, assim que a criança tinha condições de viver sem a solicitude constante de sua mãe ou de sua ama, ela ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia mais destes.
(...)
A criança muito pequenina, demasiado frágil ainda para se misturar à vida dos adultos, “não contava”: essa expressão de Molière comprova a persistência no século XVII de uma mentalidade muito antiga. (...) Assim que a criança superava esse período de alto nível de mortalidade, em que sua sobrevivência era improvável, ela se confundia com os adultos.
Neste sentido, na crítica literária de A História temos que considerar o papel histórico e social que Elsa Morante se propôs a revelar na sua narrativa. Como afirma Iser: “Mesmo quando um texto literário não faz senão copiar o mundo presente, sua repetição no texto já o altera, pois repetir a realidade a partir de um ponto de vista já é excedê-la.” A reflexão sobre o modo como Ida vivencia o seu papel de mãe em uma situação social conflitante depende do grau de compreensão do leitor e principalmente do repertório de leituras anteriores que torne possível apreender o sentido que a escritora pretendia dar ao usar imagens tão fortes e duras na descrição dos seus personagens e suas vivências.
Sobre a formação de sentido e de reconhecimento das diferenças e de vazios no texto, recorre-se mais uma vez a Iser, para concluir que as disposições individuais do leitor, assim como o código sociocultural no qual está inserido, orientam a seleção daquilo que é, para cada leitor, a base da consistência e o pressuposto para a pregnância de sentido do texto:
Levando em conta todos esses fatos, podemos concluir que o texto se mostra como um processo, pois ele não se deixa identificar exclusivamente com nenhuma das fases descritas. O texto não pode ser fixado nem à reação do autor ao mundo, nem aos atos da seleção e da combinação, nem aos processos de formação de sentido que acontecem na elaboração e nem mesmo a experiência estética que se origina de seu caráter de acontecimento; ao contrário, o texto é o processo integral, que abrange desde a reação do autor ao mundo até sua experiência pelo leitor.
Não é possível experimentar a experiência do outro, porque os homens são invisíveis um para o outro. Não é possível saber com exatidão como o outro vai entender e reagir a uma enunciação. Mas, segundo Iser, é exatamente esta dificuldade que funciona como um impulso para as constantes tentativas de ultrapassá-la e garantir uma busca pela igualdade de compreensão. Por isso a importância de um quadro de referências semelhantes para que ocorra um grau mínimo grau de entendimento das referências presentes no texto.
A relação texto e leitor é uma forma de interação. Afirma Iser: “A situação e as convenções funcionam apenas como reguladores, para a interação, da incontrolabilidade ou da inapreensibilidade da experiência alheia. Do mesmo modo, são os vazios, a assimetria fundamental entre texto e leitor, que originam a comunicação no processo de leitura”. O equilíbrio entre a escritura e a leitura só ocorre quando ocorre o preenchimento dos vazios, que é a projeção de um referencial. E a possibilidade de preenchimento é uma capacidade individual que, como foi dito anteriormente, depende do desenvolvimento das capacidades e competências através da redução do nível de desigualdade entre os indivíduos.
O fracasso da leitura viria quando o preenchimento do vazio é feito somente com as próprias projeções, sem as referências externas que fazem parte do “saber” da comunidade onde o indivíduo vive. Para concluir a sua função de objeto de aproximação entre indivíduos, o texto deveria transformar o leitor ao ponto dele projetar algo além do que ele já sabia ou pensava.
Assim o texto constantemente provoca uma multiplicidade de representações do leitor, através da qual a assimetria começa a dar lugar ao campo comum de uma situação. Mas a complexidade da estrutura do texto dificulta a ocupação completa desta situação pelas representações do leitor. O aumento da dificuldade significa que as representações do leitor devem ser abandonadas. Nesta correção, que o texto impõe, da representação mobilizada, forma-se o horizonte de referência da situação. Esta ganha contornos, que permite ao próprio leitor corrigir suas projeções. Só assim ele se torna capaz de experimentar algo que não se encontrava em seu horizonte. (Iser)
Estas experiências de leitura que ultrapassam a capacidade de projeção do leitor provocam inicialmente um estranhamento que, em seguida, evoluem para um melhor estado de compreensão do argumento com o qual o leitor está se deparando. Em A História é vivenciado esse angustiante estado de opressão provocado pela guerra do ponto de vista de um narrador onisciente, elemento que colabora ainda mais para ampliar o horizonte do leitor, como propõe a terminologia de Iser. A intenção de Elsa Morante em aproximar principalmente o leitor “analfabeto” do seu texto pode ser um artifício que funciona como uma das práticas sociais da literatura para reduzir as diferenças no acesso ao saber.

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