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martedì 16 settembre 2014

A autonomia do leitor de Elsa Morante

E é no ato de ler que se define quem é esse leitor implícito e como ele vai lidar com as negações e vazios do texto. Como demonstram Roger Chartier e Pierre Bourdieu, existe um diálogo entre diversas áreas do saber em busca de uma definição para o ato de ler. Para Bourdieu, ler é um consumo cultural, assim como ver um filme, ouvir uma música e, segundo Chartier, para usufruir desse consumo dependemos das nossas capacidades de leitura. Essas capacidades seriam elaboradas a partir da distinção entre auctor e lector, ainda na Idade Média. O auctor seria aquele que produz, o lector seria alguém cuja produção é a de “falar” das obras dos outros. A posição assumida diante de uma produção escrita depende de ser justamente um autor ou um leitor. 

Bourdieu ressalta que nos acostumamos a universalizar o ato da leitura como se fosse sempre fruto do modelo estrutural, ou seja, uma leitura interna que considera um texto nele mesmo e por ele mesmo.  Mas “ler” nem sempre foi uma atividade individual e solitária e é produto das condições as quais somos submetidos enquanto leitores. O texto pode ter sido escrito para ser lido, mas também pode ser destinado a comunicar uma maneira de agir. Neste caso, Bourdieu ressalta que existe “uma maneira de ler o texto que permite saber o que se quer fazer que o leitor faça”. Essa seria uma das leituras possíveis do “leitor implícito” proposto por Iser.

É possível construir uma identidade e uma história pessoal pelas leituras que foram e são realizadas por um indivíduo. Elas compõem aquilo que Iser chama de repertório textual.

 A leitura obedece às mesmas leis que as outras práticas culturais, com a diferença de que ela é mais diretamente ensinada pelo sistema escolar, isto é, de que o nível  de instrução vai ser mais potente no sistema dos fatores explicativos, sendo a origem social o segundo fator. No caso da leitura, hoje, o peso do nível de instrução é mais forte. Assim, quando se  pergunta a alguém seu nível de instrução, tem-se já uma previsão concernente à sua maneira de ler.

Na mesma trilha de Chartier e Bourdieu, encontramos também a análise de Michel de Certeau sobre os “usos da leitura”, ou seja, a leitura como uma arte de usar a linguagem, na qual as pessoas criam trajetórias indeterminadas. Para explicar sua teoria, Certeau diferencia as estratégias e táticas assumidas pelo leitor na sua relação com o texto. A estratégia seria permitir uma relação de força com os outros, determinada pelas instituições e que deve ser seguida pelo indivíduo. A tática é a tentativa de superar a debilidade diante do conhecimento estruturado e a ausência de poder. Também aqui teríamos uma espécie de investigação sobre uma “tipologia” de leitor, ou seja, que leitor o autor esperava encontrar ao escrever. 

A linguagem é uma arte de “dizer” e “fazer”, que Kant definia como uma arte de pensar, que é também a arte da memória e da ocasião, de aproveitar a oportunidade e com o menor esforço possível obter o melhor resultado. A narrativa se desenvolve criando fronteiras e limites ao mesmo tempo que abre espaços e autoriza ações posteriores.

 Escrever é assim a prática moderna do mito, porque serve para organizar o saber e revela a ambição em fazer (ou contar) a história. O mito, na definição de Certeau, é um discurso fragmentado que se articula nas práticas heterogêneas de uma sociedade por meio do símbolo. Este poder simbólico de quem escreve reflete o progresso do mundo ocidental no sentido de valorizar a escritura - esta atividade concreta que consiste em construir um texto - que exerce um poder externo cuja extensão não é possível ser calculada. O texto cria dentro de si os instrumentos de uma apropriação do espaço exterior.

A necessidade de ler como busca de informação pode ser transformada em uso do texto como um guia de vida, ou seja, o texto passa a influenciar o percurso de vida dos seus leitores. O conceito de repertório textual de Iser parte dessa relação dialógica entre o texto e o leitor. “Por meio dessas transformações provocadas pelos signos do texto, o leitor produz o objeto imaginário”

Essa diferenciação da leitura pode ser um instrumento de discriminação entre os leitores, que poderão ou não aprender a usar as estratégias ou táticas de uso da linguagem, ou seja, a ter mais ou menos poder sobre o ato de ler. Uma leitura legítima seria uma boa leitura, um bom modo de apropriação do texto, o que significa ter poder sobre o poder que a escritura tem. 

Em uma sociedade cada dia mais “escrita”, organizada pelo poder de transformar as coisas e reformar as estruturas a partir de modelos escritos (científicos, econômicos, políticos), os produtores de textos, ou seja, os autores, têm a pretensão de “informar” as pessoas, ou seja, de “dar forma”  às práticas sociais. Como nota Bourdieu: “o intelectual é também alguém  que pode agir à distância ao transformar as visões de mundo e as práticas cotidianas, que pode agir sobre a forma de aleitar as crianças, a forma de pensar e de falar à namorada”

O ato de ler como uma prática social e política muitas vezes não é considerada, com exceção de alguns casos na literatura, nos quais os escritores estão  preocupados em compreender o percurso da leitura nos seus leitores. A relação entre o homem-escritor e o homem-leitor ainda tem muito a revelar sobre o universo da leitura e o seu poder. E é aqui que o conceito de leitor implícito se revela substancialmente interessante. O texto ganha sentido com o seu leitor, se transforma com ele e se organiza de acordo com os códigos de percepção que muitas vezes não são identificados pelo autor, apesar das inevitáveis intenções presentes no ato de escrever.  

A autonomia do leitor depende de uma transformação das relações sociais diante do texto. Mas não seria o caso de uma substituição de modelos de educação à leitura, mas simplesmente de agregação de novos espaços de jogo e de astúcia na aprendizagem. O leitor deveria ser capaz de ler a si mesmo no texto, aprender a ser dentro e fora ao mesmo tempo, aprender a jogar com os fragmentos para conseguir formar o seu quebra-cabeça, que pode ser um texto produzido pelas suas reações e suas recordações. Este caso é o que Iser chamaria de “vazio”, como já citamos anteriormente: “Na relação dialógica entre texto e leitor, esse vazio, contudo, atua como energia que provoca a produção de condições da comunicação; desse modo, se constitui um padrão de situações através do qual o texto e o leitor alcançam uma convergência.”

Nos últimos séculos, a leitura sofreu muitas transformações. Do trabalho em conjunto dos olhos e da boca na leitura em voz alta, ler passou a ser função somente dos olhos na leitura silenciosa. A boca que se fecha é símbolo do corpo que se afasta do texto, da corporeidade reduzida ao trabalho do cérebro, mas é sempre, como afirmam Guglielmo Cavallo e Roger Chartier,   “uma prática encarnada em determinados gestos, espaços e hábitos” e “não todos aqueles que podem ler os textos o lêem da mesma maneira e, em cada época, é grande a distância entre os escritores talentosos e os leitores menos hábeis”

As práticas de leitura dependem da forma na qual “os textos podem ser lidos, e lidos de forma diferente por leitores que não possuem as mesmas técnicas intelectuais, que não estabeleçam uma mesma relação com a escritura, que não atribuem nem o mesmo significado nem o mesmo valor a um gesto aparentemente idêntico: ler um texto”

A história da leitura do ponto de vista sociológico põe em relevo as traduções culturais e as diferenças sociais a partir das “comunidades de interpretação”, que reconduzem a relação da escritura às formas de ser e viver. A oralidade, mesmo com a passagem da leitura oral para a silenciosa na Grécia Antiga, fez sempre parte da leitura e é no diálogo que vemos mais claramente essa influência. 

Platão, em Fedro, demonstra a importância do diálogo para o desenvolvimento das capacidades cognitivas e, logo, das habilidades de ler e escrever. Platão dizia que a potência do discurso é uma forma de conduzir as almas e por isso é importante identificar quem são os leitores, afinal, continua Platão: “alguns homens são de um jeito, e outros diferentes. Mas, assim existem diferentes espécies de almas,  e também de discursos existem tantas e tantas espécies, cada uma diferente da outra. Alguns homens, logo, são tais que tais discursos, para tal causa, são mais fáceis de persuadir; mas outros são diferentes, e, por determinadas razões, são difíceis de persuadir.” É na prática da diferença que os homens podem se aproximar ou se afastar, gerando assim os efeitos nefastos do poder e do desenvolvimento, temas que interessam muito à Elsa Morante em “A História”.

Para pôr em relevo a questão da leitura e do poder é necessário traçar um panorama da leitura como prática social, visto que nas origens culturais do Ocidente encontramos o caminho para entender o mundo contemporâneo. Partindo das análises de Jesper Svenbro vemos, por exemplo, que o papel da leitura oral na Grécia Antiga facilita a identificação do ato de ler com ação. Isso porque no verbo grego nemein o sentido de ler é uma hipótese de leitura como “distribuição”, mas que pode ser também uma “autodistribuição”, quando é usada a forma ananemein, ou seja, é o leitor se inclui no ato da leitura, que toma uma posição e não é excluído do poder que aquela leitura proporciona. Svenbro demonstra que ler para o homem grego era um esforço e que isso influenciará toda a relação do homem com a leitura na sociedade ocidental.

Segundo Platão, a leitura silenciosa afasta as almas do leitor e do autor porque desconsidera o poder do diálogo.  Ou seja, o esforço físico da fala como ato de leitura que se perde significa também a perda do contato entre esses dois pólos, o criador e o receptor. Por isso, como aponta John Durham Peters, acontece a crítica de Sócrates ao ato de escrever que substitui aquele de falar, como parte de uma reflexão mais ampla sobre a instabilidade na relação entre as pessoas, entre as almas e os corpos.                                                                               

Já os romanos usaram o termo legere, que tem o sentido literal de “colher”. A leitura seria então “colher” o sentido. Também neste caso a leitura è identificada como um esforço, o da colheita. Ler é dar voz ao escritor, é oferecer a própria voz. Ser lido significa, por outro lado, exercitar um poder sobre o corpo do leitor mesmo e uma grande distância de espaço e de tempo. Tal fato é percebido com clareza na República Romana, porque é neste período que a leitura doméstica se desenvolve ao mesmo tempo que nasce o conceito de “privado”, a leitura também pertence ao leitor, passa a ser um bem adquirido. 

 O fator positivo da leitura como ato privado é, obviamente, o aumento da alfabetização, porque o homem comum do povo começará a a imitar os ricos, que aprendem a ler como um adorno à sua riqueza. Neste período aparecem também as primeiras mulheres que se relacionam com a palavra escrita, mas ligada frivolamente à leitura de “consumo” e de “lazer”, aspecto totalmente coerente com a alteridade feminina e a construção do gênero ao longo da história. A maneira de ler passa a ser, a partir do Império Romano, uma forma de identificar socialmente um indivíduo e é um recurso ao mimetismo para construir a própria identidade de leitor.

Roger Chartier argumenta que a “leitura é sempre uma prática encarnada em gestos, em espaços, em hábitos” e que “aqueles que são capazes de ler textos não o fazem da mesma maneira, e há uma grande diferença entre os letrados talentosos e os leitores menos  hábeis, obrigados a oralizar o que lêem para poder compreender, ou que só se sentem à vontade com algumas formas textuais ou tipográficas”. Este comportamento foi se desenvolvendo ao longo da história e, na Idade Média, quando a relação do homem com a religiosidade irá determinar a sua existência, ler será também  uma tentativa de salvar a própria alma.

 Segundo Malcom Parkers, na Idade Média o leitor tinha um corpus de construções gramaticais, herdados da Antiguidade, que serviam para facilitar o processo de leitura, mais do que estimular um verdadeiro interesse pelo que se estava lendo. O homem devia se preocupar com a palavra divina e fugir da idéia da Torre de Babel, ou seja, das complexidades lingüísticas que envolvem o ato de ler. A tradição da Igreja Católica transformou a palavra escrita no instrumento de autoridade da verdade do Cristianismo e as letras se transformaram em sinais visuais que podem ser decifrados somente dentro dos muros das igrejas.

Por outro lado, Parkers ilustra que somente na Escolástica a leitura se tornará um exercício além dos muros dos monastérios e será regulada pela escola e pelas universidades. Aqui aparece o leitor que enfrenta o texto como uma conversação e é capaz de compreender os pensamentos escondidos atrás do significado superficial daqueles sinais. Este é o momento da consciência do “ato de ler” e é quando surge o desejo de uma formação cultural pessoal, não mais coletiva como na Grécia Antiga, nem de status no Império Romano. O termo lectura, que surge na Idade Média, aparece junto à difusão dos “glossários”, ou seja, explicações das partes difíceis de um texto e de resumos que ajudam a encontrar os assuntos procurados em um texto; e que são também instrumentos para os que não possuem a competência pra decifrar um texto com a simples leitura.

É aqui que a figura do leitor implícito começa a tomar forma e é passível de existência e até mesmo de identificação. Na perspectiva histórica sobre o papel da leitura, Jacqueline Hamesse nota que na Escolástica a preocupação do leitor será aquela de dominar assuntos específicos, muitas vezes sem se interessar pela totalidade do texto, como até hoje ainda se faz em pesquisas acadêmicas . Essa leitura fragmentada e em pedaços determinará a relação do homem com o conhecimento, mostrando o poder simbólico que a leitura exerce nas práticas culturais da humanidade. A utilidade da leitura toma o lugar do prazer e até mesmo do conhecimento. Por outro lado, a leitura solitária e silenciosa, adverte Paul Saenger, permite também um modelo de compreensão mais livre e independente, o que não pode ser desconsiderado, visto que o  controle sobre a leitura é uma forma de poder.



Já no Humanismo a liberdade de leitura será estimulada pela Reforma Protestante  e pela invenção da imprensa. Os leitores aprendem a decodificar sozinhos os textos e  essa “civilização de leitores”, usando a denominação de Bourdieu, será mais visível. A assimilação de um texto pelo leitor é um esforço pessoal de escolha e reestruturação das informações escritas, se transformando em um poder de compreender o mundo, de articular informações e de participar do que foi escrito. 

No Renascimento o livro e a leitura se transformarão em mercadoria e a leitura passa a ser, segundo Chartier, realmente uma “apropriação”, um conjunto de competências, usos, códigos e interesses. O texto se transforma assim em um bem de consumo, como acontece também com outras práticas culturais. 

Segundo H.R. Jauss, a experiência estética é resultado das funções sociais primárias, como a emancipação, afirmação, inovação e reprodução; e muitas vezes não são levadas em consideração categorias secundárias, como a identificação, o exemplo e o consenso, que são, na verdade, a base da experiência de comunicação da leitura.  Ler pode ser não somente uma relação intelectual com um objeto artístico, mas um processo de descoberta pessoal e de averiguação de aprendizagens anteriores. Essas reflexões são muito úteis para a compreensão do conceito de leitor implícito sugerido por Iser e que permeia essa dissertação. A História pode ser escrita e lida porque a leitura se tornou um bem de consumo, mas pode ser compreendida e analisada porque as condições de leitura também evoluíram com o tempo.


A interação texto-leitor da Estética da Recepção, por exemplo, significa assumir como parâmetro para a análise literária o leitor. É o que propunha Hans Robert Jauss em contraposição ao estruturalismo e ao marxismo, linha de pensamento que vai se intensificar com a proposta de Iser de ver o texto literário cheio de lacunas e pontos de indeterminação que pedem preenchimentos. O leitor estaria implícito na narrativa, que exerceria sobre ele um efeito estético, ou seja, uma reação. Mas texto e leitor são universos muito distantes e diversos, logo, predominam os vazios que pedem preenchimento. A concepção do leitor implícito não é a abstração de um leitor real, mas condiciona uma tensão que se cumpre no leitor real quando ele assume o papel de leitor.

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