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lunedì 26 maggio 2014

Representação da alteridade de uma Mater dolorosa

La Storia par MoranteAo narrar uma história, o autor estabelece relações entre as palavras, os pensamentos e ações. Um dos instrumentos mais usados para a construção de uma narrativa é a retórica. A retórica é uma linguagem orientada para a ação que sempre pretende demonstrar algo. É também a arte da persuasão e do convencimento. Na Antiguidade, o filósofo Zenone di Cizio descrevia a retórica como uma mão aberta. Esta metáfora é confirmada por Cicerone, que afirmou que “l’eloquenza era come una mano aperta”, ou seja, a eloquência é como uma mão aberta. Mas, segundo Cicerone, não é uma mão aberta que determina, mas sim uma palavra que convida.

A palavra, como afirmou Aristóteles, pode ser um ato comum, um barbarismo, uma ornamentação. As palavras podem ser o que o autor ou o leitor querem que elas sejam. Nas figuras de linguagem elas assumem completamente esse caráter íntegro, repleto de significados.

Outro elemento importante nesta análise é a oposição entre a estilística e a retórica, que foi examinada com profundidade por Lotman. Ele sugere a opção por uma originalidade semântica, o que põe as figuras retóricas novamente no centro do debate como um meio de expressão da identidade textual. A hipotipose se confronta com o conceito de sinal linguístico de Saussure, no qual a compreensão do texto acontece através do estímulo aos recursos plásticos e miméticos que a linguagem permite. A eficácia dos textos, a partir da força da retórica, revela-se na dialética entre a criação e a desconstrução das ideias.

Entre as figuras da retórica, temos a hipotipose, que é uma espécie de artifício verbal que estimula o leitor não simplesmente a ver algo através das palavras, porém também a ter vontade de vê-lo. As definições de hipotipose são circulares, ou seja, giram em torno de uma tentativa de aproximação a outras figuras retóricas como, por exemplo, a metonímia e a metáfora. Mas a definição mais usada é aquela que a identifica como uma técnica de representação verbal do visível ou imaginado, a hipotipose é imagem por meio de palavras. Ela oferece essa mão aberta para pôr diante dos olhos do leitor observações, descrições, enumerações e sensações visuais.

A imagem está por toda parte, ela representa o que somos e o que gostaríamos de ser e é predominante nas relações sociais e culturais na sociedade atual. Para o filósofo francês Pierre Lévy, por exemplo, estamos inseridos em uma realidade na qual a imagem perde a sua exterioridade de espetáculo para abrir-se à imersão, e, nesta evolução, a simulação substitui a semelhança, o real se confunde no virtual.

A dimensão retórica é essencial para a análise da eficácia do texto como gênero comunicativo – favorecendo também a dimensão mais específica da tradução. A prática da enunciação, examinada pelo semiólogo Jacques Fontanille, revela a forma como a intensidade colocada nos conteúdos textuais sugere uma ampla possibilidade de reconhecimento dos sujeitos linguísticos. A prática do reconhecimento do sinal linguístico provoca um estranhamento que George Steiner define como “iluminadora e intencional”  porque é nesse “estranhamento” que as inferências do leitor, ou seja, a sua interação com o texto, se realizam.

Essa figura retórica se refere à relevância das ideias, uma mise en valeur que põe o objeto diante dos olhos por meio de uma descrição exagerada e ampliada. Portanto a hipotipose não pretende dar somente uma significação ao seu objeto, ela exige um esforço sobretudo para incitar a imaginação e evocar a cena descrita através de estratégias de imitação ou associativas. É uma entre as possibilidades de representar o espaço com as palavras.

Além de ser conhecida como hipotipose, é identificada também como evidentia e reconhecida como illustratio, demonstratio, ekphrasis o descriptio, enargheia. Ela é a figura diante da qual se representam ou se evocam experiências visuais através de procedimentos verbais5. Desde a retórica clássica de Hermógenes, Longino, Cicerone ou Quintiliano, a idéia de pôr as coisas diante dos nossos olhos é o caminho muitas vezes percorrido na análise da hipotipose.

A hipotipose é também a recuperação de experiências e memórias, é a capacidade de contar através das palavras o vivido ou imaginado. Seja na prática narrativa ou em aspectos semióticos, a questão da imagem, ou seja, a relação entre o texto e a experiência das imagens, é um caso que Umberto Eco identifica como “dupla tradução”. Entre as palavras e as imagens, ou entre narração e visão, existe um caminho de idas e vindas que concretiza o ato de colocar em palavras o que é invisível aos olhos. Assim a hipotipose é um estímulo não somente a ver, mas a ter a disponibilidade para ver.

Pode ser uma descrição, como a Biblioteca de Babel de Borges ou um salão parisiense de Proust, ou mesmo um elenco, como nas gavetas da cozinha de Leopold Bloom no Ulysses de Joyce, e assim por diante. Cesare Segre sustenta que o valor comunicativo da imagem parte do princípio de que a língua se difunde no tempo enquanto a imagem se expande no espaço.

Quando as palavras nos fazem ver as coisas, por iniciativa do texto e não nossa, acontece a hipotipose, o que caracteriza o efeito estético proposto por Iser na leitura de um livro.
Mas quando acontece a hipotipose? O caráter circular da definição de hipotipose, como uma figura diante da qual se representam ou se evocam experiências visuais através de procedimentos verbais, equivale a dizer, de forma genérica, que “existe hipotipose quando existe hipotipose”. Por isso, evidencia Eco, ela pede ajuda a outras figuras de linguagem para se realizar, mais precisamente à metonímia e à metáfora.

A hipotipose acontece na definição metafórica “fazer tocar com o dedo” a realidade, é uma proximidade visual que se realiza na escritura. São necessárias técnicas descritivas e narrativas para provocar essa impressão visual no leitor, para fazê-lo colaborar com o texto usando a sua imaginação e criatividade. As táticas e estratégias que, segundo o filósofo francês Michel de Certeau, cada indivíduo está pronto para usar no cotidiano, são úteis no processo de fazer ver o efeito do real no texto. Um efeito real produzido por paralelos entre a análise da realidade, a imaginação da ficção e a sua reprodução textual, o que quer dizer que a hipotipose pode até mesmo criar uma recordação - necessária para que essa possa acontecer.

O uso da hipotipose na escritura depende de várias categorias e Umberto Eco, nas suas pesquisas sobre o tema, enumerou nove. Mas ele adverte que essas categorias não são exaustivas, são apenas direções de pesquisa. De acordo com a sua divisão, a hipotipose pode ser usada para nomear, descrever, descrever comparando, fazer uma ekfrasi oculta, descrever com acúmulo de movimentos agitados, organizar um elenco.

O uso descritivo dessa figura é o mais aproveitado. O que se propõe é uma espécie de indução por meio das palavras, revelando o seu caráter eminentemente pragmático. O leitor deve colaborar com o texto, de forma que seja capaz de construir uma representação visual. Se o objeto não está presente, então ele não pode ser representando através de um substituto da palavra. E essa seria a razão de ser da descrição. Aquela literária então, enquanto referencial, resulta submetida aos critérios que caracterizam a ficção e tem a vocação de falar de um mundo ausente porque imaginado. Todavia a premissa não literária da descrição é aquela que delineia o objeto da descrição procurando criar uma ilusão de verdade – essa é a hipotipose.

Lendo o texto podemos identificar o apelo retórico da escritora. Em A História, Elsa Morante propõe exprimir a alteridade de um filho bastardo, aceito e amado pela mãe, mas que crescia escondido. No seu esconderijo, o menino crescia rapidamente. Aqui a escritora compara seu nascimento prematuro com a precocidade no crescimento. Podemos visualizar o bebê que se revela pleno de energia e que terá um destino que se confronta a este crescimento. O texto se abre para diversas interpretações do leitor.

Que futuro espera Useppe?

Giuseppe, assim como fora precoce no seu nascimento, revelou-se precoce em tudo. Nas etapas habituais e naturais que assinalam o desenvolvimento dos lactentes, no itinerário das experiências, ele chegava sempre adiantado, mas com uma antecipação tal (pelo menos para aquela época) que eu mesma nem poderia acreditar se não tivesse visto, de alguma maneira, o seu destino. Parecia que as suas pequeninas forças se estendiam todas juntas, com um urgente e imenso ardor, na direção do espetáculo do mundo sobre o qual acabava de penetrar. 

Vemos esse recém-nascido, prematuro, avançar com força e decisão no seu crescimento e essa antecipação surpreendente revela um conflito na sua existência futura. É o retrato também do filho tão amado pela mãe, ao mesmo tempo em que o renega por ser filho do estupro e da vergonha. Por isso talvez a necessidade de Useppe de se antecipar, de se mostrar vivo, simpático, querido. Ainda no berço, e talvez até antes, no ventre materno, Giuseppe já percebia que precisava lutar para ter o seu mínimo espaço no mundo, mesmo que por breve tempo.

A temperatura ainda era amena, e Giuseppe ficava completamente nu, no seu bercinho. A vergonha ainda não existia para ele. Seu único sentimento era a avidez de demonstrar às visitas o seu contentamento em recebê-las. Sua alegria era realmente intensa, como se para ele, de cada vez, se renovasse a ilusão de que aquela rápida festa iria durar por toda a eternidade.
A alegria contagiante e autêntica deste bebê representada na sua inocente nudez é um modo do leitor ver, através da descrição desta cena, esse estranho cenário de festa, no qual o recém-nascido festeja a visita dos adolescentes do bairro que, convidados pelo irmão Nino, se reúnem na casa para conhecê-lo. Essa nudez é também sinal de fragilidade, e podemos ver o quanto essa reação exagerada revela o caráter festivo e carente do menino.

 Giuseppe, come era stato precoce nella nascita, così fino da principio si rivelò precoce in tutto. Alle solite tappe naturali, che segnano l’avanzata di ogni lattante sull’itinerario delle esperienze, lui arrivava sempre in anticipo; ma talmente in anticipo (almeno per quei tempi di allora) che io stessa stenterei a crederci, se non avessi diviso, in qualche modo, il suo destino. Pareva che le sue piccole forze si tendessero tutte insieme, in un grande fervore urgente, verso lo spettacolo del mondo sul quale s’era appena affacciato”.

 La stagione era ancora mite, e Giuseppe, nel suo lettuccio, stava tutto nudo; però la vergogna non esisteva per lui. L’unico suo sentimento era la brama di esprimere ai visitatori la propria contentezza di riceverli: la quale era infinita, come se ogni volta, per lui, si rinnovasse l’illusione che quella brevissima festa durasse eterna.” 


A ideia que a escritora parece querer pôr em relevância é justamente a de estimular o leitor a querer ver, a imaginar essa criança em estado de graça, como podemos concluir na continuidade dessa descrição cheia de imagens e sugestões. Podemos também, usando nossas referências históricas e culturais, ver no menino a figura do menino Jesus no estábulo. Assim como o Filho de Deus, Useppe nasce fora de casa e passa seus primeiros dias na simplicidade de um bercinho inventado.
E na sua pretensão, quase louca, de exprimir com os meios de que dispunha aquele contentamento infindo, Giuseppe multiplicava todos de uma só vez com seu tímido bater de pernas, seus olhares maravilhados, seus choros, sorrisos e risadinhas; recebendo em troca uma avalanche de cumprimentos, gracinhas, alguns elogios e beijinhos.

Elsa Morante é uma autora com muita criatividade literária e domina soberana todos os recursos da sua língua, oferece descrições minuciosas e ricas, diálogos com vivacidade e veracidade que revelam adequadamente o caráter dos seus personagens, de acordo com a origem social, a idade, o gênero, sem que isso a faça perder a poesia. Por conta disso, pesquisar a alteridade dos seus personagens em um texto como “A História” revela-se uma atividade muito rica e vasta. Tal fato justifica traçar esse panorama dos personagens usando uma figura retórica como a hipotipose.

A hipotipose aproxima o leitor do texto. Nesse trecho, por exemplo, a autora nos fornece a impressão inicial da sua personagem principal por meio de uma descrição forte e permeada de imagens, que caracterizam o uso da retórica para a definição da personalidade e da alteridade.
Na verdade, Ida permanecera uma menina, porque o seu principal relacionamento com o mundo sempre fora e continuava a ser, tivesse ela conhecimento ou não disso, uma sujeição amedrontada. Os únicos que, na realidade, não lhe causavam medo tinham sido pai, o marido, e mais tarde, talvez, os alunos. Para ela, todo o resto da humanidade representava uma insegurança destruidora; no entanto, embora nem se desse conta do fato, ela própria também estava presa por suas raízes, sabe-se lá em que pré-história tribal. E nos imensos olhos, amendoados e escuros havia uma doçura passiva, mas ao mesmo tempo eivada de uma barbaria muito profunda e incurável, que parecia conter um conhecimento antecipado das coisas. 

De fato, premonição não é a expressão mais adequada, porque o conhecimento estava excluído. A estranheza daqueles olhos recordavam muito mais a estupidez misteriosa dos animais, que “sabem” o passado, e o futuro de cada destino, não com a mente, mas com o sentido de seus corpos vulneráveis. Chamarei a esse sentido – que é comum a eles, e confuso nos outros sentidos corpóreos – de sentido do sagrado, entendendo-se, para eles, por sagrado, o poder universal que pode devorá-los e exterminá-los, pela culpa de terem nascido.

 “E nella pretesa, quasi matta, di esprimere coi suoi mezzi miserrimi quella contentezza infinita, Giuseppe moltiplicava tutti in una volta i suoi timidi scalpitii, i suoi sguardi incantati, i suoi vagiti, sorrisi e risatine; ricambiato da una giostra indiavolata di saluti, spiritosaggini, e qualche complimento o bacetto. "


Ida nascera em 1903, sob o signo de Capricórnio, que inclina à indústria, às artes e à profecia, mas também, em determinados casos, à loucura e à estupidez. Era medíocre de inteligência; porém, foi uma estudante dócil e diligente nos estudos e jamais repetiu um ano. Não tinha irmãos nem irmãs; e os pais ensinavam, todos os dois, na mesma escola elementar de Cosenza, onde tinham se encontrado pela primeira vez. 

O tom quase de denúncia permeia toda a construção literária de A História. Desde o início o leitor é apresentado ao seu personagem principal de forma a criar essa imagem de uma mulher humilde, estúpida, medíocre e dócil. O conhecimento estava excluído da vida Ida Ramundo muito antes que ela pudesse decidir ou tentar adquiri-lo. Estudar ou ser uma boa menina não mudaria em nada o seu percurso de indivíduo simplório e sem grandes conquistas. A única realização de Ida foi a de existir e de ser mãe de duas criaturas, que morrem prematuramente e também não conseguem adquirir o conhecimento necessário para compreender a própria existência e de possuir o domínio da forma como se apresentam diante dos outros.

E difatti, Ida era rimasta, nel fondo, una bambina, perché la sua precipua relazione col mondo era sempre stata e rimaneva (consapevole o no) una soggezione spaurita. I soli a non farle paura, in realtà erano stati suo padre, suo marito, e più tardi, forse, i suoi scolaretti. Tutto il resto del mondo era un’insicurezza minatoria per lei, che senza saperlo era fissa con la sua radice in chi sa quale preistoria tribale. E nei suoi grandi occhi a mandorla scuri c’era una dolcezza passiva, di una barbarie profondissima e incurabile, che somigliava a una precognizione.
Precognizione, invero, non è la parola più adatta, perché la conoscenza ne era esclusa. Piuttosto, la stranezza di quegli occhi ricordava l’idiozia misteriosa degli animali, i quali non con la mente, ma con un senso dei loro corpi vulnerabili, “sanno” il passato e il futuro di ogni destino. Chiamerei quel senso - che in loro è comune, e confuso negli altri sensi corporei - il senso del sacro: intendendosi, da loro, per sacro, il potere universale che può mangiarli e annientarli, per la loro colpa di essere nati.
Ida era nata nel 1903, sotto il segno del Capricorno, che inclina all’industria, alle arti e alla profezia, ma anche, in certi casi, alla follia e alla stoltezza. D’intelligenza, era mediocre; ma fu una scolara docile, e diligente nello studio, e non ripeté mai una classe. Non aveva fratelli né sorelle; e i suoi genitori insegnavano tutti e due nella stessa scuola elementare di Cosenza, dove s’erano incontrati la prima volta.” 


Ida não sentia o menor medo ao lado do pai que para ela representava uma espécie de carrinho quente, luminoso e claudicante, mais inexpugnável do que um tanque, que a levava para passear alegremente e bem segura entre os terrores do mundo, acompanhando-a por toda parte e jamais permitindo que a deixassem sair só pelas ruas, onde cada porta de entrada, cada janela ou encontro representavam uma ameaça de ataque. Durante o inverno, talvez por medida de economia, usava uns casacos de pastor amplos e longos, e nos dias de chuva protegia-a, mantendo-a sob o casaco, bem junto ao seu corpo.

No original em italiano Elsa Morante escreveu sobre Ida: “Da sempre, i giornali a lei suscitavano, solo al vederli, un senso innato di straniamento e di avversione; e da ultimo, essa addirittura sbigottiva già a scorgerne appena i titoli in prima pagina, così grossi e neri.” 

 Ida sentia uma sensação “inata’ (substantivo desprezado na tradução que deixa claro que aquela sensação nascia dentro dela, não era uma sensação adquirida com o tempo) de “estranhamento”, como se aquelas palavras em forma de notícia não fizessem parte da sua vida, da sua “história”. Ela não se sentia apenas alheia aos fatos, ela simplesmente não reconhecia aqueles fatos como parte de si mesma, por isso era um estranhamento, não um afastamento, que se somava à aversão. Os jornais despertavam em Ida uma sensação incômoda, que era inata à ela, que a atormentava. Ela não era indiferente, Ida sofria ao não ser capaz, apesar de alfabetizada, de entender o percurso da história através das notícias publicadas nos jornais.
Na tradução, esse “horror” que notamos na hipotipose construída por Elsa Morante se perde um pouco, ainda mais somada à eliminação do verbo “sbigottiva”, que quer dizer “se assombrar”. Porque Ida sbigottiva ao correr os olhos pelas notícias, ou seja, se assombrava. Sem esse verbo, não podemos “ver” esse assombro da Ida, pasma diante daquelas letras “assim tão grandes e negras”, que ela não entendia e ainda causavam medo. A descrição das manchetes oferece essa imagem de uma minúscula e encurvada mulher diante daquelas potentes folhas penduradas na banca de jornal.

Iduzza perdeva ogni paura accanto a suo padre, il quale per lei rappresentava una specie di carrozzella calda, luminosa e zoppicante, più inespugnabile d’un carro armato, che la portava gaiamente a spasso, al sicuro fra i terrori del mondo: dovunque accompagnandola, e mai permettendo che la si mandasse sola per le vie, dove ogni uscio, finestra o incontro estraneo la minacciavano d’offesa. D’inverno, forse per economia, usava certi mantelli da pastore, ampi e piuttosto lunghi, e nelle giornate di maltempo, la riparava dalla pioggia tenendosela vicino accostata sotto il proprio mantello.” 

 A tradução utilizada nesta dissertação propõe: “Os jornais, só de vê-los, sempre despertaram nela uma sensação de alheamento e aversão; ultimamente ela corria os olhos pelos títulos da primeira página, grandes e negros”.
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Essa forte reação de Ida à notícia de jornal acontece por causa do seu medo de ser descoberta como judia naquele período de perseguição racial que antecede a Segunda Guerra Mundial. Mas o seu temor não era de si mesma, Ida aqui se anula. Ela pensa somente nos perigos aos quais Nino poderia estar submetido no caso de ser identificado como judeu. O seu papel de mãe se sobrepõe ao seu instinto de sobrevivência.

Essa Mater dolorosa aparece como um indivíduo em silêncio na sua relação com a grande História. Para marcar bem essa opção, didaticamente Elsa Morante inicia cada capítulo com descrições do momento histórico sem nenhuma intenção literária, nem mesmo de crônica. É um resumo seco e sucinto, com raras intervenções de opinião. Enquanto o corpinho desse Gesù Bambino se desenvolve lentamente no pequeno apartamento do bairro San Lorenzo, em Roma, antes do bombardeamento, na História mundial os fatos, segundo a escritora, se revelam assim:

Março-junho
Chega a câmara da morte ao campo de concentração nazista em Belsen.
Durante uma reunião do Reichstag em Berlim, Hitler (que já assumiu pessoalmente o comando-em-chefe do exército) recebe a concessão de plenos poderes, com direito de vida e de morte sobre todos os cidadãos alemães.
Tem início a grande ofensiva da aviação inglesa, que adota a tática (já aplicada pela Alemanha) da area bombing, isto é, incursões noturnas sem objetivos específicos, com toneladas de explosivos e bombas incendiárias, concentradas sobre áreas civis edificadas. Contra-ação de represália por parte dos alemães.

 Marzo-Giugno
Nel campo di concentramento nazista di Belsen, attivata la “camera della morte”.
In una riunione del Reichstag a Berlino, Hitler (che ha già assunto personalmente il comando

in capo dell’esercito) riceve il conferimento ufficiale dei pieni poteri, con diritto di vita e di morte su ogni cittadino germanico.
Ha inizio la grande offensiva dell’aviazione inglese, che adotta la tattica (già applicata dalla Germania) dell’area bombing ossia incursioni notturne senza obiettivi specifici, con tonnellate di esplosivi e spezzoni incendiarii, a saturazione di aree civili edificate. Controazioni di rappresaglia da parte tedesca.



No apartamento de Ida Ramundo, Giuseppe não toma conhecimento de nada disso, excluído das misérias do mundo, procura nas pequenas coisas a razão para dar prosseguimento à sua existência. A riqueza do personagem e o modo como ele aparece aos outros é determinante na expressão da sua alteridade e que se mostra conflitual.

Jamais existira uma criança tão alegre quanto ele. Tudo quanto via à sua volta despertava o seu interesse e deixava-o todo animado. Olhava divertido as gotas de chuva do lado de fora da janela, como se fossem confetes ou estrelas cadentes coloridas. E se a luz do sol, chegando indiretamente ao teto, levasse até ele o movimento matinal da rua refletido em sombras, ficava encantado com aquilo, sem se cansar, como se estivesse assistindo a um espetáculo extraordinário de mágicos chineses, feito apenas para ele. Na verdade, tinha-se a impressão, pelas suas risadas, pelo contínuo iluminar-se do seu rostinho, que ele não via as coisas restritas aos seus aspectos habituais, mas sim como se fossem imagens múltiplas de outras coisas, variáveis ao infinito. Se assim não fosse, nunca se poderia explicar como uma cena miserável e monótona que a casa lhe oferecia diariamente pudesse proporcionar-lhe um divertimento tão mutável e inexaurível.

“Non s’era mai vista una creatura più allegra di lui. Tutto ciò che vedeva intorno lo interessava e lo animava gioiosamente. Mirava esilarato i fili della pioggia fuori della finestra, come fossero coriandoli e stelle filanti multicolori. E se, come accade, la luce solare, arrivando indiretta al soffitto, vi portava, riflesso in ombre, il movimento mattiniero della strada, lui ci si appassionava senza stancarsene: come assistesse a uno spettacolo straordinario di giocolieri cinesi che si dava apposta per lui. Si sarebbe detto, invero, alle sue risa, al continuo illuminarsi della sua faccetta, che lui non vedeva le cose ristrette dentro i loro aspetti usuali; ma quali immagini multiple di altre cose varianti all’infinito. Altrimenti non si spiegava come mai la scena miserabile, monotona, che la casa gli offriva ogni giorno, potesse rendergli un divertimento così cangiante, e inesauribile.” 

O leitor que Elsa Morante convida com as descrições minuciosas e ricas sobre o comportamento do recém-nascido Useppe é sensível aos pormenores e sabe valorizar o quanto um indivíduo tão pequeno pode ter importância na História. Essa importância relativa que o leitor pode dar ao personagem reflete o grau de concordância ou menos com a trajetória da História oficial e a história dos pequenos, dos marginalizados, dos excluídos dos centros do poder e das decisões. Diante de Hitler ou Mussolini, Useppe, assim como seu pai desconhecido, o soldado quase adolescente Günther, é o retrato da inocência massacrada pela violência, mas que resiste e procura de todo modo ser feliz, mesmo que inconscientemente.

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