Após a Segunda Guerra Mundial, a realidade italiana, especialmente a romana, estava contagiada por uma vibração de provocação, em que a violência e a ausência de moral faziam parte do caráter das pessoas de forma quase natural. Do ponto de vista do cinema e da literatura, em um certo sentido, se via no neorrealismo italiano uma abertura lingüística que poderia ser chamada de “baixa” cultura. Mas essa posição é criticada por muitos escritores e estudiosos italianos, como Alberto Moravia, que se opunha à idéia de que o neorrealismo fosse uma espécie de “indigestão da realidade”
. Os personagens principais de A História não são indigestos pela sua violência, mas pelo modo como sofrem a violência e se deixam ingenuamente serem transportados pela crueldade.
Como afirma Lyotard,
o papel do saber (inclusive “saber ser”) é essencial no mundo contemporâneo, no qual a legitimação desse saber acontece muitas vezes pelas meta-narrativas. Segundo o filósofo francês, a função narrativa perde os seus heróis, os grandes périplos e os grandes fins se dispersando em uma nuvem de elementos, sejam esses linguísticos, narrativos, denotativos, prescritivos ou descritivos. A nossa vida é dedicada ao aumento do poder e à eficácia dos nossos atos e produções.
A tendência da modernidade em procurar definir as condições de um discurso provoca a reintegração da dignidade das culturas narrativas populares, como ocorria já no Renascimento, mas também, mais tarde, em outros momentos históricos. De acordo com a análise de Lyotard, o saber narrativo oferece uma solução à legitimação das novas autoridades. As pessoas estão empenhadas em um confronto com si mesmas, sobre o que é justo ou injusto, da mesma forma que a comunidade dos cientistas se pergunta sobre o que é verdadeiro ou falso, construindo assim novos paradigmas. Essa forma de legitimação, ainda segundo Lyotard, faz da narrativa um instrumento de validação do saber, que pode se desenvolver como um herói do conhecimento, ou mesmo como um herói da liberdade individual. O problema é ter a clareza do que existe e conseguir transpor na narrativa esse conhecimento.
Na teoria do romance de Lukács podemos ver que as narrativas foram se adequando à consciência ou não da necessidade da construção das identidades e da afirmação da alteridade:
Ao sair em busca de aventuras e vencê-las, a alma desconhece o real tormento da procura e o real perigo da descoberta, e jamais põe a si mesma em jogo; ela ainda não sabe que pode perder-se e nunca imagina que terá de buscar-se. Essa é a era da epopeia. Não é falta de sofrimento ou a segurança do ser que revestem aqui homens e ações em contornos jovialmente rígidos (o absurdo e a desolação das vicissitudes do mundo não aumentaram desde o início dos tempos, apenas os cantos de consolação ressoam mais claros ou mais abafados), mas sim a adequação das ações às exigências intrínsecas da alma: à grandeza, ao desdobramento, à plenitude. Quando a alma ainda não conhece em si nenhum abismo que a possa atrair à queda ou a impelir a alturas ínvias, quando a divindade que preside o mundo e distribui as dádivas desconhecidas e injustas do destino posta-se junto aos homens, incompreendida mas conhecida, como o pai diante do filho pequeno, então toda a ação é somente um traje bem-talhado da alma.
À era da epopeia se segue um período em que as angústias parecem ter mais importância do que a própria existência. Na pós-modernidade os personagens parecem não desconhecer os riscos da aventura e sofrem ao imaginar ou prever o que virá, à diferença do herói da epopéia. O herói da tragédia moderna, de acordo com Luckács - e podemos seguir a mesma trilha para falar da pós-modernidade - é um dever-ser. “O dever-ser mata a vida, e um herói da epopeia construído a partir de um ser do dever-ser não será mais que uma sombra do homem vivo da realidade histórica – a sua sombra, mas nunca o seu arquétipo, e o mundo que lhe é dado como experiência e aventura não será mais que um diluído molde do real, e jamais seu núcleo ou sua essência.”
Por outro lado, na sua análise sobre a ética pós-moderna, Zygmunt Bauman retoma o valor do Outro como próximo. Alguém que está por perto, que podemos tocar e desenvolver afetos. A moral estaria diretamente ligada a essa relação com o Outro. Se na ética moderna o Outro era um obstáculo, na pós-modernidade ele será o caminho para se autodescobrir, ou seja, será pelos olhos do Outro que poderemos nos ver realmente. “Na ética pós-moderna, o Outro não mais seria aquele que, na melhor das hipóteses, seria a presa da qual pode-se alimentar o eu para reabastecer seus humores vitais orgânicos,e – na pior das hipóteses – contrariaria e impediria a constituição do eu. Ele será, ao invés, o guardião da vida moral.”
Como demonstra Cesare Garboli no seu prefácio a outro romance de Elsa Morante, L’ Isola di Arturo, a escritora espera uma relação direta e frontal com o seu leitor e o seu crítico. Ao escrever, Elsa Morante parece querer ser olhada diretamente nos olhos, apesar de usar de tantos jogos e movimentos nos seus enredos. Na sua narrativa, ela foge de qualquer tipo de aproximação a esquemas da literatura italiana do século XX. Ela fala de coisas essenciais e ao mesmo tempo quiméricas. Ela tem sempre um “tema” a ser desenvolvido em um diálogo com o Outro.
Garboli nota que, quando Elsa Morante começa um romance, parece que está contando a história de um gato, de um móvel de casa, porque as suas histórias nascem a partir de perspectivas familiares e domésticas. A narrativa começa em um corredor, uma cozinha, naqueles lugares no qual vivemos todos os dias, distraídos, e onde a vida se repete sempre e parece ser perpétua. Os seus personagens vivem uma existência humilde e são parte de uma existência cíclica, de um futuro que ignoramos completamente. Segundo Garboli, a vocação de romancista de Elsa Morante é a da percepção de um outro modo de permanência das coisas, como se a vida pudesse ser ao mesmo tempo eternamente vivida e eternamente perdida.
Portanto, de acordo com essas opções estéticas e éticas da escritora, a violência é permanente e reflete a ética do medo do Outro, principalmente por ser ambientado em uma época de guerra. Se a violência faz parte da existência da humanidade, assim também o medo é um sentimento com o qual o indivíduo deve conviver. O motivo de Ida ser tão ingênua, inocente, quase mecânica, se justifica nessa postura diante de um caminho sem fuga. Não adiantaria Ida se rebelar ou tentar fazer diferente. O destino é marcado pela violência e ela, na sua imobilidade, ao menos consegue se manter viva. Mas para isso ela sente a necessidade de desconfiar do Outro, quase temê-lo, e recusar qualquer contato social.
Neste sentido vemos claramente uma denúncia de Elsa Morante sobre a ética do medo do Outro e a confirmação de uma estética crítica em busca de novas referências existenciais, de angústias psicológicas que ganham status de razão social. A leitura desse romance pede do leitor a simplicidade para acompanhar os passos dessa mãe amedrontada ao lado da sua criança minorada, mas não exatamente pede um efeito catártico, até porque o leitor que Elsa Morante convida a abrir o seu livro é analfabeto não porque não saiba ler. Não é nem mesmo o analfabeto funcional, que sabe ler mas não decifrar os sentidos.
O analfabeto de Elsa Morante é o leitor sem preconceitos, que teria a disponibilidade de agir e refletir sobre a história com seus próprios meios. É o leitor que recusa até mesmo a hegemonia da “alta cultura”, da intelectualidade, ou seja, de quem acredita que, em um certo sentido, tem em mãos o poder. É pensando nesse “leitor implícito” que a narrativa se desenvolve e se articula. A linguagem simples e acessível que revela toda a complexidade daquele momento da guerra é um elemento de aproximação para todo e qualquer leitor. As escolhas temáticas e os argumentos são dirigidos principalmente para aquele leitor que pensa e se preocupa com o Outro, para aquele que leva em consideração os humildes e as vítimas do poder.