Elenco blog personale

venerdì 9 settembre 2011

Utopia

Elsa Morante pretende narrar a utopia sobre a natureza humana e a possibilidade de pureza, de se liberar da violência e das exigências cruéis da existência. O fascismo não morre em 1945, mas está vivo e é parte integrante da sociedade italiana. A História é a história da falta de comunicação e do sofrimento, a história de uma forma não verbal de viver a realidade. Para tanto, se utiliza da ingenuidade da personagem Ida e da inocência de Useppe. 

Como revela Von der Fehr: 

“Useppe é o personagem chamado para representar essa natureza humana utópica. O menino é a única figura humanamente realizada no romance. Apesar de Useppe ser apenas uma criança, demonstra uma enorme capacidade de prestar atenção nos outros. Useppe é como os homens deveriam ser (e assim nasce a utopia), mas ele não sobrevive no romance." 

Assim como a utopia não sobrevive no mundo real.

Do ponto de vista sociológico, o que mais chama a atenção na literatura de Elsa Morante é a defesa da utopia, o desejo de propor pessoas “sem vontade” ou “utópicas” como heróis na História. Parece ser natural interpretar o silêncio de Ida como expressão da “não-presença” da mulher nos discursos dominantes. Na sua análise do livro, Von der Fehr observa, por exemplo, que a ausência de “desejo” de Ida poderia ser facilmente desviada para uma interpretação de Ida como expressão de um ponto de vista “lacaniano” em relação à forma com que homens e mulheres usam a linguagem, no sentido de que as mulheres assumem o papel de ser o “outro” do homem. Mas podemos evitar essa leitura porque existe um modo maternal do narrador e conotações icônicas e religiosas relacionadas à maternidade que apontam para um caminho único e exclusivo feminino, onde a mulher não é o “Outro”, onde ela se realiza plenamente, que seria a maternidade.
Ida assim não seria uma pessoa no sentido psicológico de um indivíduo. Ida deve ser vista como um personagem abstrato, a mãe, a representação da Madonna. É o Stabat Mater dolorosa, a dor de Maria diante do filho crucificado. E nesta leitura icônica e imagética da protagonista e do seu filho que podemos fazer a diferenciação de gênero, com o feminino-materno como herói dessa história. A maternidade é sempre um acontecimento à margem da grande História, em que mãe e filho se conhecem entre quatro paredes, tentando ambos sobreviver à violência deste contato e também à violência do mundo lá fora, que não toma e não quer tomar conhecimento desses personagens marginalizados.
O comportamento da personagem Ida é baseado nessa maternidade que supera tudo, desde a violência da concepção, visto que Useppe é fruto de um estupro, até à sua dedicação apaixonada ao filho e à sua permanente luta para ajudá-lo a sobreviver na hostilidade do mundo. Por fim, a utopia da tentativa de superar até mesmo os limites físicos e a doença.

Utopia se refere ao imaginário ou ideal, que evocam sociedades ideais e modos de viver ideais, cujo objetivo é a perfeição entendida como harmonia. As utopias aparecem assim como produtos do imaginário humano. Quando os escritores falam de utopia geralmente não é somente um sonho ou uma nostalgia, mas realmente uma proposta de algo a ser feito ou a ser imitado. Geralmente a utopia reflete um sentimento de frustração e insatisfação com a realidade.

Após a Segunda Guerra Mundial, a realidade italiana, especialmente a romana, estava contagiada por uma vibração de provocação, em que a violência e a ausência de moral faziam parte do caráter das pessoas de forma quase natural. Do ponto de vista do cinema e da literatura, em um certo sentido, se via no neorrealismo italiano uma abertura lingüística que poderia ser chamada de “baixa” cultura. Mas essa posição é criticada por muitos escritores e estudiosos italianos, como Alberto Moravia, que se opunha à idéia de que o neorrealismo fosse uma espécie de “indigestão da realidade”. Os personagens principais de A História não são indigestos pela sua violência, mas pelo modo como sofrem a violência e se deixam ingenuamente serem transportados pela crueldade.
Como afirma Lyotard, o papel do saber (inclusive “saber ser”) é essencial no mundo contemporâneo, no qual a legitimação desse saber acontece muitas vezes pelas meta-narrativas. Segundo o filósofo francês, a função narrativa perde os seus heróis, os grandes périplos e os grandes fins se dispersando em uma nuvem de elementos, sejam esses linguísticos, narrativos, denotativos, prescritivos ou descritivos. A nossa vida é dedicada ao aumento do poder e à eficácia dos nossos atos e produções.
A tendência da modernidade em procurar definir as condições de um discurso provoca a reintegração da dignidade das culturas narrativas populares, como ocorria já no Renascimento, mas também, mais tarde, em outros momentos históricos. De acordo com a análise de Lyotard, o saber narrativo oferece uma solução à legitimação das novas autoridades. As pessoas estão empenhadas em um confronto com si mesmas, sobre o que é justo ou injusto, da mesma forma que a comunidade dos cientistas se pergunta sobre o que é verdadeiro ou falso, construindo assim novos paradigmas. Essa forma de legitimação, ainda segundo Lyotard, faz da narrativa um instrumento de validação do saber, que pode se desenvolver como um herói do conhecimento, ou mesmo como um herói da liberdade individual. O problema é ter a clareza do que existe e conseguir transpor na narrativa esse conhecimento.
Na teoria do romance de Lukács podemos ver que as narrativas foram se adequando à consciência ou não da necessidade da construção das identidades e da afirmação da alteridade:

Ao sair em busca de aventuras e vencê-las, a alma desconhece o real tormento da procura e o real perigo da descoberta, e jamais põe a si mesma em jogo; ela ainda não sabe que pode perder-se e nunca imagina que terá de buscar-se. Essa é a era da epopeia. Não é falta de sofrimento ou a segurança do ser que revestem aqui homens e ações em contornos jovialmente rígidos (o absurdo e a desolação das vicissitudes do mundo não aumentaram desde o início dos tempos, apenas os cantos de consolação ressoam mais claros ou mais abafados), mas sim a adequação das ações às exigências intrínsecas da alma: à grandeza, ao desdobramento, à plenitude. Quando a alma ainda não conhece em si nenhum abismo que a possa atrair à queda ou a impelir a alturas ínvias, quando a divindade que preside o mundo e distribui as dádivas desconhecidas e injustas do destino posta-se junto aos homens, incompreendida mas conhecida, como o pai diante do filho pequeno, então toda a ação é somente um traje bem-talhado da alma.
À era da epopeia se segue um período em que as angústias parecem ter mais importância do que a própria existência. Na pós-modernidade os personagens parecem não desconhecer os riscos da aventura e sofrem ao imaginar ou prever o que virá, à diferença do herói da epopéia. O herói da tragédia moderna, de acordo com Luckács - e podemos seguir a mesma trilha para falar da pós-modernidade - é um dever-ser. 

“O dever-ser mata a vida, e um herói da epopeia construído a partir de um ser do dever-ser não será mais que uma sombra do homem vivo da realidade histórica – a sua sombra, mas nunca o seu arquétipo, e o mundo que lhe é dado como experiência e aventura não será mais que um diluído molde do real, e jamais seu núcleo ou sua essência.”

Por outro lado, na sua análise sobre a ética pós-moderna, Zygmunt Bauman retoma o valor do Outro como próximo. Alguém que está por perto, que podemos tocar e desenvolver afetos. A moral estaria diretamente ligada a essa relação com o Outro. Se na ética moderna o Outro era um obstáculo, na pós-modernidade ele será o caminho para se autodescobrir, ou seja, será pelos olhos do Outro que poderemos nos ver realmente. 

Na ética pós-moderna, o Outro não mais seria aquele que, na melhor das hipóteses, seria a presa da qual pode-se alimentar o eu para reabastecer seus humores
vitais orgânicos,e – na pior das hipóteses – contrariaria e impediria a constituição do eu. Ele será, ao invés, o guardião da vida moral.”


LUKÁCS, G. A teoria do romance. Um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. São Paulo: Livraria Duas Cidades; Ed. 34, 2000.
MORAVIA, A. Racconti romani. Milano: Bompiani, 1997. LYOTARD, J-F. A condição pós-moderna. Rio de janeiro: José Olympio, 2002.

Nessun commento:

Posta un commento