Ao narrar uma história, o autor estabelece relações entre as palavras, os pensamentos e ações. Um dos instrumentos mais usados para a construção de uma narrativa é a retórica. A retórica é uma linguagem orientada para a ação que sempre pretende demonstrar algo. É também a arte da persuasão e do convencimento. Na Antiguidade, o filósofo Zenone di Cizio descrevia a retórica como uma mão aberta ou, segundo Quintiliano, a idéia de pôr as coisas diante dos nossos olhos é o caminho muitas vezes percorrido na análise da hipotipose. Esta metáfora é confirmada por Cicerone, que afirmou que “l’eloquenza era come una mano aperta”, ou seja, a eloquência é como uma mão aberta. Mas, segundo Cicerone, não é uma mão aberta que determina, mas sim uma palavra que convida.
A palavra, como afirmou Aristóteles, pode ser um ato comum, um barbarismo, uma ornamentação. As palavras podem ser o que o autor ou o leitor querem que elas sejam. Nas figuras de linguagem elas assumem completamente esse caráter íntegro, repleto de significados.
Entre as figuras da retórica, temos a hipotipose, que é uma espécie de artifício verbal que estimula o leitor não simplesmente a ver algo através das palavras, porém também a ter vontade de vê-lo. As definições de hipotipose são circulares, ou seja, giram em torno de uma tentativa de aproximação a outras figuras retóricas como, por exemplo, a metonímia e a metáfora. Mas a definição mais usada é aquela que a identifica como uma técnica de representação verbal do visível ou imaginado, a hipotipose é imagem por meio de palavras. Ela oferece essa mão aberta para pôr diante dos olhos do leitor observações, descrições, enumerações e sensações visuais.
A imagem está por toda parte, ela representa o que somos e o que gostaríamos de ser e é predominante nas relações sociais e culturais na sociedade atual.Para o filósofo francês Pierre Lévy, por exemplo, estamos inseridos em uma realidade na qual a imagem perde a sua exterioridade de espetáculo para abrir-se à imersão, e, nesta evolução, a simulação substitui a semelhança, o real se confunde no virtual.
A dimensão retórica é essencial para a análise da eficácia do texto como gênero comunicativo – favorecendo também a dimensão mais específica da tradução. A prática da enunciação, examinada pelo semiólogo Jacques Fontanille, revela a forma como a intensidade colocada nos conteúdos textuais sugere uma ampla possibilidade de reconhecimento dos sujeitos linguísticos. A prática do reconhecimento do sinal linguístico provoca um estranhamento que George Steiner define como “iluminadora e intencional” porque é nesse “estranhamento” que as inferências do leitor, ou seja, a sua interação com o texto, se realizam.
“Qualsiasi traduzione agisce dunque in una zona di mediazione tra l’autonomia definitiva di ‘archetipi’ legati al contesto e gli universali della logica. In ultima analisi, la validità di una traduzione si basa su un assunto indimostrabile di universalità o di affinità dello spirito umano” (Steiner, G.)
Essa figura retórica se refere à relevância das ideias, uma mise en valeur que põe o objeto diante dos olhos por meio de uma descrição exagerada e ampliada. Portanto a hipotipose não pretende dar somente uma significação ao seu objeto, ela exige um esforço sobretudo para incitar a imaginação e evocar a cena descrita através de estratégias de imitação ou associativas. É uma entre as possibilidades de representar o espaço com as palavras.
Além de ser conhecida como hipotipose, é identificada também como evidentia e reconhecida como illustratio, demonstratio, ekphrasis o descriptio, enargheia. Ela é a figura diante da qual se representam ou se evocam experiências visuais através de procedimentos verbais. Desde a retórica clássica de Hermógenes, Longino, Cicerone. Um outro elemento importante nesta análise é a oposição entre a estilística e a retórica, que foi examinada com profundidade por Lotman. Ele sugere a opção por uma originalidade semântica, o que põe as figuras retóricas novamente no centro do debate como um meio de expressão da identidade textual. A hipotipose se confronta com o conceito de sinal linguístico de Saussure, no qual a compreensão do texto acontece através do estímulo aos recursos plásticos e miméticos que a linguagem permite. A eficácia dos textos, a partir da força da retórica, revela-se na dialética entre a criação e a desconstrução das ideias.
A hipotipose é também a recuperação de experiências e memórias, é a capacidade de contar através das palavras o vivido ou imaginado. Seja na prática narrativa ou em aspectos semióticos, a questão da imagem, ou seja, a relação entre o texto e a experiência das imagens, é um caso que Umberto Eco identifica como “dupla tradução”. Entre as palavras e as imagens, ou entre narração e visão, existe um caminho de idas e vindas que concretiza o ato de colocar em palavras o que é invisível aos olhos. Assim a hipotipose é um estímulo não somente a ver, mas a ter a disponibilidade para ver.
Pode ser uma descrição, como a Biblioteca de Babel de Borges ou um salão parisiense de Proust, ou mesmo um elenco, como nas gavetas da cozinha de Leopold Bloom no Ulysses de Joyce, e assim por diante. Cesare Segre sustenta que o valor comunicativo da imagem parte do princípio de que a língua se difunde no tempo enquanto a imagem se expande no espaço. Quando as palavras nos fazem ver as coisas, por iniciativa do texto e não nossa, acontece a hipotipose, o que caracteriza o efeito estético proposto por Iser na leitura de um livro.
Mas quando acontece a hipotipose? O caráter circular da definição de hipotipose, como uma figura diante da qual se representam ou se evocam experiências visuais através de procedimentos verbais, equivale a dizer, de forma genérica, que “existe hipotipose quando existe hipotipose”. Por isso, evidencia Eco, ela pede ajuda a outras figuras de linguagem para se realizar, mais precisamente à metonímia e à metáfora.
A metonímia acontece quando um termo é usado no lugar de outro, havendo entre ambos estreita afinidade ou relação de sentido. A metáfora é o uso de uma palavra ou uma expressão em lugar de outra, sem que haja uma relação real, mas em virtude da circunstância, tendo sempre um caráter subjetivo e momentâneo.
A hipotipose acontece na definição metafórica “fazer tocar com o dedo” a realidade, é uma proximidade visual que se realiza na escritura. São necessárias técnicas descritivas e narrativas para provocar essa impressão visual no leitor, para fazê-lo colaborar com o texto usando a sua imaginação e criatividade. As táticas e estratégias que, segundo o filósofo francês Michel de Certeau, cada indivíduo está pronto para usar o cotidiano, são úteis no processo de fazer ver o efeito do real no texto. Um efeito real produzido por paralelos entre a análise da realidade, a imaginação da ficção e a sua reprodução textual, o que quer dizer que a hipotipose pode até mesmo criar uma recordação - necessária para que essa possa acontecer.
O uso da hipotipose na escritura depende de várias categorias e Umberto Eco, nas suas pesquisas sobre o tema, enumerou nove. Mas ele adverte que essas categorias não são exaustivas, são apenas direções de pesquisa. De acordo com a sua divisão, a hipotipose pode ser usada para nomear, descrever, descrever comparando, fazer uma ekfrasi oculta, descrever com acúmulo de movimentos agitados, organizar um elenco.
O uso descritivo dessa figura é o mais aproveitado. O que se propõe é uma espécie de indução por meio das palavras, revelando o seu caráter eminentemente pragmático. O leitor deve colaborar com o texto, de forma que seja capaz de construir uma representação visual. Se o objeto não está presente, então ele não pode ser representando através de um substituto da palavra. E essa seria a razão de ser da descrição. Aquela literária então, enquanto referencial, resulta submetida aos critérios que caracterizam a ficção e tem a vocação de falar de um mundo ausente porque imaginado. Todavia a premissa não literária da descrição é aquela que delineia o objeto da descrição procurando criar uma ilusão de verdade – essa é a hipotipose.
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