Como demonstra Cesare Garboli no seu prefácio ao romance "L'Isola di Arturo", Elsa Morante espera uma relação direta e frontal com o seu leitor e o seu crítico. Ao escrever, Elsa Morante parece querer ser olhada diretamente nos olhos, apesar de usar de tantos jogos e movimentos nos seus enredos. Na sua narrativa, ela foge de qualquer tipo de aproximação a esquemas da literatura italiana do século XX. Ela fala de coisas essenciais e ao mesmo tempo quiméricas. Ela tem sempre um “tema” a ser desenvolvido em um diálogo com o Outro.
Garboli nota que, quando Elsa Morante começa um romance, parece que está contando a história de um gato, de um móvel de casa, porque as suas histórias nascem a partir de perspectivas familiares e domésticas. A narrativa começa em um corredor, uma cozinha, naqueles lugares no qual vivemos todos os dias, distraídos, e onde a vida se repete sempre e parece ser perpétua. Os seus personagens vivem uma existência humilde e são parte de uma existência cíclica, de um futuro que ignoramos completamente. Segundo Garboli, a vocação de romancista de Elsa Morante é a da percepção de um outro modo de permanência das coisas, como se a vida pudesse ser ao mesmo tempo eternamente vivida e eternamente perdida.
Portanto, de acordo com essas opções estéticas e éticas da escritora, a violência é permanente e reflete a ética do medo do Outro, principalmente por ser ambientado em uma época de guerra. Se a violência faz parte da existência da humanidade, assim também o medo é um sentimento com o qual o indivíduo deve conviver. O motivo de Ida ser tão ingênua, inocente, quase mecânica, se justifica nessa postura diante de um caminho sem fuga. Não adiantaria Ida se rebelar ou tentar fazer diferente. O destino é marcado pela violência e ela, na sua imobilidade, ao menos consegue se manter viva. Mas para isso ela sente a necessidade de desconfiar do Outro, quase temê-lo, e recusar qualquer contato social.
Neste sentido vemos claramente uma denúncia de Elsa Morante sobre a ética do medo do Outro e a confirmação de uma estética crítica em busca de novas referências existenciais, de angústias psicológicas que ganham status de razão social. A leitura desse romance pede do leitor a simplicidade para acompanhar os passos dessa mãe amedrontada ao lado da sua criança minorada, mas não exatamente pede um efeito catártico, até porque o leitor que Elsa Morante convida a abrir o seu livro é analfabeto não porque não saiba ler. Não é nem mesmo o analfabeto funcional, que sabe ler mas não decifrar os sentidos.
O analfabeto de Elsa Morante é o leitor sem preconceitos, que teria a disponibilidade de agir e refletir sobre a história com seus próprios meios. É o leitor que recusa até mesmo a hegemonia da “alta cultura”, da intelectualidade, ou seja, de quem acredita que, em um certo sentido, tem em mãos o poder. É pensando nesse “leitor implícito” que a narrativa se desenvolve e se articula. A linguagem simples e acessível que revela toda a complexidade daquele momento da guerra é um elemento de aproximação para todo e qualquer leitor. As escolhas temáticas e os argumentos são dirigidos principalmente para aquele leitor que pensa e se preocupa com o Outro, para aquele que leva em consideração os humildes e as vítimas do poder.
BAUMAN, Z. Ética pós-moderna. Trad. João Rezende Costa. São Paulo: Paulus, 1997. P. 100
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