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mercoledì 28 settembre 2011

Useppe e Ida: quem eram?

Em A História, Elsa Morante propõe exprimir a alteridade de um filho bastardo, aceito e amado pela mãe, mas que crescia escondido. No seu esconderijo, o menino crescia rapidamente. Aqui a escritora compara seu nascimento prematuro com a precocidade no crescimento. Podemos visualizar o bebê que se revela pleno de energia e que terá um destino que se confronta a este crescimento. O texto se abre para diversas interpretações do leitor. Que futuro espera Useppe?

"Giuseppe, assim como fora precoce no seu nascimento, revelou-se precoce em tudo. Nas etapas habituais e naturais que assinalam o desenvolvimento dos lactentes, no itinerário das experiências, ele chegava sempre adiantado, mas com uma antecipação tal (pelo menos para aquela época) que eu mesma nem poderia acreditar se não tivesse visto, de alguma maneira, o seu destino. Parecia que as suas pequeninas forças se estendiam todas juntas, com um urgente e imenso ardor, na direção do espetáculo do mundo sobre o qual acabava de penetrar. " (A História)

Giuseppe, come era stato precoce nella nascita, così fino da principio si rivelò precoce in tutto. Alle solite tappe naturali, che segnano l’avanzata di ogni lattante sull’itinerario delle esperienze, lui arrivava sempre in anticipo; ma talmente in anticipo (almeno per quei tempi di allora) che io stessa stenterei a crederci, se non avessi diviso, in qualche modo, il suo destino. Pareva che le sue piccole forze si tendessero tutte insieme, in un grande fervore urgente, verso lo spettacolo del mondo sul quale s’era appena affacciato”.

Vemos esse recém-nascido, prematuro, avançar com força e decisão no seu crescimento e essa antecipação surpreendente revela um conflito na sua existência futura. É o retrato também do filho tão amado pela mãe, ao mesmo tempo em que o renega por ser filho do estupro e da vergonha. Por isso talvez a necessidade de Useppe de se antecipar, de se mostrar vivo, simpático, querido. Ainda no berço, e talvez até antes, no ventre materno, Giuseppe já percebia que precisava lutar para ter o seu mínimo espaço no mundo, mesmo que por breve tempo.

"A temperatura ainda era amena, e Giuseppe ficava completamente nu, no seu bercinho. A vergonha ainda não existia para ele. Seu único sentimento era a avidez de demonstrar às visitas o seu contentamento em recebê-las. Sua alegria era realmente intensa, como se para ele, de cada vez, se renovasse a ilusão de que aquela rápida festa iria durar por toda a eternidade." ( A História) 

“La stagione era ancora mite, e Giuseppe, nel suo lettuccio, stava tutto nudo; però la vergogna non esisteva per lui. L’unico suo sentimento era la brama di esprimere ai visitatori la propria contentezza di riceverli: la quale era infinita, come se ogni volta, per lui, si rinnovasse l’illusione che quella brevissima festa durasse eterna.” 

A alegria contagiante e autêntica deste bebê representada na sua inocente nudez é um modo do leitor ver, através da descrição desta cena, esse estranho cenário de festa, no qual o recém-nascido festeja a visita dos adolescentes do bairro que, convidados pelo irmão Nino, se reúnem na casa para conhecê-lo. Essa nudez é também sinal de fragilidade, e podemos ver o quanto essa reação exagerada revela o caráter festivo e carente do menino.

A ideia que a escritora parece querer pôr em relevância é justamente a de estimular o leitor a querer ver, a imaginar essa criança em estado de graça, como podemos concluir na continuidade dessa descrição cheia de imagens e sugestões. Podemos também, usando nossas referências históricas e culturais, ver no menino a figura do menino Jesus no estábulo. Assim como o Filho de Deus, Useppe nasce fora de casa e passa seus primeiros dias na simplicidade de um bercinho inventado.

"E na sua pretensão, quase louca, de exprimir com os meios de que dispunha aquele contentamento infindo, Giuseppe multiplicava todos de uma só vez com seu tímido bater de pernas, seus olhares maravilhados, seus choros, sorrisos e risadinhas; recebendo em troca uma avalanche de cumprimentos, gracinhas, alguns elogios e beijinhos." ( A História)


Em A História, Elsa Morante propõe exprimir a alteridade de um filho bastardo, aceito e amado pela mãe, mas que crescia escondido. No seu esconderijo, o menino crescia rapidamente. Aqui a escritora compara seu nascimento prematuro com a precocidade no crescimento. Podemos visualizar o bebê que se revela pleno de energia e que terá um destino que se confronta a este crescimento. O texto se abre para diversas interpretações do leitor. Que futuro espera Useppe?


DE CERTEAU, M. A Invenção do Cotidiano. Artes de Fazer.(trad. bras.) São Paulo, Vozes, 1994.
ECO, U. Dire quasi la stessa cosa. p. 198. “Si possono produrre ipotiposi per denotazione (come quando si afferma che tra un luogo e l’altro ci sono venti chilometri di distanza), per descrizione minuta (come quando si dice di una piazza che ha una chiesa a destra e un palazzo antico a sinistra – ma la tecnica può raggiungere stadi di estrema minuzia e raffinatezza, come accade in certi brani di Robbe-Grillet), per elenco ( e si pensi al catalogo degli eserciti davanti alle mura di Troia offerto da Omero nell’Illiade o al catalogo veramente bulimico degli oggetti contenuti nella cucina di Leopold Bloom nel penultimo capitolo dello Ulysses), per accumulo di eventi o di personaggi, che fanno nascere la visione dello spazio dove accadono queste cose (e si possono trovare eccellenti esempi in Rabelais).

A alegria contagiante e autêntica deste bebê representada na sua inocente nudez é um modo do leitor ver, através da descrição desta cena, esse estranho cenário de festa, no qual o recém-nascido festeja a visita dos adolescentes do bairro que, convidados pelo irmão Nino, se reúnem na casa para conhecê-lo. Essa nudez é também sinal de fragilidade, e podemos ver o quanto essa reação exagerada revela o caráter festivo e carente do menino.

A ideia que a escritora parece querer pôr em relevância é justamente a de estimular o leitor a querer ver, a imaginar essa criança em estado de graça, como podemos concluir na continuidade dessa descrição cheia de imagens e sugestões. Podemos também, usando nossas referências históricas e culturais, ver no menino a figura do menino Jesus no estábulo. Assim como o Filho de Deus, Useppe nasce fora de casa e passa seus primeiros dias na simplicidade de um bercinho inventado.

"E na sua pretensão, quase louca, de exprimir com os meios de que dispunha aquele contentamento infindo, Giuseppe multiplicava todos de uma só vez com seu tímido bater de pernas, seus olhares maravilhados, seus choros, sorrisos e risadinhas; recebendo em troca uma avalanche de cumprimentos, gracinhas, alguns elogios e beijinhos."

E nella pretesa, quasi matta, di esprimere coi suoi mezzi miserrimi quella contentezza infinita, Giuseppe moltiplicava tutti in una volta i suoi timidi scalpitii, i suoi sguardi incantati, i suoi vagiti, sorrisi e risatine; ricambiato da una giostra indiavolata di saluti, spiritosaggini, e qualche complimento o bacetto."

Elsa Morante é uma autora de muita criatividade e domina soberana todos os recursos da sua língua, oferece descrições minuciosas e ricas, diálogos com vivacidade e veracidade que revelam adequadamente o caráter dos seus personagens, de acordo com a origem social, a idade, o gênero, sem que isso a faça perder a poesia. Por conta disso, pesquisar a alteridade dos seus personagens em um texto como “A História” revela-se uma atividade muito rica e vasta. Tal fato justifica traçar esse panorama dos personagens usando uma figura retórica como a hipotipose.

A hipotipose aproxima o leitor do texto. Nesse trecho, por exemplo, a autora nos fornece a impressão inicial da sua personagem principal por meio de uma descrição forte e permeada de imagens, que caracterizam o uso da retórica para a definição da personalidade e da alteridade.



"Na verdade, Ida permanecera uma menina, porque o seu principal relacionamento com o mundo sempre fora e continuava a ser, tivesse ela conhecimento ou não disso, uma sujeição amedrontada. Os únicos que, na realidade, não lhe causavam medo tinham sido pai, o marido, e mais tarde, talvez, os alunos. Para ela, todo o resto da humanidade representava uma insegurança destruidora; no entanto, embora nem se desse conta do fato, ela própria também estava presa por suas raízes, sabe-se lá em que pré-história tribal. E nos imensos olhos, amendoados e escuros havia uma doçura passiva, mas ao mesmo tempo eivada de uma barbaria muito profunda e incurável, que parecia conter um conhecimento antecipado das coisas."

De fato, premonição não é a expressão mais adequada, porque o conhecimento estava excluído. A estranheza daqueles olhos recordavam muito mais a estupidez misteriosa dos animais, que “sabem” o passado, e o futuro de cada destino, não com a mente, mas com o sentido de seus corpos vulneráveis. Chamarei a esse sentido – que é comum a eles, e confuso nos outros sentidos corpóreos – de sentido do sagrado, entendendo-se, para eles, por sagrado, o poder universal que pode devorá-los e exterminá-los, pela culpa de terem nascido.

 "E difatti, Ida era rimasta, nel fondo, una bambina, perché la sua precipua relazione col mondo era sempre stata e rimaneva (consapevole o no) una soggezione spaurita. I soli a non farle paura, in realtà erano stati suo padre, suo marito, e più tardi, forse, i suoi scolaretti. Tutto il resto del mondo era un’insicurezza minatoria per lei, che senza saperlo era fissa con la sua radice in chi sa quale preistoria tribale. E nei suoi grandi occhi a mandorla scuri c’era una dolcezza passiva, di una barbarie profondissima e incurabile, che somigliava a una precognizione.
Precognizione, invero, non è la parola più adatta, perché la conoscenza ne era esclusa. Piuttosto, la stranezza di quegli occhi ricordava l’idiozia misteriosa degli animali, i quali non con la mente, ma con un senso dei loro corpi vulnerabili, “sanno” il passato e il futuro di ogni destino. Chiamerei quel senso - che in loro è comune, e confuso negli altri sensi corporei - il senso del sacro: intendendosi, da loro, per sacro, il potere universale che può mangiarli e annientarli, per la loro colpa di essere nati."




"Ida nascera em 1903, sob o signo de Capricórnio, que inclina à indústria, às artes e à profecia, mas também, em determinados casos, à loucura e à estupidez. Era medíocre de inteligência; porém, foi uma estudante dócil e diligente nos estudos e jamais repetiu um ano. Não tinha irmãos nem irmãs; e os pais ensinavam, todos os dois, na mesma escola elementar de Cosenza, onde tinham se encontrado pela primeira vez." (A História) 

"Ida era nata nel 1903, sotto il segno del Capricorno, che inclina all’industria, alle arti e alla profezia, ma anche, in certi casi, alla follia e alla stoltezza. D’intelligenza, era mediocre; ma fu una scolara docile, e diligente nello studio, e non ripeté mai una classe. Non aveva fratelli né sorelle; e i suoi genitori insegnavano tutti e due nella stessa scuola elementare di Cosenza, dove s’erano incontrati la prima volta.” 



O tom quase de denúncia permeia toda a construção literária de A História. Desde o início o leitor é apresentado ao seu personagem principal de forma a criar essa imagem de uma mulher humilde, estúpida, medíocre e dócil. O conhecimento estava excluído da vida Ida Ramundo muito antes que ela pudesse decidir ou tentar adquiri-lo. Estudar ou ser uma boa menina não mudaria em nada o seu percurso de indivíduo simplório e sem grandes conquistas. A única realização de Ida foi a de existir e de ser mãe de duas criaturas, que morrem prematuramente e também não conseguem adquirir o conhecimento necessário para compreender a própria existência e de possuir o domínio da forma como se apresentam diante dos outros.

DE CERTEAU, M. A Invenção do Cotidiano. Artes de Fazer.(trad. bras.) São Paulo, Vozes, 1994.
ECO, U. Dire quasi la stessa cosa. p. 198. “Si possono produrre ipotiposi per denotazione (come quando si afferma che tra un luogo e l’altro ci sono venti chilometri di distanza), per descrizione minuta (come quando si dice di una piazza che ha una chiesa a destra e un palazzo antico a sinistra – ma la tecnica può raggiungere stadi di estrema minuzia e raffinatezza, come accade in certi brani di Robbe-Grillet), per elenco ( e si pensi al catalogo degli eserciti davanti alle mura di Troia offerto da Omero nell’Illiade o al catalogo veramente bulimico degli oggetti contenuti nella cucina di Leopold Bloom nel penultimo capitolo dello Ulysses), per accumulo di eventi o di personaggi, che fanno nascere la visione dello spazio dove accadono queste cose (e si possono trovare eccellenti esempi in Rabelais).

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