A História é um romance popular. As estruturas que dirigem a elaboração do texto no leitor são, entre outros, principalmente os fatos de crônica que antecedem os fatos ficcionais e a narrativa historicamente situada. O lugar desse romance no contexto literário italiano insinua um tom panfletário de denúncia e reflexão sobre questões sociais e políticas que envolvem a guerra e as relações humanas, o individualismo e a desinformação.
Nas questões sociais que o romance revela aparece outro paradigma teórico, que é o uso da linguagem e a construção da alteridade dos personagens. A partir das reflexões de Pierre Bourdieu sobre o poder da palavra do ponto de vista sociológico é abordado o problema da desigualdade social e de gênero. Bourdieu aponta o quanto é importante o papel da família nos processos de desigualdade, seja na relação de gênero como na procura por um lugar na sociedade. A família, centrada na educação e na promoção social das crianças, implica na divisão desigual entre os papéis dos homens e das mulheres. A identidade feminina da protagonista do romance é um aspecto essencial na proposta do romance, assim como a criança enfraquecida pelas crueldades da história (tanto da sua quanto pela História da humanidade).
Por meio da linguagem podemos ver, como propõe Bourdieu, o quanto as condições sociais e a eficácia do discurso ritual determinam também as oportunidades que aparecem ao longo da vida. O mutismo de Ida, a fraqueza intelectual de Nino e o infantilismo da linguagem de Useppe demonstram a limitação desses personagens na luta pela sobrevivência e por um lugar na história porque, como afirma Bourdieu, o poder da palavra reside nas limitações sociais de uso das palavras e da disponibilidade da sociedade de oferecer condições favoráveis ao crescimento pessoal.
A reflexão sobre o poder das palavras não pode deixar de lado a questão do uso da linguagem, das condições sociais de uso das palavras. Bourdieu afirma que o poder das palavras é aquele delegado a quem tem a palavra, à natureza do discurso e à maneira de falar. Portanto vamos investigar a alteridade de Ida e Useppe a partir das categorias de Bourdieu, principalmente a partir do uso da palavra e da alteridade dos personagens identificadas por este uso, e pelas imagens que a autora oferecerá através das hipotiposes.
Elsa Morante dedicou este livro aos leitores implicitamente analfabetos. Na leitura proposta nessa pesquisa, esse leitor implícito é aquele que pode e quer ler além do que está impresso no papel, que tem capacidade de elaboração de uma realidade que muitas vezes não se revela nos fatos reais, que tem sensibilidade para acreditar na utopia e na bondade humana, apesar da violência e desumanidade da História. A autora oferece aos seus leitores uma opinião clara e definida, a partir do ponto de vista dos excluídos, sobre os fatos históricos. E se utiliza do argumento da maternidade para defender o papel feminino na determinação do percurso intelectual e cultural dos indivíduos.
Esse romance ocupa um lugar de destaque na bibliografia de Elsa Morante também porque se diferencia dos outros livros escritos por ela, sempre permeados pela fantasia e pelo mundo interior dos personagens. A História é uma exceção porque se propõe a buscar e representar o “mundo real”, no entanto, a crueza da realidade se depara com o lirismo das suas palavras, a construção de imagens fortes nos oferece ao mesmo tempo desenhos delicados de personagens frágeis. Esses são alguns dos motivos que deram a este livro um lugar de destaque na literatura italiana e que justificam essa pesquisa.
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