A importância da obra de Elsa Morante nos estudos acadêmicos brasileiros sobre literatura estrangeira moderna se deve à qualidade literária, no sentido de uma construção criativa e original da narrativa, mas também pela proposta social a qual se propõe, ou seja, crítica à história, voz aos oprimidos e valorização do gênero feminino.
Existem muitos estudos acadêmicos e de crítica literária sobre os percursos literários de Elsa Morante como, por exemplo, Carlo Sgorlon, Concetta D’Angeli, Cesare Garboli e Drude Von der Ferh na Itália. No Brasil foram realizadas pelo menos duas pesquisas acadêmicas sobre essa autora, uma tese de doutorado de Maria Aparecida da Silva, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e uma dissertação de mestrado na Universidade de São Paulo, elaborada por Luciane Alves.
Entre cânone e crise, identificamos uma escritora que usa as referências recebidas para criar uma narrativa ao mesmo tempo densa e acessível, de palavras que aparecem entre fortes escolhas de adjetivos e figuras de linguagem. Segundo um dos seus críticos italianos, Mario Sansone, no desenho histórico da literatura italiana Elsa Morante, antes de A História, era uma escritora essencialmente voltada para o sabor mágico das palavras, para o puro exercício da arte fora de qualquer ligação com o real. Nas suas histórias personagens e paisagens são envolvidos por uma atmosfera mítica, atraídos irresistivelmente pela veia lírico-fantástica da narradora.
A História quebra esse percurso.
Mas A História preserva outros elementos presentes em toda a bibliografia de Elsa Morante, como o tom lírico das descrições, o tema da loucura e, principalmente, temos presente a figura da mãe e sua relação com os filhos, como é possível observar em Mezogna e Sortilegio, Aracoeli e L´Isola di Arturo. A maternidade, recusada na sua vida pessoal, será um tema muito abordado na narrativa da escritora e que aparece quase como tema central em A História.
Segundo a análise de Carlo Sgorlon, em A História Elsa Morante conseguiu narrar em tom de fábula fatos culturais e históricos. É literatura como elemento de reflexão sobre a realidade e por isso crítica literária italiana tende a vê-la, em muitos casos, como uma escritora que se serve da narrativa ficcional como pretexto para uma interpretação ensaísta e ideológica da realidade. E a própria Elsa Morante afirmava que no seu processo criativo usava suas histórias pessoais para interpretar a realidade.
De acordo com outro crítico italiano, Cesare Garboli, o amor é a temática central em Elsa Morante e ele aparece como uma espécie de síndrome, quase sempre ligado a uma relação doentia entre as pessoas. Esse amor é uma paixão sublime, mas infectada; “é o vento que tudo carrega, mas é também uma planta inseparável da sua obscura e enterrada raiz social” . O contexto social aparece como um fato do qual não se pode escapar, “um muro contra o qual as paixões se chocam e são abatidas”.
A crítica literária nem sempre foi muito coerente na análise da obra de Elsa Morante, considerada sempre uma figura difícil de ser catalogada na cultura literária italiana. Isto se deve ao fato de que ela foi um personagem marcado por um isolamento pessoal e artístico estranho para a mentalidade do seu tempo, em que os intelectuais estavam interessados na troca e nos diálogos. Provavelmente porque escolheu viver isolada, sem dúvidas a inserção de Elsa Morante no ambiente literário de Roma foi problemático. Desde o seu nascimento, a adaptação dessa escritora ao mundo se revelou cheia de obstáculos.
Segundo Carlo Sgorlon, Elsa Morante foi uma das “poucas narradoras de histórias encantadas no terrível século XX italiano”, um período marcado por guerras, miséria, violência e um forte individualismo. Sua personalidade selvagem, distante dos fatos históricos, anárquica e resistente às assimilações das áridas características da cultura italiana, aliada a um conjunto de complexos psicológicos, conservou intacta a capacidade de narrar histórias cheias de fantasia e lirismo. Sua recusa inicial em não enfrentar a história real nos seus livros se deve certamente a uma tentativa de evasão artística que, após as experiências traumáticas vividas por ela, como a guerra e o regime fascista, vão aparecer na sua obra, mais especificamente em A História.
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