Ao fim dessa pesquisa fica evidente a necessidade de uma reflexão também sobre o ato de traduzir as hipotiposes, com a clara intenção de não deixar esmorecer a força das imagens e descrições propostas no original. Portanto, foram elaboradas algumas traduções, deixando de lado a tradução de 1979, usada como fonte de citação do texto em português ao longo da dissertação. Como o foco nesse exercício de tradução é a valorização da hipotipose, a atividade de traduzir ganha um novo sentido além daquele de comunicar em uma outra língua uma narrativa existente. Foram evitadas comparações e consultas à tradução já existente e publicada. Ao longo das últimas décadas a própria prática da tradução no Brasil se modificou e isso tem uma influência direta nesse exercício.
Mas o objetivo principal dessas novas traduções é chamar a atenção e colocar novamente em destaque a qualidade narrativa de Elsa Morante. Por isso, a base do trabalho foi o de respeitar o máximo possível o estilo, o ritmo, a estética da escritora, mesmo que isso significasse algumas perdas de qualidade literária na Língua Portuguesa. O caminho encontrado para realizar tal atividade foi o de manter o modo de pensar italiano, mais especificamente aquele de Elsa Morante.
As traduções são apresentadas da seguinte forma:
Primeiro reproduzimos os trechos originais em italiano já citado nos capítulos anteriores na forma “L.S. p.”, encontrados nas notas de rodapé e em itálico, ao lado a página onde essa referência pode ser encontrada no trabalho. Em seguida, a nova tradução em negrito.
(L.S. p. 97, cit. p. 37) “Giuseppe, come era stato precoce nella nascita, così fino da principio si rivelò precoce in tutto. Alle solite tappe naturali, che segnano l’avanzata di ogni lattante sull’itinerario delle esperienze, lui arrivava sempre in anticipo; ma talmente in anticipo (almeno per quei tempi di allora) che io stessa stenterei a crederci, se non avessi diviso, in qualche modo, il suo destino. Pareva che le sue piccole forze si tendessero tutte insieme, in un grande fervore urgente, verso lo spettacolo del mondo sul quale s’era appena affacciato”.
Giuseppe, assim como foi prematuro no nascimento, desde o início se revelou prematuro em tudo. Nas várias etapas naturais do desenvolvimento, que simbolizam o avanço de todo bebê no intinerário das experiências, ele chegava sempre com antecipação; mas tão antes (pelo menos para aqueles tempos) que eu mesma custaria a acreditar se não tivesse compartilhado, de alguma forma, o seu destino. Parecia que as suas poucas forças se unissem todas juntas, em um grande ardor urgente, em direção ao espetáculo do mundo ao qual ele tinha sido apenas apresentado.
“La stagione era ancora mite, e Giuseppe, nel suo lettuccio, stava tutto nudo; però la vergogna non esisteva per lui. L’unico suo sentimento era la brama di esprimere ai visitatori la propria contentezza di riceverli: la quale era infinita, come se ogni volta, per lui, si rinnovasse l’illusione che quella brevissima festa durasse eterna.” ( LS. P. 105, cit. p. 38)
A temperatura da estação ainda era amena, e Giuseppe, na sua caminha, estava todo nu; mas a vergonha não existia para ele. Seu único sentimento era a avidez em demonstrar aos visitantes a própria alegria em recebê-los: a qual era infinita, como se a cada vez se renovasse para ele a ilusão de que aquela brevíssima festa fosse eterna.
“E nella pretesa, quasi matta, di esprimere coi suoi mezzi miserrimi quella contentezza infinita, Giuseppe moltiplicava tutti in una volta i suoi timidi scalpitii, i suoi sguardi incantati, i suoi vagiti, sorrisi e risatine; ricambiato da una giostra indiavolata di saluti, spiritosaggini, e qualche complimento o bacetto. (LS. p. 105, cit. p. 38)
E na sua ambição, quase louca, de exprimir com os seus míseros meios aquela alegria infinita, Giuseppe multiplicava tudo o que sabia, fazendo ao mesmo tempo os seus tímidos esperneios, os seus olhares encantados, os seus chorinhos, sorrisos e risadinhas; tudo retribuído por um carrossel endiabrado de saudações, gracinhas, e algum elogio ou beijinho.
“E difatti, Ida era rimasta, nel fondo, una bambina, perché la sua precipua relazione col mondo era sempre stata e rimaneva (consapevole o no) una soggezione spaurita. I soli a non farle paura, in realtà erano stati suo padre, suo marito, e più tardi, forse, i suoi scolaretti. Tutto il resto del mondo era un’insicurezza minatoria per lei, che senza saperlo era fissa con la sua radice in chi sa quale preistoria tribale. E nei suoi grandi occhi a mandorla scuri c’era una dolcezza passiva, di una barbarie profondissima e incurabile, che somigliava a una precognizione.
Precognizione, invero, non è la parola più adatta, perché la conoscenza ne era esclusa. Piuttosto, la stranezza di quegli occhi ricordava l’idiozia misteriosa degli animali, i quali non con la mente, ma con un senso dei loro corpi vulnerabili, “sanno” il passato e il futuro di ogni destino. Chiamerei quel senso - che in loro è comune, e confuso negli altri sensi corporei - il senso del sacro: intendendosi, da loro, per sacro, il potere universale che può mangiarli e annientarli, per la loro colpa di essere nati.
Ida era nata nel 1903, sotto il segno del Capricornio, che inclina all’industria, alle arti e alla profezia, ma anche, in certi casi, alla follia e alla stoltezza. D’intelligenza, era mediocre; ma fu una scolara docile, e diligente nello studio, e non ripeté mai una classe. Non aveva fratelli né sorelle; e i suoi genitori insegnavano tutti e due nella stessa scuola elementare di Cosenza, dove s’erano incontrati la prima volta.” (L.S. p. 24-25, cit. p. 41).
E realmente Ida, no fundo, ainda era uma menina, porque a sua principal relação com o mundo sempre foi e continuava a ser (conscientemente ou não) uma sujeição amedrontada. Na verdade, as únicas pessoas que nunca tinham lhe dado medo eram o seu pai, o seu marido, e talvez, mais tarde, os seus aluninhos. Todo o resto do mundo era, para ela, de uma insegurança ameaçadora, sem saber a sua raiz estava presa em quem sabe qual pré-historia tribal. E nos seus grandes olhos escuros amendoados tinha uma doçura passiva, de uma barbárie profundíssima e incurável, semelhante a uma precognição.
Precognição, na verdade, não é a melhor palavra, porque aqui se exclui o conhecimento. Mais que isso, a esquisitice daqueles olhos lembrava a imbecilidade misteriosa dos animais, os quais não com a mente, mas com a intuição da vulnerabilidade dos seus corpos, “conhecem” o passado e o futuro de cada destino. Chamarei aquela intuição - que neles é comum, e confuso nas outras sensações corpóreas - a intuição do sagrado: sendo o sagrado entendido por eles como o poder universal que pode comê-los e destruí-los, pela simples culpa de ter nascido.
Ida nasceu em 1903, sob o signo de capricórnio, que dá inclinação para a indústria, pras artes e para a profecia, mas também, em certos casos, para a loucura ou estupidez. De inteligência, era medíocre; mas foi uma aluna dócil e dedicada ao estudo, nunca repetiu de ano. Não tinha irmãos nem irmãs; os seus pais davam aula todos os dois na mesma escola de ensino fundamental de Cosenza, onde se encontraram pela primeira vez.
“Iduzza perdeva ogni paura accanto a suo padre, il quale per lei rappresentava una specie di carrozzella calda, luminosa e zoppicante, più inespugnabile d’un carro armato, che la portava gaiamente a spasso, al sicuro fra i terrori del mondo: dovunque accompagnandola, e mai permettendo che la si mandasse sola per le vie, dove ogni uscio, finestra o incontro estraneo la minacciavano d’offesa. D’inverno, forse per economia, usava certi mantelli da pastore, ampi e piuttosto lunghi, e nelle giornate di maltempo, la riparava dalla pioggia tenendosela vicino accostata sotto il proprio mantello.” (L.S. p. 30, cit. p. 47).
Iduzza perdia todo o medo ao lado do seu pai, que representava para ela uma espécie de carrinho quente, luminoso e saltitante, mais inatingível que um carro armado, e que a levava alegremente e em segurança para passear em meio aos terrores do mundo: acompanhando-a por toda parte, e jamais permitindo que ela andasse sozinha pelas ruas, onde cada soleira, janela ou encontro estranho a ameaçavam com alguma ofensa. No inverno, talvez por economia, usava umas espécies de capa de pastor, amplas e bastante longas, e nos dias de mal tempo, a protegia da chuva mantendo-a bem pertinho escondida sob a própria capa.
“Non s’era mai vista una creatura più allegra di lui. Tutto ciò che vedeva intorno lo interessava e lo animava gioiosamente. Mirava esilarato i fili della pioggia fuori della finestra, come fossero coriandoli e stelle filanti multicolori. E se, come accade, la luce solare, arrivando indiretta al soffitto, vi portava, riflesso in ombre, il movimento mattiniero della strada, lui ci si appassionava senza stancarsene: come assistesse a uno spettacolo straordinario di giocolieri cinesi che si dava apposta per lui. Si sarebbe detto, invero, alle sue risa, al continuo illuminarsi della sua faccetta, che lui non vedeva le cose ristrette dentro i loro aspetti usuali; ma quali immagini multiple di altre cose varianti all’infinito. Altrimenti non si spiegava come mai la scena miserabile, monotona, che la casa gli offriva ogni giorno, potesse rendergli un divertimento così cangiante, e inesauribile.” (L.S. p. 118, cit. p. 49)
Nunca se vira uma criancinha mais alegre do que ele. Tudo que via à sua volta o interessava e animava alegremente. Olhava divertido os pingos de chuva fora da janela, como se fossem confetes e serpentinas multicoloridas. E se, como acontece, a luz solar, batendo indiretamente no teto, refletia em sombras o movimento matinal da rua, ele se apaixonava incansavelmente por aquillo: como se assistisse a um extraordinário espetáculo de malabaristas chineses apresentado somente pra ele. Diria-se, na verdade, diante dos seus sorrisos, do seu rostinho constantemente iluminado, que ele não via as coisas restritas ao seu aspecto usual; mas como múltiplas imagens de outras coisas infinitamente transformadas. Caso contrário não se explicava como aquele cenário miserável, monótono, que a casa lhe oferecia todo dia, pudesse lhe dar uma diversão tão cheia de nuances e interminável.
“Tutti i semi sono falliti eccettuato uno, che non so cosa sia, ma che probabilmente è un fiore e non un’erbaccia.” (L.S. p. 605, p. 51).
Todas as sementes faliram com exceção de uma, que não sei o que é, mas provavelmente é uma flor e não uma erva daninha.
“Nell’ingressetto buio, il corpo di Useppe giaceva disteso, con le braccia spalancate, come sempre nelle sue cadute. Era tutto vestito, salvo i sandaletti che, non affibiati, gli erano cascati via dai piedi. Forse, vedendo la bella mattinata di sole, aveva preteso di andarsene pure oggi con Bella alla loro foresta? Era ancora tiepido, e cominciava appena a irrigidirsi; però Ida non volle assolutamente capire la verità. Contro i presagi ricevuti prima dai suoi sensi, adesso, davanti all’impossibile, la sua volontà si tirò indietro, col farglielo credere soltanto caduto (durante quest’ultima ora della propria lotta inaudita col Grande Male, in realtà Useppe, là nell’ingresso, era caduto e ricaduto da un attacco a un altro e a un altro, quasi senza sosta...) E dopo averlo trasportato in braccio sul letto, essa si tenne là china su di lui, come le altre volte, in attesa che lui rialzasse le palpebre in quel suo solito sorriso particolare. Solo in ritardo, incontrando gli occhi di Bella, essa capì.” (L.S. p. 592, p. 53).
Na entrada escura, o corpo de Giuseppe jazia estendido com os braços abertos, como sempre nas suas caídas. Estava todo vestido, com exceção das sandalinhas que, não afiveladas, tinham caído dos pés. Talvez, vendo a bela manhã de sol, tinha planejado ir com Bela até a floresta deles? Estava ainda morno e começando a ficar rígido; mas Ida não queria absolutamente compreender a verdade. Contras todos os presságios recebidos antes pelos seus sentidos, agora, diante do impossível, a sua vontade se retraiu, fazendo-a acreditar que ele tinha apenas caído (durante a última hora da sua inacreditável própria luta com o Grande Mal, na verdade Useppe, lá na entrada, tinha caído e recaído de um ataque a outro, quase sem parar...) E depois de tê-lo transportado nos braços até a cama, ela ficou lá debruçada sobre ele, como nas outras vezes, esperando que ele reabrisse os olhos com aquele sorriso especial de sempre. Somente depois, encontrando os olhos de Bella, ela entendeu.
“Nella sua precocità, aveva presto imparato a camminare per la casa sulle ginocchia e sulle mani, a imitazione di Blitz, che forse fu il suo maestro. L’uscio dell’ingresso, per lui, era lo sbarramento estremo dell’universo, come le Colonne d’Ercole per gli antichi esploratori.” (L.S., p. 117. cit. p. 54)
Na sua precocidade, tinha logo aprendido a caminhar pela casa sobre seus joelhos e suas mãos, imitando Blitz, que talvez tenha sido o seu professor. A soleira da porta, para ele, era a barreira extrema do universo, como as Colunas de Hércules para os antigos exploradores.
“Adesso, non era più nudo; ma infagottato, per ripararsi dal freddo, in vari cenci di lana che lo facevano sembrare un poco più tondo, come i cuccioli nel loro pelo. Il disegno del suo viso ormai si precisava con evidenza. La forma del nasino cominciava a profilarsi, diritta e delicata; e i tratti, puri nella loro minuzia, ricordavano certe piccole sculture asiatiche. Decisamente, non somigliava a nessuno della parentela; fuorché negli occhi, quasi gemelli di quelli occhi lontani. Gemelli, però, nella fattura e nel colore; non nello sguardo. L’altro sguardo, infatti, era apparso terribile, disperato e quasi impaurito; e questo, invece, era fiducioso e festante.” (L.S., p. 117, cit. p. 55)
Agora não estava mais nu; mas envolvido, para se proteger do frio, em vários farrapos de lã que o faziam parecer um pouco mais redondo, como os filhotes peludos. O desenho do seu rosto se apresentava enfim com clareza. A forma do seu narizinho começava a se esboçar, reta e delicada; e os traços, mesmo nas suas minúcias, lembravam algumas pequenas esculturas asiáticas. Definitivamente não parecia com nenhum parente; com exceção dos olhos, quase gêmeos daqueles olhos distantes. Gêmeos, porém, na forma e na cor; mas não no olhar. O outro olhar, de fato, parecia terrível, desesperado e quase amedrontado; e este, ao contrário, era confiante e festivo.
“Così Giuseppe recluso fino dalla nascita compieva la sua prima uscita nel mondo, né più né meno come Budda. Però Budda usciva dal giardino lucente del re suo padre per incontrarsi, appena fuori, coi fenomeni astrusi della malattia, della vecchiaia e della morte; mentre si può dire che per Giuseppe, al contrario, il mondo si aperse, quel giorno, come il vero giardino lucente.” (L.S., p. 120, cit. p. 55)
Assim Giuseppe, enclausurado desde o nascimento, realizava a sua primeira visita ao mundo, mais ou menos como Buda. Mas Buda saíra do jardim luminoso do rei seu pai para se encontrar, apenas fora, com os fenômenos incompreensíveis da doença, da velhice e da morte; enquanto que, ao contrário, para Giuseppe pode-se dizer que o mundo se mostrou, aquele dia, como um verdadeiro jardim luminoso.
“E forse fra gli occhi del bambino e quelli della bestia si svolse un qualche scambio inopinato, sotterraneo e impercettibile. D’un tratto lo sguardo di Giuseppe sofrì un mutamento strano e mai prima veduto, del quale, tuttavia, nessuno si accorse. Una specie di tristezza o di sospetto lo attraversò, come se una piccola tenda buia gli calasse davanti.” (L.S. p. 122, cit. p. 57)
E talvez entre os olhos do menino e os do animal aconteceu uma espécie de troca inesperada, subterrânea e imperceptível. De repente o olhar de Giuseppe sofreu uma transformação estranha e nunca antes vista, a qual, no entanto, ninguém percebeu. Uma espécie de tristeza ou de suspeita o invadiu, como se uma pequena cortina escura despencasse diante dele.
“L’interno dei carri, scottati dal sole ancora estivo, rintronava sempre di quel vocio incessante. Nel suo disordine, s’accalcavano dei vagiti, degli alterchi, delle salmodie da processione, dei parlottii senza senso, delle voci senili che chiamavano la madre; delle altre che conversavano appartate, quasi cerimoniose, e delle altre che perfino ridacchiavano. E a tratti su tutto questo si levavano dei gridi sterili agghiaccianti; oppure altri, di una fisicità bestiale, esclamanti parole elementari come “bere!” “aria!” Da uno dei vagoni estremi, sorpassando tutte le altre voci, una donna giovane rompeva a tratti in certe urla convulse e laceranti, tipiche delle doglie del parto.
E Ida riconosceva questo coro confuso. Non meno che le strida quasi indecenti della signora, e che gli accenti sentenziosi del vecchio De Segni, tutto questo misero vocio dei carri la adescava con una dolcezza struggente, per una memoria continua che non le tornava dai tempi, ma da un altro canale: di là stesso dove la ninnavano le canzoncine calabrese di suo padre, o la poesia anonima della notte avanti, o i bacetti che le bisbigliavano carina carina. Era un punto di riposo che la tirava in basso, nella tana promiscua di un’unica famiglia sterminata.”(L. S. p. 230-231, cit. p. 57)
“No interior dos vagões, aquecidos pelo sol que ainda era de verão, ressoava sempre aquele murmúrio incessante. Na sua desordem se acumulavam choros, discussões, recitação de salmos, conversas sem sentido, vozes senis chamando a própria mãe; outras vozes conversavam afastadas, quase cerimoniosas, e outras até mesmo gracejavam. E, de vez em quando, ouviam-se terrificantes gritos inúteis; e mesmo outros, de uma corporeidade animalesca, exclamando palavras elementares como “beber!” “ar!” De um dos vagões finais, superando todas as outras vozes, uma jovem mulher soltava de vez em quando uns berros convulsos e lacerantes, típicos das dores do parto.
E Ida reconhecia esse coro confuso. Não menos que os gritos quase indecentes da senhora, e as palavras sentenciosas do velho De Segni, todo esse murmúrio miserável dos carros a atraía com uma doçura nostálgica, como uma recordação constante que há tempos não experimentava, mas vinda de um outro canal: de lá mesmo onde a ninavam as canções calabresas do seu pai, ou a poesia anônima da noite anterior, ou os beijinhos que lhe sussurravam querida querida. Era um ponto de repouso que a jogava pra baixo, na promíscua caverna de uma família exterminada.
“Negli ultimi mesi dell’occupazione tedesca, Roma prese l’aspetto di certe metropoli indiane dove solo gli avvoltoi si nutrono a sazietà e non esiste nessun censimento dei vivi e dei morti. Una moltitudine di sbandati e di mendicanti, cacciati dai loro paesi distrutti, bivaccava sui gradini delle chiese o sotto i palazzi del papa; e nei grandi parchi pubblici pascolavano pecore e vacche denutrite, sfuggite alle bombe e alle razzie delle campagne. Nonostante la dichiarazione di città aperta, le truppe tedesche si accampavano intorno all’abitato, correndo le vie consolari con il fracasso dei loro carriaggi.” (L.S. p. 303. cit. p. 58)
Nos últimos meses da ocupação alemã, Roma ficou parecendo aquelas metrópoles indianas onde somente os abutres se nutrem até a saciedade e onde não existe nenhuma estatística sobre os vivos e os mortos. Uma multidão de dispersos e de pedintes, expulsos das suas cidades destruídas, acantonavam nos degraus das igrejas ou embaixo dos palácios do papa; e nos grandes parques públicos pastavam ovelhas e vacas desnutridas, afugentadas pelas bombas e ataques aéreos nas zonas rurais. Apesar da declaração de cidade aberta, as tropas alemães acampavam nas redondezas, percorrendo as ruas consulares com o fragor das suas viaturas.
“In quell’ultima decade di maggio, essa commise, di media, un furto al giorno. Stava sempre di guardia, come una borsaiola, pronta alla prima occasione di arraffare. Perfino al Mercato Nero di Tor di Nona, dove i mercanti del vigilavano peggio di mastini, con la sua destrezza incredibile riuscì a predare un pacchetto di sale, che a casa poi spartì con Filomena, in cambio di polenta bianca.
D’un tratto, era caduta in una depravazione senza scrupoli. Fosse stata meno vecchia e brutta, si sarebbe magari buttata al marciapiede come Santina. Oppure, fosse stata più pratica, avrebbe seguito l’esempio di una pensionata di nome Reginella, cliente di Filomena, che andava ogni tanto a mendicare nei ricchi quartieri di Roma Alta, dove non era conosciuta. Ma quei centri di lusso - oltre che feudo, oramai, dei Comandi tedeschi - a lei si mostravano da sempre situati in una lontananza straniera e irraggiungibile, non meno di Persepoli o Chicago.
E tuttavia, in questa Ida inaspettata, come in un fenomeno doppio, la timidezza naturale del carattere perdurava, anzi cresceva morbosamente. Mentre correva le strade rubando, a casa poi quasi non s’attentava a usare i fornelli, nella cucina comune. Dai cibi (alquanto scarsi) della famiglia, scansava, non dico la mano, ma perfino l’occhio, come i selvaggi dai tabù. E in classe, piuttosto che una maestra, pareva ridotta a una scolaretta spaurita: al punto che i suoi bambinelli, per quanto sfiatati dalla fame, già rischiavano di trasformarsi in una banda senza riguardi. (Per fortuna, la chiusura anticipata delle scuole sopravvenne in tempo a risparmiarle questo affronto, mai subìto finora nella sua carriera.” (L.S. p. 311, cit. p. 60)
Naquela última quinzena de maio, ela cometeu, em média, um furto ao dia. Estava sempre de prontidão, como uma larápia, sempre pronta para a primeira oportunidade de surrupiar. Até mesmo no Mercado Negro de Tor di Nona, onde os vendedores vigiavam mais que mastins, com a sua habilidade inacreditável conseguiu agarrar um pacote de sal, que em casa dividiu com Filomena, em troca de polenta branca.
De repente tinha caído em uma depravação sem escrúpulos. Se fosse menos velha e feia, teria se entregado à vida de rua como Santina. Ou talvez, se fosse uma pessoa mais prática, teria seguido o exemplo de uma aposentada chamada Reginella, cliente de Filomena, que de vez em quando ia mendigar nos ricos quarteirões de Roma Alta, onde não era conhecida. Mas aqueles centros de luxo - além de, nessa altura, serem feudos dos alemães - para ela sempre pareceram localizados em uma terra estrangeira e inatingível, não menos que Persépolis ou Chicago.
E, no entanto, nessa Ida inesperada, como um fenômeno duplo, a timidez natural do seu caráter continuava, aliás, crescia morbidamente. Enquanto corria pelas ruas roubando, em casa quase não conseguia usar o fogão da cozinha comunitária. Da comida (relativamente escarsa) da família, afastava, não digo a mão, mas até mesmo o olho, como os selvagens com os tabus. E na sala de aula, mais que uma professora, parecia reduzida a uma aluninha amedrontada: ao ponto das suas criancinhas, apesar de consumidos pela fome, já corriam o risco de se transformarem em um bando sem escrúpulos. (Por sorte, o fechamento antecipado das escolas aconteceu em tempo de poupá-la dessa afronta, jamais ocorrida até agora na sua carreira).
muito legal, Luciana! Nunca li Elsa Morante e fiquei com vontade de ler.
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